Quero ser Loyola Brandão

Quero ser Loyola Brandão

Atualizado em 28/03/2008 às 14:03, por Rodrigo Manzano.

Eu quero ser Ignácio de Loyola Brandão. Se o gênio da lâmpada mágica me concedesse três pedidos, eu faria somente um: ser como o cronista de Pinheiros. Tudo isso porque somente o Ignácio de Loyola Brandão escreve sobre o que quer. Quando leio os textos do velho cronista no Estadão - hoje ele escreveu sobre Jorge Amado e lembrou sua primeira leitura da obra do baiano, na biblioteca pública de Araraquara - tenho uma inveja profunda porque Loyola quase sempre parece escrever como quem brinca. E, ademais, suas crônicas são povoadas por seu bairro, por suas memórias de infância, pelas coisas absolutamente banais, como se fossem um espelhinho na mão dos xavantes. O espelhinho é Brandão, os xavantes somos nós.

Se eu fosse Ignácio de Loyola Brandão, hoje eu escreveria sobre Mauro e Rosa. Mauro e Rosa são meus tios. Eles já morreram. Mas meus tios Mauro e Rosa nunca apareceram no jornal, nem na televisão, nem no rádio e nem no Youtube. Eles tinham alguma coisa como 80 anos quando morreram; ela antes, em 2005, ele depois, no ano passado. A melhor coisa do mundo era ouvir os assuntos dos dois. O mundo, para minha tia Rosa, se restringia ao quintal de casa e à novela das oito, com cujos personagens travava diálogos. No quintal, ela tinha muitos cachorros, alguns gatos e um papagaio, além de um pé de goiaba, outro de romã e um latifúndio de couves. Minha tia Rosa nutria uma estranha obsessão pelo Japão. Me fez prometer que um dia a levaria até lá. Ela achava o Japão um país muito "grã-fino", para utilizar uma expressão sua: qualquer presente dado a ela que tivesse alguma relação com o país, tornava-se uma relíquia. Quando ela morreu, eu lamentava que não a tinha levado ao Japão, lugar que nem eu mesmo ainda fui.

Já meu tio era um ser do século XIX com idéias do século XXI. Em geral, os velhos são o inverso, não ele. Por exemplo, quando se conheceram, Mauro e Rosa ficaram tão apaixonados que logo se casaram. Bem, na verdade não se casaram, foram morar juntos. Minha tia era dona de uma banca de jornais e meu tio era um eletricitário, ou seja, cuidava das instalações elétricas públicas da cidade, das fiações, dos postes, em Londrina. Ele passou em frente à banca dela e ela se apaixonou. Demoraram décadas para formalizar, no civil, o casamento. O papel não valia nada. Nada mais moderno, ou pós-moderno. Meu tio também gostava muito de pesquisas científicas, embora não tivesse completado o primário. Um dia, o Jornal Nacional anunciou que feijão combatia o estresse. Meu tio não se cansava de repetir a pesquisa, citando os dados - que não-sei-quantos porcento das pessoas que comem feijão diariamente não sofrem de ansiedade - e tratava de mostrar a importância do feijão na paz mundial. Arriscava, inclusive, uma teoria de que se o feijão fosse um alimento universal, talvez não tivéssemos passado pelas duas Grandes Guerras. Também não tomava remédios, somente o comprimido branco para a pressão arterial. Preferia cultivar matos, plantas, ervas, raízes no quintal, atribuindo a cada uma delas um fim medicinal.

O meu tio tinha muitas histórias, que embutiam muitos orgulhos discretos. Uma que ele gostava muito de contar era o dia que Londrina ficou sem jornal porque ele desligou a luz do principal jornal da cidade, a Folha de Londrina . Ele relatava, enquanto ria, que na hora em que desligou a luz, viu o João Milanez, uma espécie de Frias, Mesquita ou Marinho pé-vermelho, dono do jornal, aos berros, na calçada, enquanto ele, em cima do poste, tentava resolver o problema. Segundo meu tio, o jornal não saiu no dia seguinte. Eu acho que era exagero.

Meu tio e minha tia cultivavam, além das ervas medicinais e as velhas histórias, uma estranha metafísica. Ele não acreditava em Deus. Ela, por sua vez, acreditava em Deus, em todos os santos e divindades.

Pois bem, se eu fosse Ignácio de Loyola Brandão, escreveria sobre meus tios, mas não o sou. Enquanto isso, fico pensando como teria sido bom que Mauro e Rosa um dia tivessem contado sua história para um repórter da televisão. Eles iriam ficar muito orgulhosos, mas os jornais não querem o povo nem as belas histórias. Os jornais só distribuem canivetes. Espelhinhos, nunca.