Prensa Latina: "Crónica" faz do sensacionalismo uma arte surreal
Prensa Latina: "Crónica" faz do sensacionalismo uma arte surreal
Qualquer crime ou tragédia tem em "Crónica" um tratamento que, por meio de adjetivos carregados, anaboliza o impacto da notícia.
O jornalismo sensacionalista tem na Argentina uma peculiar vertente surrealista com abundantes doses de ironia. Seu exemplo mais emblemático é o canal de notícias por cabo "Crónica TV", um dos principais no Ibope, famoso neste país por apresentar as notícias com chamativos cartazes de fundo vermelho e letras brancas com a vinheta musical da marcha "Stars and Stripes Forever", de John Philip Sousa. A música é sempre a mesma, seja a notícia o atentado contra as Torres Gêmeas, um jacaré que deglutiu um bebê na província de Misiones ou uma septuagenária atropelada em Buenos Aires. O locutor adverte, indefectivelmente, "Último momento!", antes de ler a notícia.
Ali, as notícias não têm hierarquia. Tudo está misturado. A morte de Yasser Arafat ou do papa pode ser seguida de uma matéria sobre uma carteira roubada no centro da cidade ou de uma explosão de um fogão no bairro da Boca.
Qualquer crime ou tragédia tem em "Crónica" um tratamento que, por meio de adjetivos carregados, anaboliza o impacto da notícia. Esse foi o caso, em 1995, da manchete "Chilenos invadem Bolívia", no meio de uma crise diplomática pela existência de minas explosivas na fronteira. Minutos depois do impacto, os espectadores souberam que não era um conflito bélico, mas sim, uma "invasão" de turistas chilenos às ruínas incas em território boliviano.
A ironia prima nas notícias de acidentes, como por exemplo na manchete "vacas que fugiram de caminhão correm pela avenida Gaona, muitas delas, na contramão". Outro exemplo foi a cobertura - ao vivo - da fuga de um macaco de um zoológico, cujo desenlace mereceu a manchete, anunciada com o devido estardalhaço: "o macaco está cercado".
Pináculo do absurdo, "Crónica" pode informar que faltam, por exemplo, "186 dias para o início da primavera". O canal também prima pelo chauvinismo. Os britânicos são sempre (em qualquer notícia) chamados de "corsários" por terem "roubado" as Malvinas dos argentinos.
Os apresentadores - que de forma alguma são modelos de beleza - não sorriem nem fazem piadinhas. As notícias, embora sensacionalistas no conteúdo, são lidas de forma sóbria. As coberturas das manifestações também possuem um diferencial. Enquanto os demais canais transmitem as imagens desde a nuca das forças de segurança, as câmeras de "Crónica" estão no meio dos manifestantes. É o canal que mais cobre coletivas do governo, sindicatos e ONGs, além de contar com uma imensa rede de informantes na polícia e entre a população.
"Crónica" também conta com dois apresentadores não-humanos, isto é, o cachorro azulado Carozo e o ser narigudo não-identificável chamado Narizota. Os dois bonecos, nos horários vespertinos, relatam notícias light . Mas, com freqüência, uma notícia de última hora obriga Carozo e Narizota a informar - com suas esganiçadas vozes de bonecos - um golpe de Estado, a queda de um avião ou um atentado terrorista.
Um amigo, que deixou o jornalismo para dedicar-se à venda de quadros surrealistas e abstratos (algo que, segundo ele, não é muito diferente do trabalho na imprensa), me contou como era trabalhar no jornal "Crônica" nos anos 80, a base da qual o canal seria concebido nos anos 90: "era sexta-feira, no meio do verão, nada relevante acontecia. O chefe perguntou-nos o que tínhamos de 'forte' para a capa. Respondi: 'nada, só um ladrãozinho, imigrante paraguaio, que roubou um relógio de ouro de uma senhora no bairro do Once'. O chefe, sem hesitar, resumiu o espírito do 'Crónica': "Genial! Pode tascar a manchete: Famoso ladrão internacional de jóias detido no Once".





