Por que somos tão moralistas?

Por que somos tão moralistas?

Atualizado em 13/06/2008 às 22:06, por Rodrigo Manzano.


A história tinha tudo para ser o novo drama nacional. As meninas que assistiram a um filme e decidiram tomar o rumo do vento estavam escaladas, no roteiro que o jornalismo preparava para elas, para serem as novas Isabellas, vítimas da crueldade humana, da falta de segurança ou de sua própria insensatez. Não fosse o fato de que elas fugiram porque quiseram. Ana Lívia Destefani Luciano, de 16 anos, e Giovanna Maresti Sant'anna Silva, de 15, de carona em carona, de improviso em improviso, saíram de São Paulo e foram encontradas, pelo proprietário de um hotel barato, na pequena cidade de Curitibanos, em Santa Catarina. A primeira reação de Lívia, ao encontrar a mãe, foi um típico e adolescente "Ai que saco que você me encontrou", talvez um misto de vergonha e frustração.

Pela manhã, o jornalista e apresentador do programa "Hoje em Dia", da Record, tentava arrancar da mãe de Lívia uma explicação racional, uma declaração carregada de dúvidas, algo que alimentasse a fome e a sede de sensações do público. A mãe contemporizava, evitava dramatizar, estava visivelmente feliz com o encontro com sua filha. Britto Jr. insistia em solicitar da mãe uma lição para os pais de todos os filhos adolescentes que estivessem assistindo ao matutino naquele momento. Não havia lição. Pelo menos não para os pais. Uma lição, contudo, restou ao jornalismo em forma de uma pergunta: por que nós, jornalistas, somos tão conservadores?

Eu nunca fugi de casa. Mas lembro-me com clareza de um herói de minha infância: o Cebolinha, da Turma da Mônica, que vez ou outra, nas histórias em quadrinhos, preparava sua trouxinha com uma escova de dentes e resolvia fugir. O Cebolinha foi meu Jack Kerouac. O desejo de liberdade - a vontade de "respirar", para utilizar uma expressão de Lívia - repousa em nós, abafado pelos compromissos assumidos por uma espécie de outro, de ser estranho que assinou nossos contratos com o mundo burocrático da vida cotidiana. As duas meninas me lembraram um pouco Thelma e Louise (do filme de 1991, dirigido por Ridley Scott), com a vantagem que o fim do filme delas foi mais feliz, apesar da frustração de serem encontradas.

Além de ter me feito pensar no moralismo da imprensa - que escondia sob o pano da preocupação com as meninas-viajantes a sanha inconfessável de quão bom seria se elas fossem encontradas mortas na beira da estrada, de preferência com muitas facadas e sem pista do assassino - o caso das adoráveis adolescentes me fez também refletir sobre o efeito multiplicador da internet (o primeiro canal acionado pelos pais para encontrar as filhas) e da reprodução infinita das imagens, da notícia, do suposto drama. Não podemos fugir. Haverá sempre um Britto Jr., um repórter, um Datena a revelar nosso paradeiro. Seria essa a sociedade de controle, anunciada pelo filósofo francês Gilles Deleuze como extensão da sociedade disciplinar de Foucault? Quando os jornalistas foram entrevistar os colegas de colégio das meninas, submeteram-se a uma sofisticada avaliação do papel da imprensa: deixem-nos em paz e preservem a privacidade delas, teriam dito aos repórteres.

Que me entendam corretamente: se não há nada de exemplar na atitude das meninas, não há, também, nada de explosivo. São apenas duas meninas, acuadas pela crise da própria existência e pela insatisfação com a vida que, então, decidiram respirar. Quantos de nós, de verdade, não as invejamos? E quanto de nossa inveja é o combustível da nossa moral? Ao recordarmo-nos dos 40 anos passados de Maio de 1968, seria bom que os jornalistas se lembrassem também de que o desejo de liberdade pode se expressar de diversas maneiras. Lívia afirmou que esses dias de sumiço foram os mais felizes da vida dela. Ninguém prestou atenção na bela história que essas aspas poderiam dar.