Personagens "fofos" de Clara Gomes contrastam com roteiros profundos e críticos

Personagens "fofos" de Clara Gomes contrastam com roteiros profundos e críticos

Atualizado em 11/09/2009 às 17:09, por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA.

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Quando começou a desenhar seus "bichinhos de jardim", Clara Gomes não imaginou que ganharia a simpatia de tanta gente, ainda mais de especialistas nesses pequenos animais, como professores e biólogos. Afinal, a verossimilhança não era seu foco na hora de desenhar seus personagens: um caramujo, uma borboleta, uma minhoca, uma joaninha, um lagarto e uma flor.

"Eu desenho como faria quando era criança. Nunca aceitei que os olhos de um caramujo fossem nas antenas, por exemplo. Acho que, esteticamente, seria melhor que as antenas fossem só acessórios, e assim nasceu o [caramujo] Caramelo, que tem dois tracinhos como olhos. A imaginação não precisa prestar contas ao didatismo", diz.

Clara Gomes

Inclusive, seus bichinhos têm características humanas; enquanto o caramujo Caramelo é "poeta", "otimista" e "romântico", e tem como maior sonho ser astronauta, não aceitando ser considerado apenas "um pedaço de gosma ambulante com um caroço nas costas", a borboleta Brigitte é "vaidosa", "esperta" e "ambiciosa", e "lê todas as revistas femininas que existem".

A Maria Joaninha Cascudo "gosta de escrever, é organizada e multi-talentosa". O "minhoco" Mauro é "despretensioso e simplório", e "acredita na felicidade, na amizade e tem grandes questões ligadas à religiosidade". Já o lagarto Meleca tem "olhar expressivo" e "silêncio inteligente", e a a flor Genoveva nasceu "com o dom para o sarcasmo".

Clara Gomes

Para Clara, a humanização de seus personagens mostra que "precisamos de companhia". "A gente humanizou até Deus! É muito difícil aceitar que somos a única espécie no planeta com sentimentos, sonhos e conflitos", afirma. A artista, que publica os Bichinhos de Jardim na Tribuna de Petrópolis desde 2001, tem fascínio por insetos e pequenos animais desde a infância. "E gosto de tratar daquilo que é minúsculo, o detalhe. As histórias que conto podem estar acontecendo neste momento, bem perto de nossos pés. Isso é fabuloso".

Clara Gomes

Segundo ela - que faz "personagens 'fofos' que contrastam com roteiros um pouco mais profundos e críticos do que se imagina à primeira vista" - não existe inspiração na criação das histórias. "Existe trabalho, leitura, pesquisa, observação. Claro que há dias em que a cabeça está mais leve e o trabalho flui melhor. Mas a inspiração, como 'sopro divino', não existe".

Clara Gomes

Uma das poucas mulheres em um mercado cheio de homens, Clara conta que sempre estudou desenho em cursinhos cheios de garotos. "No humor tem pouca mulher mesmo, é cultural. Enfim, somos minoria, a tradição não nos favorece e o mercado é conservador. Mas aí vem a internet, bagunça tudo e abre portas para trabalhos como da Chiquinha, Pryscila, Samanta Flôor... Tudo que for bom vai ter público, independente de gênero".