Perfil - Fernando Morais, o autor de Olga

Perfil - Fernando Morais, o autor de Olga

Atualizado em 26/10/2004 às 11:10, por Redação Portal Imprensa.

Fernando Morais experimentou o sabor do poder, gostou mas não chegou a tornar-se um dependente. Como deputado estadual por dois mandatos (de 1978 a 1986) e secretário de cultura e de educação do estado de São Pulo por mais dois (1988-1991), passou 15 anos do outro lado do balcão até decidir que seu habitat é mesmo o jornalismo.

Da rotina das redações, porém, quer distância. Cansado de patrulhas partidárias e pressões editoriais, decidiu ser o chefe de si mesmo quando deixou a secretária de educação, em 1993, depois de desentender-se com o chefe, o governador Luiz Antonio Fleury.

Hoje, aos 57 anos de idade e 44 de profissão, o autor de Olga, Chatô, A Ilha e Corações Sujos está no auge da carreira. O lançamento de seu "Olga" no cinema desagradou em cheio a critica especializada, avessa ao padrão global de fazer cinema, e getulistas fervorosos, para quem o filme é "mais um mistifório para difamar Getúlio", como diz o MR8. Mas fascinou o público. Já na primeira semana em cartaz, Olga atraiu mais de 450.000 espectadores, quase o mesmo número de exemplares do livro vendidos desde o lançamento até hoje - 460.000, segundo estimativas do autor. Esse resultado coloca o filme no time das melhores estréias da história recente do cinema nacional, ao lado de "O que é isso companheiro?" e "Carandiru". E esse é só o começo. Até o fim de 2004 outros dois livros de Fernando devem estrear no cinema. O primeiro será o controverso "Chatô", dirigido e produzido pelo ator Guilherme Fontes e que está em fase final de edição depois de oito anos tumultuados. "A mídia passou a imagem de que o Guilherme enriqueceu com dinheiro público, mas ele foi vítima de uma campanha brutal. Chamaram ele de ladrão e picareta por nada, ou melhor, pelo fato dele ser um amador, uma sardinha que entrou no mar de tubarões dos cineastas", desabafa Morais.

A terceira estréia será a de Corações Sujos, cujos direitos foram comprados pelo cineasta Cacá Diegues e a direção ficará a cargo de Vicente Amorim.

Apesar de três dos seus livros - escritos com 20 anos de diferença entre o primeiro e o último - estrearem esse ano, o autor afirma que não escreve pensando em cinema. "Eu escrevo para ser lido, minha preocupação é que o leitor entenda o que estou dizendo".

Entre a gaveta e o micro

Fernando Morais nunca trabalha em um projeto só. Para evitar desgastes no relacionamento com seus personagens, procura manter na gaveta dois ou três biografados. "Fico quatro meses em cima de um, quando canso, pulo para outro, fico mais quatro meses, e engaveto. E assim por diante".

A badalação em torno de Olga acabou forçando o autor a engavetar, temporariamente, seus quatro personagens da hora: Washington Olivetto, Antônio Carlos Magalhães, Marechal Montenegro e Vladimir Herzog. Tão logo se encerre a maratona de entrevistas e estréias, Morais abrirá a gaveta e dela sacará Washington Olivetto e a história da W/Brasil, seu trabalho mais adiantado. "Devo entrega-lo até o fim do mês", prometeu, em agosto. Esse livro, aliás, já era para estar pronto. A idéia inicial foi concentrar o foco no episódio do seqüestro. O título já estava até definido: "A anatomia de um seqüestro". Washington e Fernando, porém, ponderaram que seria melhor estender a pauta. E o publicitário foi para a gaveta.

Antes que o jornalista submergisse em outro personagem, uma proposta tentadora trouxe a baila uma antiga paixão: a política. Em 2002, a campanha para governo do estado começava a esquentar, quando Orestes Quércia telefonou para Morais com uma proposta tentadora. O ex - governador queria Fernando Morais candidato ao governo do estado pelo PMDB. "Entrei de cabeça na campanha. Durante 60 dias, saia de casa 5 da manhã e já tinha uma equipe me esperando. Rodava 12 cidades e voltava meia noite". Embora não estivesse sequer no bloco intermediário nas pesquisas, Morais acreditava que venceria. "A gente tinha 5 minutos na TV durante o almoço e outros 5 no jantar. Isso é uma eternidade. Eu achava que o Alckmin era frágil e que o Genoino não teria gás para ir até o fim. Nós acreditávamos na vitória".

Assim como o primeiro, o último divórcio entre Fernando Morais e a política foi litigioso e aparentemente definitivo. Faltavam apenas 4 dias para a estréia do horário eleitoral gratuito, quando Morais recebeu um telefonema do marqueteiro da campanha, Toni Garcia. O candidato estava em Bauru quando foi informado que Quércia, então candidato a senador, decidira abocanhar todo o tempo de TV do PMDB na televisão. "Eu não tinha como enfrentar isso, porque era ele que pagava tudo, do marqueteiro ao estúdio". Deu-se, assim, o rompimento de uma grande amizade. Desde então Quércia e Fernando nunca mais se falaram. No ano seguinte, em 2003, a mosca azul da política o seduziu novamente. Só que dessa vez o objetivo não foi o parlamento nem o governo, mas a cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras, que pertencera a Roberto Marinho. E lá se foram os quatro biografados de volta para a gaveta.

A disputa pelo fardão mostrou-se inglória. Durante meses, Fernando viveu na ponte Rio -São Paulo articulando sua candidatura com o mesmo entusiasmo da campanha para o governo. Tudo em vão. Marco Maciel foi eleito com folga, apesar de não ser um literato.

As sete mortes de ACM

Passada a ressaca de outra derrota nas urnas, quem saltou da gaveta para o micro com força total foi o Marechal Casemiro Montenegro Filho, grande articulador da indústria aeronáutica brasileira, pai da Embraer e do ITA, não por acaso os dois patrocinadores da bolsa de Fernando Morais, de R$ 360 mil.

Como não gosta de dead lines, o autor aceitou a proposta, mas não se comprometeu com datas. E logo Casemiro voltou para o arquivo, abrindo espaço para outro projeto, a biografia de Antônio Carlos Magalhães.

A biografia do senador baiano, aliás, completou em 2004 oito anos de indas e vindas na agenda de prioridades do jornalista. A idéia surgiu em 1996, ano que Chatô foi lançado. "Foi durante uma entrevista, quando Jô Soares perguntou quais seriam os nomes de personagens vivos que gostaria de biografar. Citei o Apolônio de Carvalho, velho guerrilheiro, que acabou fazendo sua própria biografia. O Geisel, que ainda estava vivo. Mas o Gaspari consumiu o personagem no livro dele. E o ACM". O convite repercutiu imediatamente. Através de um amigo em comum, Felipe Reichtul, o senador recém eleito, fez chegar em Morais um convite para um almoço em Brasília. A conversa foi franca e direta: "Sua história renderia um livraço. O sr. é um dos poucos personagens que esteve no poder, como testemunha ou protagonista, nos últimos 50 anos. Mas eu tenho algumas condições para entrar no projeto: o sr. tem que me contar tudo que sabe, eu vou apurar o que quiser, no meu critério. E o sr só vai ler o livro pronto, como fiz com Prestes e Anita, no caso de Olga. E com Teresa e Gilberto, filhos de Chatô. O projeto é meu e não quero nem um centavo, nem um almoço ou passagem aérea do sr.", disse Morais. ACM não gostou da idéia e desconversou. Mas quinze dias depois, quando a idéia parecia enterrada, o senador mudou de idéia. Outro almoço e o acordo foi selado. Desde então, o livro esteve perto de ir para gráfica diversas vezes, mas sempre que isso acontecia ACM protagonizava mais um capítulo: a morte do filho, Luís Carlos Magalhães, a renúncia, o caso dos grampos e o retorno ao senado como quadro do governo Lula, ajudando a aprovar reformas no Senado. O título, já definido, não poderia ser mais apropriado: "Vai se chamar 'As sete mortes de ACM'. A imprensa matou ele 7 vezes".

Como no caso de Chatô, a divulgação do projeto ACM atraiu uma saraivada de críticas e insinuações contra Morais. O ataque mais duro partiu de Jarbas Passarinho, em artigo para o Jornal do Brasil, onde afirmou que Morais ficou rico fazendo livros rendosos e insinuou que a biografia de ACM seria um patrocinado pelo senador. "É uma visão mesquinha e invejosa dele achar que estou a serviço de Antônio Carlos. O Jarbas gostaria de ser personagem de um livro, mas a história dele é feia e sem polêmica. Ele vai entrar para a história como o cara que fez uma defesa corajosa do AI-5 e que foi ministro da educação no período iluminista da era Médici", dispara.