Perfil: Audálio volta ao Front

Perfil: Audálio volta ao Front

Atualizado em 22/08/2006 às 18:08, por Pedro Venceslau.

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Depois do Sindicato dos Jornalistas, da Câmara dos Deputados e da FENAJ, Audálio Dantas volta à militância para reconstruir, em São Paulo, a desacreditada Associação Brasileira de Imprensa.

No imaginário das redações, a Associação Brasileira de Imprensa é considerada uma entidade eminentemente carioca. Essa imagem se justifica. Sediada no Rio, a ABI deixou de ter representações em outros Estados há mais de 30 anos. Além da fama de bairrista, a Associação perdeu boa parte dos simpatizantes cariocas com a morte de seu presidente símbolo, Barbosa Lima Sobrinho, em 2000. Em sua última eleição, menos de 300 pessoas compareceram às urnas.


Trincheira da Rego Freitas:
o presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Audálio Dantas, recebe a visita de Prudente de Moraes, presidente da ABI, no dia seguinte à morte de Vladimir Herzog.


Ampla, geral e irrestrita:
durante o movimento pela anistia, o deputado Audálio participa de ato público ao lado do eterno aliado, D.Paulo Evaristo Arns

Em 2005, depois de uma luta interna que contaminou o ambiente, o jornalista Milton Temer pediu demissão da vice - presidência. Os dirigentes da centenária entidade perceberam, então, que precisavam de um nome de consenso para ocupar a vaga e recuperar o prestígio da Associação. O nome escolhido foi o de Audálio Dantas. Afastado da política desde 1986, quando deixou a presidência da Federação Nacional dos Jornalistas para tocar a vida, Audálio gostou da idéia, mas não topou mudar para o Rio de Janeiro. Mesmo assim foi eleito vice-presidente, com uma condição: a ABI deveria colocar como prioridade da sua agenda a criação de uma representação em São Paulo. Em julho último, uma grande festa no Teatro São Pedro, em São Paulo, deu posse ao braço paulista da ABI e coroou o retorno de Audálio à militância. Sua nova trincheira é bem mais modesta do que aquela da rua Rego Freitas, no centro de São Paulo, de onde, em 1975, ele comandou, à frente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, o mais massivo movimento da história da categoria. Para os novos: trata-se da reação ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura. "A história julga as pessoas pelo que fizeram em momentos decisivos. Audálio conduziu o sindicato com muita firmeza, serenidade e coragem durante o episódio do assassinato de Herzog. Ele tem seu lugar guardado na história", diz o jornalista Luiz Weis, amigo e colega de Vlado.


No mesmo barco: durante comício em Osasco, em1978, Audálio encontra os companheiros José Serra, Lula e a atriz Bruna Lombardi


O povo, unido:
na greve dos metalúrgicos, em São Bernardo, em 1980, Audálio encontra Teotônio Vilela e Mário Covas (à direita). Tito Costa, Ulysses Guimarães e FHC

Da sua nova trincheira, um escritório apertado no 5º andar de um prédio comercial na rua Franco da Rocha, no bairro de Perdizes, em São Paulo, onde fica a ABI, Audálio assistiu ao retorno da FENAJ ao noticiário nacional, depois da aprovação, pelo Senado, do polêmico projeto que aumenta o número de profissões que exigem o diploma de jornalismo. Sobre o assunto, evitou entrar em rota de colisão, mas ponderou. "A ABI e os sindicatos estão em campos ideológicos opostos. Sou um homem de esquerda, mas sou contra a partidarização do movimento. A cartilha do PT pauta a atividade sindical e isso causa muita divisão". Em tempo: foi justamente o fim da gestão de Audálio, um militante histórico do PMDB, que marcou o inicio da hegemonia do PT sobre a FENAJ.

Histórias da favela

Alagoano de Tanque da Arca, Audálio Dantas veio para São Paulo aos 11 anos para viver com a avó em um casarão no bairro de Santana. Aos 23, entrou pela primeira vez em uma redação.


Audálio é do barulho:
candidato à Câmara, Audálio distribui seu jornal de campanha.


É pau, é pedra:
Audálio recebe a visita do general Dilermando Gomes Monteiro, comandante do 2º Exército, depois do assassinato de Herzog.

Estava fazendo um bico em um estúdio fotográfico, quando seu chefe, Emilio Pelosi, foi convidado para comandar o departamento de fotografia da Folha de S.Paulo. "Fui junto com ele para trabalhar na fotografia, mas já cheguei de olho na redação", conta. Corria o ano de 1959 e os jornais brasileiros estavam vivendo um período de valorização das grandes reportagens. Na Folha, não era diferente. Os editores não só abriam espaço, como incentivavam que todos sugerissem pautas. Aos poucos o assistente de fotografia foi se aproximando das editorias, sugerindo idéias e conquistando a confiança da redação.


Hay que endurecer:
Audálio participa da comitiva de parlamentares brasileiros recebidos por Fidel Castro, em Cuba


Sin perder la ternura:
Depois da conversa com Fidel, Audálio visita a Escola Lênin, em Havana.

Um dia, Audálio estava a caminho do jornal quando passou em frente a uma favela. Aquela imagem ficou remoendo na cabeça. "Naquele tempo, as favelas eram um assunto muito distante da nossa realidade em São Paulo. Fiquei sabendo que tinha uma favela crescendo muito no Canindé. Era um assunto novo. Chegando na redação, fiz a sugestão da pauta para o chefe de reportagem, Moacir Corrêa". Idéia aceita, Audálio passou a freqüentar a favela. Passava dias inteiros circulando pelos becos e vielas, em busca de histórias. Em uma das incursões, notou um grupo de moradores no playground na entrada da favela. De repente, uma voz forte começou a repreender a brincadeira: "Vocês não têm vergonha. Um bando de marmanjos brincando na gangorra. Vou colocar no meu livro...". A intervenção daquela senhora de uns 40 anos mexeu com o instinto do jovem repórter. Ali estava a grande história daquela comunidade. "Ela se chamava Carolina de Jesus e contou que estava escrevendo um livro sobre as coisas da favela. Pedi para ler e ela mostrou um monte de cadernos. Era uma coisa lírica e, ao mesmo tempo, amarga. Ninguém podia descrever a favela como ela. Foi a reportagem mais importante que eu fiz. Só que a história não era minha, era dela". Lançada pelo repórter no meio literário, Carolina de Jesus conquistou sucesso internacional com a história que deu origem ao livro Quarto de Despejo, best-seller da época.


Profissão, repórter:
Audálio transpõe a nascente do rio São Francisco, na Serra da Canastra, em 1972.


Além Mar:
Audálio no Palácio de Alhambra, Granada, em 1967

A história projetou Audálio Dantas no seleto time dos grandes repórteres da época. Os convites começaram a surgir em profusão até que, em 1959, ele foi seduzido por uma proposta irrecusável: integrar a equipe da revista mais badalada da época, O Cruzeiro. Audálio começou como repórter mas logo assumiu a chefia da sucursal da revista em São Paulo. Foram seus anos dourados no jornalismo, quando trabalhou ao lado de medalhões como David Nasser, Ubiratan Lemos, Mário de Moraes e Luis Carlos Barreto.


Hoje: Audálio separa as cartas na sede da ABI em São Paulo


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