novo governo. Seja quem for a criatura à frente dele, suas propostas serão devidamente aprovadas nas urnas. Mas a pertinência dessas propostas e, sobretudo, a chance real de virarem realidade serão efetivamente compreendidas pelo eleitorado?
É certo que, usando as melhores técnicas da propaganda eleitoral, os candidatos finalistas seguirão fazendo o que fizeram até agora: selecionar aqueles temas de maior apelo popular e trabalhar neles apenas um ou dois aspectos, sem maior detalhamento ou problematização. A hora é de cativar a massa, atrair gente de todos níveis de intelecção, e para isso é obrigatório simplificar. Condensar as ideias em fórmulas mínimas e martelá-las até que o mais parvo dos eleitores possa entender.
As duas campanhas farão o que precisam, portanto, para ganhar a eleição. Estão em campo para seduzir os eleitores, levá-los à urna e fazê-los digitar o número que lhes interessa. Mas, se é assim, a quem cabe buscar os pelos nos ovos e os chifres nas cabeças de cavalo?
Aqui entramos nós, jornalistas. Nós e todos os que vivem da produção ou da difusão do conhecimento: cientistas, economistas, politólogos, estatísticos, radialistas, etc. É nosso o dever de examinar trajetória, alianças, ideias, compromissos, atributos pessoais e propostas das duas candidatas, com o máximo rigor e espírito público. Se a propaganda enrola, nos cabe desenrolar. Mas estamos à altura da missão?
Em geral, reclamamos dos candidatos e satanizamos os marqueteiros, mas não oferecemos informação certificada, em volume e alcance suficientes para enfrentar a máquina de sedução das campanhas. Contribuímos para uma percepção tosca da dinâmica política e do exercício da governança. Deixamos se alastrar a percepção de que “político é tudo igual” e alimentamos a crença salvacionista no eleitorado. Se marqueteiro vende candidato como sabonete, vendemos eleição como a volta de Dom Sebastião.
Felizmente, a taxa de baixarias é pequena nesta eleição. Felizmente, o saldo das “Jornadas de Junho” é a politização da campanha e o repúdio do eleitorado aos truques emocionais, como os jingles, clipes e histórias lacrimosas, que estão em forte declínio. Sinal do interesse por informação relevante. Com mais qualidade na crítica às candidaturas – leia-se, rigor com isenção –, vamos cumprir melhor o que a cidadania espera de nós.
Depois das urnas, a missão – caso queiramos aceitá-la – será erradicar o descrédito nas instituições e fomentar a participação popular. Sem isso, não haverá política que possa regenerar-se e nem governos que sejam fiscalizados, com empenho e corresponsabilidade, pelos próprios cidadãos.


