Para não "pegar a depressão econômica"
Para não "pegar a depressão econômica"
Há vários meses, um dos assuntos mais noticiados pela mídia mundial é a crise financeira. Seja pela TV, rádio, jornal, internet, a crise é pauta constante: quedas na bolsa, demissões, arrocho salarial, recessão, depressão...
Para nós, ávidos consumidores de informação, nada disso é novidade. Quem não entende bem os termos econômicos, em primeira instância, trata logo de procurar saber mais... é normal isso, né? Você dá aquela buscadinha básica no oráculo Google com o termo "depressão econômica", por exemplo, e encontra nada mais de 240 mil citações sobre o tema com definição, aplicação, história... nem o "Soletrando", do programa do Luciano Huck, dá tantas dicas.
Mas na semana passada, em minhas idas e vindas de metrô para o trabalho, me dei conta de que esse tema, tão falado, tratado e analisado pela mídia não é assim tão "popular" quanto se imagina. E lembrei que a informação, embora disseminada em diversas plataformas, ainda não é absorvida de forma útil por grande parte da população. E foi uma conversa entre três pessoas (um homem e duas mulheres) que me deu essa certeza.
- Nossa! Você viu o tanto de gente que perdeu o emprego lá na fábrica de aviões? Como chama mesmo? Embratel...
- Não, Antônia (nome fictício - não lembro o de verdade), é Embraer, Embraer. Embratel é a empresa de DDD. Faz um 21, lembra?, respondeu o homem.
- É verdade, claro, Embraer. Será que não vende mais avião?
- Olha, acho que depois que o avião deles bateu no da GOL, a venda deve ter caído. Parece que tinha um aparelho lá que não funcionava, disse a terceira pessoa.
- Nada a ver, é a crise financeira. Não adianta fabricar avião se os ricaços que compravam estão com uma mão na frente e outra atrás, devendo muito dinheiro. E não é igual a gente deve não: R$ 100, 200 reais... tudo passa de R$ 1 milhão, disse novamente o homem.
- É... a Ivete (Sangalo) tem o dela, o Lula comprou um também. Depois disso, nunca mais ouvi falar. Sei de gente que aluga, mas não sei de gente compra...
- Nossa deve ser difícil para quem tinha muito dinheiro não ter mais, né? Por isso então que ontem o "Jornal Nacional" falava sobre o perigo de "pegar depressão econômica".
Essa última frase, ouvi me levantando porque havia chegado a estação em que eu deveria descer. Confesso que, na hora, fiquei um tanto abismada com o que ouvi. O texto se encaixaria perfeitamente nos esquetes do "Zorra Total". Mas a "graça" da história foi se esvaindo quando percebi que essa desinformação tão latente contribui para a alienação política, de direitos, de deveres, contribui para a total ausência da noção de cidadania.
Pensei em quantas pessoas, diferentemente de nós que temos acesso pleno à informação, não discernem entre o certo e o errado, não fundamentam suas opiniões e até se abstém de formular uma opinião, não por burrice, mas por ignorância. Por ignorarem seu direito a saber mais, seu direito a entender, seu direito a se educar, por não entenderem as mensagens passadas por nós, comunicadores.
Nesses momentos, penso que nós, jornalistas, deveríamos ser, talvez, mais didáticos, menos rebuscados, menos altivos. Que devemos, quem sabe, entender a fundo cada coisa que noticiamos, para que possamos explicar as conseqüências e definições de forma mais clara. Sei que isso tudo parece utópico, até porque a rotina diária de uma redação nos permite pouco. O espaço nas publicações, nas matérias de TV também nos permite pouco, mas isso deixa claro que escrevemos pressupondo que o leitor tem repertório suficiente para decodificar nossa mensagem. O que nem sempre é verdade...
Enfim, posso não correr o risco de "pegar uma depressão econômica", mas se insistir em pensar demais nisso tudo, certamente, serei vítima da depressão jornalística.






