"Obra-prima de borracha": Alguém vai ficar rico, por Paulo Gannam
"Obra-prima de borracha": Alguém vai ficar rico, por Paulo Gannam
"Obra-prima de borracha": Alguém vai ficar rico, por Paulo Gannam
Desde meus tenros 16 anos, quando ainda nem tinha visto a cor da maritaca, a não ser por vias eletrônicas, já me questionava, em silêncio, feito disco arranhado, se além dos comprovadamente incompetentes guarda-chuvas, não existia ou havia existido em qualquer latitude um equipamento que atendesse, com eficácia, às demandas do ser humano por uma proteção absoluta, quero dizer, de todas as partes do corpo, das chuvas com muita água, pouca, com ventanias, sem, enfim, não importa.
Sempre que externava meu quadro de ingratidão crônica para com os guarda-chuvas, falavam-me alternativamente de capas de plástico, aquelas que uma modesta parcela gosta de usar. Embora impeçam o corpo de se molhar, à exceção dos calçados, tornam as pessoas um pedaço de nada arrastando-se.
Também, à medida que o material vai roçando na pele do usuário, por vezes provoca vermelhidão. Os mais gordos correndo, então, quando trajados com capas amarelas, são fatalmente confundidos com táxis na hora do rush.
Mencionavam-me ainda, durante minha peregrinação por respostas, casacões e calças de couro, mais usuais para motoqueiros; ou ainda, insistiram na pretensa eficácia daqueles guarda-chuvas tamanho manada, que tapam toda a visão do alto, sendo tão extravagantes quanto incômodos.
Depois de o homem já ter ido dar um passeio de 380 mil quilômetros à Lua (há controvérsias); criado construções grandiosas, imponentes - até divinas que percebo com espanto quando vou às metrópoles brasileiras; interligado cidadãos de qualquer região por uma simples tela de computador; inventado máquinas capazes de fazer num único dia o que o homem não sonhara em produzir em toda sua biografia, apresento curiosa constatação: os notáveis cientistas, inventores, ainda não conseguiram descobrir um artigo que efetivamente proteja meus pés e, às vezes, canelas, contra as chuvas.
Por mais que tente evitar - e você, leitor que ingenuamente penso existir, não pode negar - em dias chuvosos o que permanece no interior dos calçados, enquanto os portamos, toma o aspecto de um aquário. Nossos pés se convertem em peixes em estado claustrofóbico. A cada passada, emitem ainda um ruído tão estranho que não eu conseguiria reproduzi-lo com precisão via onomatopéia.
Mas você sabe do barulho de que eu estou falando. Com o perdão da palavra, seria tipo um peido em tempos de desarranjo, aquoso. É, daqueles extremamente perigosos, por exigir prudência de uma comissão organizadora contrátil, encarregada de represá-lo ou deixá-lo fluir, antes realizando um estudo sobre as conseqüências. O som é o mesmo que o de quando a comissão decide dar passagem à flatulência e assumir os riscos do despacho.
Quer com guarda-chuva pequeno, grande, quer com capa de plástico ou casacão de couro, a umidade gerada com as gotas que permeiam principalmente a metade da frente dos calçados, atingindo, ao fim, os vãos entre nossos dedos, produz um aroma de queijo gorgonzola com laranja-lima. Perfeito para ser posto à vista quando você, minha senhora, não quer nada com ele no seu leito.
No meu caso, por consideração a meus semelhantes e a mim mesmo, tendo em conta que o bem-estar comum deve vir em primeiro lugar, a cada saída à rua, no mesmo dia, costumo lançar mão de uma nova meia, sequinha, do guarda-roupa, para então condená-la à forca pluvial e desgastar o trabalho da lavadeira na semana seguinte.
Mas você deve estar se perguntando, depois de toda essa baboseira: e daí?
Bem, em princípio, não tenho a resposta. Apenas uma. Recentemente, descobri, após perturbar toda a vizinhança, amigos, colegas e familiares - buscando arregimentar oponentes do guarda-chuva e de suas variantes - que há tempos foi arquivada uma obra-prima com a qual tive contato, pela primeira vez, há pouco: a galocha.
Quem mediou o encontro foi um tio meu, que se prontificou a trazer a tal galocha de seu sítio, depois de eu dizer-lhe estar interessado em conhecê-la. Não sei precisar a data do objeto e nem me ocorreu perguntar a meu tio. De todo modo, estava bem acabada.
Trata-se, para aqueles que não sabem, de uma espécie de calçado 100% borracha, flexível, no formato de um sapato, altamente manejável a qualquer pé - dos mais chatos como os meus aos mais graciosos como os de alguém que nunca conheci. Sua finalidade: salvar nossos pés, acomodando-se como um revestimento de nossos calçados, e, o mais importante, indiretamente, de nossos pés. Não os deixam ensebados.
Esteticamente, um fracasso, mas nada que não possa ser requintado com a criatividade de algum publicitário ou administrador, adequando o produto às exigências da sociedade pós-moderna.
Atrevo-me a prescrever a receita. Além de, num primeiro momento, revigorar o material, alterando-lhe algumas de suas feições, atualizando-as, é mister convencer o consumidor de que a necessidade e a importância de manter seus pés resguardados deve sobrepujar o aspecto estético, que provavelmente será lesado mesmo com as transformações.
O fato é que todo mundo precisa de algo que lhe proteja os pés contra as chuvas, mas ninguém se atentou a preencher esse vácuo mercadológico. Sim, a galocha saiu de moda há muito e não faço a mínima idéia do porquê, já que acabo de conhecê-la. Mas não descarto perspectivas de reavivá-la.
Que alguém leve esta idéia adiante e ganhe rios de dinheiro. Só não o faço por não ter conseguido arrebanhar quaisquer sectários e desconhecer tecnicamente métodos de verificação de viabilidade e execução do projeto. Das três, uma: ou eu sou um imbecil, ou alguém vai ficar muito rico ou este artigo será esquecido e não fará parte do calendário da vida de ninguém.
*Paulo Daniel Gonçalves Gannam é graduado em Comunicação Social, com habilitação em jornalismo, pela Universidade de Taubaté e, atualmente, especializa-se em dependência química no Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. 





