Otávio Frias Filho: Entrevistamos o diretor do jornal mais lido do país

Otávio Frias Filho: Entrevistamos o diretor do jornal mais lido do país

Atualizado em 03/09/2007 às 16:09, por Pedro Venceslau.

Por Otávio Frias Filho freqüenta as dependências da Folha de S.Paulo , na rua Barão de Limeira, no centro, desde os 17 anos. Apesar da intimidade com rotativas e fechamentos, nunca foi - nem quis ser - repórter. Tinha vinte sete anos quando assumiu o comando da redação do jornal. Aos 30, em agosto de 1987, recebeu IMPRENSA pela primeira vez. Durante mais de três horas, não deixou sem resposta nenhuma pergunta feita pelos jornalistas Paulo Markun e Dante Matiussi, então diretores da revista que, em setembro, chegaria às bancas pela primeira vez.

Com o título "Otávio Frias Filho, 30" a primeira entrevista da história de IMPRENSA esmiuçou "o pensamento pouco ortodoxo daquele que comanda o jornal mais polêmico do país". Vinte anos depois, a Folha deixou de ser o mais polêmico para ser o maior jornal brasileiro. Nos dias úteis, circula com 289.415 exemplares, segundo o IVC. Aos domingos, 349.933. O segundo lugar deste ranking pertence ao carioca O Globo - 256.870 nos dias úteis e 374.490 aos domingos. O principal concorrente da Folha em sua praça, o Estadão , tem apenas a terceira maior circulação brasileira - 224.245 nos dias úteis e 309.519 aos domingos.

Sob o comando de Otávio, a Folha iniciou uma revolução que contagiaria definitivamente a imprensa escrita brasileira. Terminava a era do jornalismo romântico, começava a da organização, dos manuais e do ombudsman . Confira alguns trechos da entrevista que está na edição de setembro de IMPRENSA.

IMPRENSA - O Estadão ainda é o grande concorrente da Folha ?
Otávio Frias Filho - Do ponto de vista da circulação, eu diria que o principal concorrente é o jornal O Globo . Nós temos, hoje, uma circulação 28% superior a do Estado de S.Paulo e 10% superior a do jornal O Globo , que é o segundo maior jornal em circulação no país. Mas do ponto de vista de mercado o Estad o é o concorrente principal. Os dois jornais dividem o mercado publicitário em que atuam em proporções praticamente iguais.

Quais são os pontos fracos e fortes da Folha e do Estadão ?
O que eu acho mais admirável no Estado é a linha de tradição de uma certa trajetória ideológica e histórica. A capacidade que o jornal mostrou de superar problemas é algo de se admirar. O principal defeito é a contrapartida dessa vantagem. O Estado é um jornal que está sempre vitimado pelo seguinte dilema: quanto mais se moderniza e se adapta às exigências dos novos tempos, mais dilapida e prejudica seu repertório de tradições. Por outro lado, quando mais aferrado se mantém a sua linha de tradição secular, mais se isola e perde sustentação em uma sociedade onde a tradição pesa cada vez menos.

E no caso da Folha , qual o calcanhar de Aquiles?
A Folha é um jornal muito sensível e permeável ao que está acontecendo no meio social. Não tem a linearidade da tradição do Estado . Mas é um jornal mais leve, que responde com rapidez às situações.

Qual sua opinião e sua relação com a FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) e com o sindicato do jornalista?
A imagem que cristalizei ao longo destes anos todos é a de que ela é uma correia de transmissão dos interesses do PT. Talvez eu esteja sendo drástico na minha afirmação. Mas sinto que eles funcionam como uma agência dos interesses do PT no meio jornalístico.

No livro do "Golpe ao Planalto", o jornalista Ricardo Kotscho conta um episódio que foi muito comentado nos bastidores: o almoço do candidato Lula com a cúpula da Folha , nas eleições de 2002. Naquela ocasião, Lula levantou-se abruptamente no meio do almoço e foi embora, irritado com algumas perguntas feitas por você. Especula-se que isso teria abalado a relação do Lula com a Folha , especialmente no primeiro mandato. Qual a sua versão para essa história?
Essa pergunta me dá a oportunidade para retificar a versão que o Kotscho apresenta no livro. Minha versão é bastante diversa. Nunca interpelei o então candidato Lula a respeito da falta de formação escolar ou universitária. Pelo contrário. O preâmbulo da pergunta foi dizer que, na minha opinião, não faz a menor diferença que uma pessoa chegue a presidência sem ter antes feito uma faculdade. O ponto que levantei foi outro. Eu queria saber do Lula que tipo de preparação ele vinha fazendo nos últimos 20 anos, tempo em que ele teve condições materiais para estudar. Foi a natureza dessa pergunta que o deixou alterado, a ponto de ter abandonado o encontro. Interessava ao PT e ao Lula apresentar esse episódio como se a minha pergunta se referisse a falta de formação universitária. Foi justamente o contrário disso. Eu queria saber a que estudos e preparação ele vinha se dedicando nesse período mais recente, quando ele teve tempo se sobra e dinheiro para fazer um curso de economia, até para estudar no exterior se quisesse. Citei até o exemplo do Vicentinho, que tinha entrado na faculdade de direito. A reação foi muito emocional da parte dele. E respondi também com muita veemência. Meu pai ainda teve a cortesia de acompanhá-lo até a porta do jornal, como fazia com qualquer visitante.

Durante a crise do mensalão, muita gente acreditava que o governo Lula não se recuperaria. Mas ele foi reeleito e se mantêm com altos índices de popularidade. Existe uma tese entre governistas, petistas e parte da esquerda de que a mídia foi derrotada nas eleições de 2006. O Venício Lima lançou até um livro (A mídia nas eleições de 2006) para provar isso. A Marilena Chauí, por exemplo, acha que o mensalão foi uma invenção da mídia. E você, o que acha ?
Eu discordo completamente. O conceito de "mídia derrotada" não faz sentido. A mídia não concorreu nas eleições. Embora alguns jornais tenham manifestado apoio ao concorrente do Lula, parece-me que a cobertura foi bastante adequada. Ao contrário da opinião daqueles que consideram que a imprensa brasileira tem um viés anti-petista, eu acho ao contrário. Se a imprensa brasileira teve um viés, nos anos 80 e 90, foi um viés de complacência em relação ao PT. A maioria dos jornalistas tinha algum tipo de simpatia pelo projeto do partido Por conta disso, me parece que a imprensa brasileira pecou por ter sido complacente, tolerante e ingênua em relação ao PT. E isso mudou um pouco quando o Lula chegou ao poder e depois de episódios como o do mensalão.