Os bastidores de uma entrevista bomba
Os bastidores de uma entrevista bomba
O carnaval de 1949 foi mais do que atípico para a imprensa brasileira. A começar pelo inesperado resultado do Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro que pela primeira vez na história apontava duas agremiações vencedoras: Império Serrano com o samba-enredo "exaltação a Tiradentes" e Mangueira com" apologia ao mestre". No calor da folia, um outro fato repercutia junto à opinião pública: o abre-alas de "O Jornal", publicação dos Diários Associados, a manchete onde anunciava a volta do ex-presidente Getúlio Vargas ao cenário político como protagonista e principal interlocutor, em torno das eleições programadas para o ano seguinte.
A reportagem assinada por Samuel Wainer, segundo os analistas políticos da época, teria sido decisiva para aplainar as dificuldades da candidatura do ex-ditador, junto a setores militares. Na entrevista Vargas afirmava ser um líder de massas, sem magoas com a oposição, disposto a negociar e de malas prontas para voltar ao Rio de Janeiro . Em meio à avaliação do quadro político, um recado explícito: "Todo mundo sabe que não guardo ódio nem rancores contra ninguém, nem tenho contas a ajustar com quem quer que seja".
A questão até hoje não bem resolvida é a autenticidade da reportagem, nos moldes em que ela foi apresentada para os leitores, na versão do jornalista Samuel Wainer. Segundo o repórter a entrevista com Getúlio teria sido obra do acaso. Viajava ele num taxi-aéreo pelo Rio Grande do Sul para cumprir uma pauta sobre o estado atual e o futuro das plantações de trigo do estado, quando avistou a fazenda onde o ex-presidente cumpria o seu retiro voluntário. Wainer que estava acompanhado do fotógrafo Thadeu Onar do Diário de Noticias então teria tido a idéia de pousar na instância. Para caracterizar a situação de improviso o repórter relata que foram recebidos por um peão a cavalo, já que a camionete que "costuma recolher os visitantes... estava naquele momento na cidade".
Não esperava ninguém, mas mandou avisar
A explicação é ingênua, bem no propósito de justificar o acaso. Pouco convincente. O que foi fazer o peão com cavalos de sobra na pista de pouso, a dois quilômetros da sede da estância? Se não esperava por Wainer, esperava por quem? A suposta atitude do peão torna-se mais inverossímil quando o repórter conta que Vargas "não esperava ninguém e em sua companhia encontrava-se apenas o seu irmão Sr Protásio Vargas". Ou seja, se o patrão não esperava visita foi o peão que teve a iniciativa de levar os cavalos e ficar no aguardo dos ocupantes do taxi-aéreo? Wainer continua a se enrolar quando narra que Vargas mandou avisar "de que não tardaria, desejava apenas saber quem o procurava". Mais adiante insiste na teoria do acaso, para destacar a "espontaneidade" das declarações do ex-presidente: "talvez o inesperado da visita do repórter que chegou sem a clássica preparação e aviso prévio...".
O desfecho da reportagem é mais um indício de que a entrevista com a maior liderança política do país não foi uma pauta de oportunidade. Wainer narra ter se encontrado à noite em São Borja com o deputado João Goulart "um dos homens que goza de maior confiança pessoal do Sr Getúlio Vargas, com quem se avista diariamente e de quem recebe tarefas que só um amigo de indiscutível fidelidade poderia receber...". Então, destaca o comentário de Goulart que corrobora as insinuações de Vargas de sua eventual candidatura: "ouvi o chefe dizer que não sentia com coragem de desapontar e frustrar as esperanças de tantos brasileiros. Eis o que ainda o faz hesitar se deve ou não lançar o seu nome na grande batalha da sucessão".
A versão do patrão
Muito tempo depois, enciumado com a importância histórica atribuída à entrevista, Assis Chateaubriand se encarregou de divulgar uma outra versão em artigo publicado no "O Cruzeiro" com o título "Uma história mal contada". Relata que foi dele mesmo a idéia de entrevistar Getúlio, que houve uma negociação previa com interlocutores, que Salgado Filho intermediou os contatos entre os Associados e o ex-ditador e que a suposta reportagem sobre o trigo teria sido apenas um álibi para manter o sigilo da operação. Chateaubriand, se verdadeira a sua história, exatamente como ele conta, teria sido conivente com a versão original da reportagem-bomba de Wainer, no tempo em que ela aconteceu.
Para o simples observador dos fatos prevalece o sentimento de que ambas as versões são meias-verdades. A de Wainer parece um script mal justificado, a de Chateaubriand uma versão oportunista.






