Orkut e Facebook completam 10 anos de impacto na cultura popular e no jornalismo

Na última sexta-feira (24/1), o Orkut completou uma década de existência sem muito o que comemorar. Depois de já ter sido a principal rede social do país — entre 2006 e 2010, com mais 40 milhões de usuários ativos, esse número hoje não passa dos seis milhões.

Atualizado em 27/01/2014 às 16:01, por Lucas Carvalho*.

Em um cenário completamente diferente encontra-se o Facebook, que comemora uma década no próximo dia 4 de fevereiro, com 64 milhões de usuários ativos.
Crédito:Divulgação Rede social de Zuckerberg pode ter mesmo destino do Orkut, dizem especialistas

A empresa de Mark Zuckerberg é hoje uma multimilionária popular em todo o mundo. Quando assumiu o posto de maior rede social no Brasil em 2012, o serviço do Google já estava em decadência, com cerca de 30 milhões de acessos. Mas, muito mais do que um fenômeno cultural, essas duas mídias foram responsáveis por uma revolução na forma como as pessoas se comunicam e, inevitavelmente, acabaram influenciando na maneira de se praticar jornalismo.
Olhando para trás, o jornalista especializado em mídias sociais, Diego Iraheta, editor do novo portal Brasil Post, avalia a mudança que a chegada dessa nova mídia trouxe ao mundo do jornalismo. “O impacto foi muito grande e tem muito a ver com a forma como os jornalistas aprenderam a utilizar as redes sociais. No início, encaravam o Orkut como uma arena de lazer, até que começaram a perceber que ali haviam personagens”, diz.

“Se você queria encontrar alguém que tinha saudade dos anos 80, por exemplo, tinha uma comunidade para isso. Numa cobertura policial, o jornalista não tinha mais que passar pelo constrangimento de ligar pra uma vítima ou a família de um criminoso, porque poderia encontrar essas pessoas na rede e traçar um perfil", revela Iraheta.
Ao passo que a imprensa descobria a utilidade das mídias sociais em seu trabalho, a chegada dessa nova ferramenta também teve seus pontos negativos. O jornalista Renan Dissenha Fagundes, editor do site youPIX, especializado em redes sociais, destaca a tendência do “caça-compartilhamentos” entre os grandes veículos de imprensa.

“Redes como o Facebook são ótimos canais para os veículos de comunicação entregarem seu material, seu produto, tanto para o jornalista quanto para o público. Mas, por outro lado, também gera um tipo de matéria, ou de post, que é apenas conteúdo ‘caça-compartilhamento’, sem a qualidade de um jornalismo de portal ou de jornal", afirma.
Para Fagundes, a rede social é uma ótima ferramenta tanto para buscar uma pauta, quanto para começar uma apuração, buscando fontes. "Mas é lógico que não serve como uma ferramenta de apuração completa, você não pode apurar tudo por Facebook”, acrescenta.

Esse perigoso costume de alguns profissionais é o que preocupa o jornalista Mario Lima Cavalcanti, editor do site Jornalistas da Web, que cobre a relação entre o jornalismo e as novas mídias. “É preciso que o jornalista seja criterioso, tenha vivência nas redes sociais, para não cair em armadilhas como páginas de perfil falsas. Pelas redes sociais, é mais fácil do que antes propagar boatos”.
Outras redes Apesar do protagonismo do Facebook e do Orkut nos últimos 10 anos, uma outra mídia coadjuvante é destacada no trabalho dos jornalistas: o Twitter. Com 12 milhões de acessos, é o segundo serviço mais popular no Brasil, mas ainda muito distante da página de Zuckerberg. “Se pararmos para analisar, é curiosa a densidade do Twitter. É um ambiente tão forte quanto o Facebook em termos de disseminação de informação. A importância é tamanha, que um perfil de Twitter pode ser considerado um canal oficial de informação, um ambiente por onde, por exemplo, uma determinada assessoria de imprensa pode se expressar”, ressalta Cavalcanti.
“É a rede mais rápida. Tão rápido quanto o Twitter, só o rádio. Você está num lugar e viu alguma coisa, você liga para redação e está no ar ao vivo com sua notícia. Ou, se você tem um celular, você tuíta a sua informação e pronto, já é a primeira notícia”, afirma Diego.

Ele ainda destaca a velocidade com a qual a informação trafega nas redes sociais, lembrando o caso da tragédia de Santa Maria, no início de 2013, onde centenas de pessoas morreram numa boate após um incêndio. “O Facebook foi a rede onde houve a primeira mensagem sobre o incêndio na boate Kiss ano passado. Foi algo do tipo ‘Socorro, tá tendo um incêndio aqui Kiss’, e a menina que postou isso morreu logo depois. Podia ser uma farsa, um trote, a informação precisa ser checada. Mas aquela informação é o ponto de partida para uma apuração que poderia ser uma grande história. No caso, a maior tragédia no Brasil no século.”
O futuro Como tudo na internet, o que é tendência hoje pode ser esquecido facilmente amanhã. Pensando nisso, o caminho do Facebook não parece tão diferente do Orkut ou de outras redes que já caíram no esquecimento, como o MySpace.

Pesquisas recentes apontam que o serviço pode perder até 80% de seus usuários até 2017. “Eu acho que o Facebook tá numa situação delicada, mas não acho que ele vai cair na irrelevância como o Orkut. Não num futuro próximo. Ele é grande demais, tem muita gente envolvida, incluindo grandes marcas. Não vai ser mais uma coisa tão descolada quanto era no princípio, vai continuar sendo útil, mas também não vai crescer muito não”, afirma Renan, que também vê em serviços de bate-papo reservado como o Whatsapp o futuro da soberania das redes sociais.
Para Cavalcanti, páginas como o Facebook e o Orkut têm vida útil e a constante renovação do meio é natural. “As causas são imprevisíveis, e geralmente esbarram na chegada de um novo ambiente, como uma espécie de seleção natural dos usuários, mas não necessariamente irá ocorrer dessa forma com o Facebook. Tem muita coisa ainda para acontecer. Das redes sociais baseadas em geolocalização, como o Foursquare, até a popularização de dispositivos como o Google Glass, muita coisa vai surgir, e irão gerar novamente mudanças culturais.”
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves