Opinião: Volta dos campos de golf cria polêmica entre população cubana

São vários os jatos de água que se estendem pelo terreno regando o gramado. De tão bem aparada, a grama parece artificial e os carrinhos car

Atualizado em 05/07/2011 às 11:07, por Yoani Sánchez.

Gueto de conforto

regados de bolas reluzem como se fossem tirados de um desenho animado. Tudo é tão perfeito que dói a vista; tão cuidadosamente preparado que parece irreal, onírico, distante.
Os novos campos de golf, que começam a se espalhar por toda a ilha, provocam uma profunda estranheza aos olhos nacionais, que conhecem a deterioração e a improvisação pelo resto de Cuba. Seu surgimento vem aparelhado de infinitas discussões em voz baixa sobre a pertinência ou não de erigir - em meio à crise econômica - esses espaços luxuoso para turistas.
A última palavra foi dada no 6º Congresso do Partido Comunista de Cuba em que foi aprovada a criação de tão pomposos locais de diversão para turistas. Entre outros alinhamentos aprovados nessa ocasião, se confirma que serão prioridades: "o desenvolvimento das modalidades: turismo de saúde, marinas e náutica, golf, cultura e patrimônio, convenções, congressos e feiras, entre outras". A justificativa oficial é a necessidade que tem o país de ver chegar, por meio de visitantes, bolsos mais esplêndidos e carteiras mais bem providas. É aí que surge a nova estratégia de mercado, que inclui o fomento de outras variantes recreativas mais glamorosas. Curiosa mudança de um governo que confiscou e satanizou os clubes privados que antes de 1959 ofereciam a seus membros um pouco de diversão com o taco e a bola.
É certo. Estão de volta. Ainda que sejam lindas esteticamente, essas verdes extensões nos provocam dúvidas. Nossas suspeitas não partem de uma antipatia pelo esporte ou pelo fato de sermos ligados somente ao beisebol, o passatempo nacional. Mas a incerteza chega porque esses paradisíacos recantos de recreio foram construídos justamente em um país marcado pela ineficiência produtiva, pela improvisação em todas as ordens e pela falta de qualidade da maioria dos serviços.
O que mais irrita é, mais uma vez, a sensação de exclusão; é saber de antemão que todos os investimentos nessas áreas não estão destinados a nós. Que entre os requisitos indispensáveis para cruzar o umbral desses centros recreativos estão não só ter um talão de cheques com números de mais de cinco dígitos mas também um passaporte de qualquer outro país, menos o nosso. Saber que estão ali, mas não nos pertencem, é um dos aspectos que mais incomodam a população que não se acostuma a ser cidadão de segunda categoria em sua própria nação.
Sem nossa presença, os campos de golf parecerão mais irreais ou talvez serão como esses lugares que podem estar localizados na Tailândia ou nas Bermudas. Eles virão a ser lugares de eficiência e conforto que atravessam uma ilha submersa no colapso material mais longo de sua história.
Com a grama perfeitamente cortada, esses campos de golf realçarão o contraste entre a Cuba turística e a real, entre os que podem empurrar as branquíssimas bolas e os que só vão poder olhar do lado de cá dos cercados.