Opinião: Velho Chico, por José Marques de Melo

O rio S. Francisco ocupa, no imaginário coletivo nordestino, um espaço privilegiado. Cresci numa das comunidades ribeirinhas, cujos rios intermitente nele deságua.

Atualizado em 21/06/2016 às 18:06, por José Marques de Melo.


Ali, por exemplo, o valor de uso do “precioso líquido” é estimado pelo número de ancoretas transportadas em lombo de burro. As residências abastecidas pelo arcaico sistema, de tração animal, passaram a receber os serviços do moderníssimo sistema hídrico, originário da vizinha cidade de Pão de Açúcar. Não é sem razão que o herói da nossa cidade é o Jumento, com direito a estátua em praça pública e proteção de Santana, padroeira glocal.
Ao ver, diariamente, as imagens da telenovela das 9, fico extasiado com o universo ficcional das histórias que ali se embaralham oníricamente. Uma das primeiras impressões que retenho na memória é a dicotomia entre real e imaginário.

Umas, identificadas com o mundo das aparências refletidas nas cores vistosas e coloridas dos figurantes, que personificam os membros da família Saruê e seus agregados, inclusive as mucamas, todas muito bem apessoadas. Outras, parecidas com as figuras de carne e osso que representam o modus vivendi das classes subalternas na região: os trabalhadores agrícolas, as lavadeiras, os fruticultores inscritos na cooperativa local e os pinguços reunidos da redondeza.
O que torna caricatural a estória é o uso exagerado de cores nas vestes dos principais atores, que se assemelham mais ao fausto do pampa gaúcho colonial do que à sobriedade usual na indumentária nordestina. A marca distintiva desta é a discrição, até mesmo na roupagem dos antigos coronéis, que ostentavam branco ou cinza, como o fazia o “coronel” Delmiro Gouveia.

Esta figura simbiótica mesclava o coronelismo arcaico dos plantadores de algodão ao mandonismo típico dos industriais da tecelagem e, por isso mesmo, ele ousou desafiar o Vice-Presidente Rosa e Silva de bengala em riste, em plena Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, antiga capital da República.

A telenovela vem prestando grande serviço à região nordestina, na medida em que expõe e ajuda a refletir coletivamente sobre alguns problemas da região, mas poderia contribuir muito mais se as imagens difundidas buscassem maior fidedignidade e verossimilhança.
Os colegas da Universidade do Vale do São Francisco, mais de perto relacionados com a produção local, podem muito bem assessorar a emissora na busca de uma maior ancoragem na realidade, inclusive evitando que as cenas locais sejam distorcidas ou manietadas, como poderá acontecer, se a transposição das águas do rio for ocultada ou manietada, convenientemente