Opinião: "PSYOPS - O apocalipse envolvendo o Facebook", por Marcelo Molnar

Toda a polêmica envolvendo o Facebook e a Cambridge Analytica, fartamente discutida nos meios de comunicação nas últimas semanas, deixou uma

Atualizado em 12/04/2018 às 08:04, por Marcelo Molnar.

Crédito:Arquivo pessoal certeza e muitas dúvidas. A certeza é a necessidade de se repensar no modelo de negócio das redes sociais que fundamentalmente transforma capital social em capital econômico, vendendo dados dos usuários com o seu suposto consentimento. As dúvidas são sobre as origens reais dos interesses que fomentaram toda essa confusão na manipulação da opinião pública, e consequentemente os votos do Brexit e da eleição do Donald Trump, entre tantas outras decisões da sociedade moderna. A perda da coerência foi tanta com a eleição do Trump que o mundo precisa achar uma explicação para o acontecido. E ela existe!
Muitos já ouviram falar de economia comportamental. Os livros de Dan Ariely, “Previsivelmente Irracional” ou “Freakonomics: o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta”, de Stephen J. Dubner e Steven Levitt, são boas referências sobre o tema. Juntamos a isso a psicometria, uma área da psicologia que faz vínculo com as ciências exatas, consistindo no conjunto de técnicas utilizadas para mensurar, de forma comprovada experimentalmente, uma gama de comportamentos que se deseja conhecer melhor, e por fim, os algoritmos de big data, desenvolvidos oportunamente devido aos grandes volumes de registros de comportamentos gerados pelas redes sociais. Temos a tempestade perfeita para o “apocalipse das PSYOPS”.
Lembrando que a palavra apocalipse significa "revelação". Um "apocalipse" é a revelação divina de coisas que até então permaneciam secretas a um profeta escolhido por Deus. Por extensão, passou-se a designar de "apocalipse" aos relatos escritos dessas revelações. A palavra apocalipse e o seu significado ficou obscuro ao longo do tempo, sendo às vezes usado como sinônimo de "fim do mundo". Estamos falando aqui de revelações, mas dependendo da ótica, também do fim do mundo.
As PSYOPS* (Operações psicológicas) são muito conhecidas e praticadas pela área militar americana para induzir ou reforçar um comportamento favorável a determinados objetivos. Estas operações podem ser utilizadas tanto em tempo de paz ou de conflito. São planejadas para transmitir informações selecionadas para o público, influenciando suas emoções, motivos, raciocínio objetivo e, consequentemente, induzir o comportamento de organizações, grupos e indivíduos.
Conhecidamente existem três métodos usados para criar mensagens de disseminação. O método branco é usado em operações abertas. É uma declaração oficial e emana de uma fonte conhecida. Os métodos cinza e preto são utilizados de forma dissimulada. Para que a PSYOP seja bem-sucedida, ela deve ser baseada na realidade. As mensagens devem ser consistentes e não devem contradizer-se. Uma "verdade" crível deve ser apresentada de forma clara para todos os públicos. O método cinza é deliberadamente ambíguo e a fonte verdadeira não é revelada. Já o método preto é aquele negado de forma veemente. Sempre que questionada a fonte nega a responsabilidade. É uma guerra psicológica encoberta. Utilizado tanto para construir um pensamento positivo como para destruir completamente um conceito. Esse processo existe desde 1918 e vem evoluindo tecnologicamente (difusão multimídia), influenciando as decisões mundiais.
Sim, estamos falando entre outras coisas de Fake News. Mas elas são apenas cortinas de fumaça. O ser humano sempre mentiu e continuará mentindo. Porém, as PSYOPs nunca foram tão eficientes com os atuais poderes de micro segmentação proporcionados pelos ambientes digitais. O Facebook é apenas a bola da vez. Outros ataques às redes sociais e às empresas de tecnologia virão. É inevitável. Estamos numa guerra de informação e de credibilidade. O uso de estratégias persuasivas, antes aplicadas para a venda de produtos desnecessários, agora afeta a opinião dos eleitores embaralhando o jogo de poder. Para compreender realmente o que está acontecendo, temos que, em primeiro lugar, tirar as vendas dos olhos e aceitar que esses eventos políticos gigantescos trarão impactos inesperados na vida de milhões de pessoas no mundo todo. E não há nada que (só) as redes sociais possam fazer para reverter esses eventos.
* acessado em 03/04/2018
Sobre o autor: é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação da BrasilConsult, Viscoplan, HAC, SDGroup e Nexial. Trabalhou como analista de Pesquisas de Mercado com institutos como Meta Group, Gartner Group, IDG e CVA, desenvolvendo projetos para o Bradesco, Itaú, Telefônica, Banco Santander, Banco Toyota, UOL, Pão de Açúcar, Editora Abril, Janssen entre outros. Ex-Vice-Presidente da Sart Dreamaker. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).