Ela me aproximou desse mundo, me apresentando para Pitágoras e companhia. Eu sonhava em ser engenheiro e em conviver com aqueles números no meu dia a dia. No entanto, as circunstâncias da vida fizeram com que eu mudasse meus planos e optasse pelo jornalismo.
Não escolhi o jornalismo para fugir da matemática, mas por me sentir mais atraído pelas histórias das pessoas. A matemática pode impressionar com sua exatidão, mas sempre será fria como as peças de uma máquina. Já a literatura, presente no jornalismo, tem a capacidade de mexer com os nossos sentimentos mais profundos.
De forma alguma, pretendo fazer uma crítica ao jornalismo de dados. Os números em si não são um problema e podem ser incorporados ao jornalismo dentro de uma lógica não-positivista. No entanto, percebo que, talvez por pressa, ou por falta de interesse, o jornalismo muitas vezes tem se afastado do que eu considero sua essência: o dom de contar histórias. Prova disso é a "coisificação" presente no cotidiano das redações. As pessoas deixaram de ser humanas e se tornaram meras peças de uma grande máquina.
Prova dessa triste realidade foi a manchete estampada no site do UOL, em 19 de setembro de 2016: “Morte em saguão de aeroporto tumultua chegada de Renato ao Grêmio”. A notícia se referia a dois eventos distintos ocorridos naquele dia no mesmo lugar: a morte de Marlon Roldão, jovem de 18 anos, brutalmente assassinado com 17 tiros à queima-roupa no terminal 2 do Aeroporto Internacional Salgado Filho e o esperado retorno de Renato Gaúcho ao time pelo qual jogou e se tornou ídolo.
Obviamente que a imprensa foi pega de surpresa e não tinha imediatamente os dados precisos sobre o que havia motivado aquela morte, e muito menos sobre quem era Marlon. Entretanto, o título da matéria apresenta, ainda que inconscientemente, um certo desinteresse pela história daquele jovem, que não teve tempo de se despedir dos parentes e amigos.
Marlon “morreu na contramão, atrapalhando o tráfego”. A imprensa gaúcha, sobretudo a esportiva, estava focada em Renato, o craque que voltava, agora como técnico, para o time que o consagrou. O valor-notícia da morte de Marlon, não poderia ofuscar aquele momento histórico para o futebol brasileiro. O jeito era chutar aquele fato para escanteio. Crédito: arquivo pessoal
é jornalista, autor do livro “Escola Base, 20 anos depois”, criador da Casa dos Focas (portal voltado para estudantes de jornalismo - www.casadosfocas.com.br) e mestrando do programa de mestrado profissional em jornalismo do FIAM-FAAM - Centro Universitário. emilio.o.coutinho@gmail.com
Não escolhi o jornalismo para fugir da matemática, mas por me sentir mais atraído pelas histórias das pessoas. A matemática pode impressionar com sua exatidão, mas sempre será fria como as peças de uma máquina. Já a literatura, presente no jornalismo, tem a capacidade de mexer com os nossos sentimentos mais profundos.
De forma alguma, pretendo fazer uma crítica ao jornalismo de dados. Os números em si não são um problema e podem ser incorporados ao jornalismo dentro de uma lógica não-positivista. No entanto, percebo que, talvez por pressa, ou por falta de interesse, o jornalismo muitas vezes tem se afastado do que eu considero sua essência: o dom de contar histórias. Prova disso é a "coisificação" presente no cotidiano das redações. As pessoas deixaram de ser humanas e se tornaram meras peças de uma grande máquina.
Prova dessa triste realidade foi a manchete estampada no site do UOL, em 19 de setembro de 2016: “Morte em saguão de aeroporto tumultua chegada de Renato ao Grêmio”. A notícia se referia a dois eventos distintos ocorridos naquele dia no mesmo lugar: a morte de Marlon Roldão, jovem de 18 anos, brutalmente assassinado com 17 tiros à queima-roupa no terminal 2 do Aeroporto Internacional Salgado Filho e o esperado retorno de Renato Gaúcho ao time pelo qual jogou e se tornou ídolo.
Obviamente que a imprensa foi pega de surpresa e não tinha imediatamente os dados precisos sobre o que havia motivado aquela morte, e muito menos sobre quem era Marlon. Entretanto, o título da matéria apresenta, ainda que inconscientemente, um certo desinteresse pela história daquele jovem, que não teve tempo de se despedir dos parentes e amigos.
Marlon “morreu na contramão, atrapalhando o tráfego”. A imprensa gaúcha, sobretudo a esportiva, estava focada em Renato, o craque que voltava, agora como técnico, para o time que o consagrou. O valor-notícia da morte de Marlon, não poderia ofuscar aquele momento histórico para o futebol brasileiro. O jeito era chutar aquele fato para escanteio. Crédito: arquivo pessoal
é jornalista, autor do livro “Escola Base, 20 anos depois”, criador da Casa dos Focas (portal voltado para estudantes de jornalismo - www.casadosfocas.com.br) e mestrando do programa de mestrado profissional em jornalismo do FIAM-FAAM - Centro Universitário. emilio.o.coutinho@gmail.com


