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Opinião: Por um jornalismo menos frio e mais humano, por Emílio Coutinho

Desde a minha pré-adolescência fui apaixonado por números. Esse amor pela matemática teve grande influência por parte da minha tia, professora do ensino público que, naquela época, me dava aulas de reforço aos domingos.

Ela me aproximou desse mundo, me apresentando para Pitágoras e companhia. Eu sonhava em ser engenheiro e em conviver com aqueles números no meu dia a dia. No entanto, as circunstâncias da vida fizeram com que eu mudasse meus planos e optasse pelo jornalismo.
Não escolhi o jornalismo para fugir da matemática, mas por me sentir mais atraído pelas histórias das pessoas. A matemática pode impressionar com sua exatidão, mas sempre será fria como as peças de uma máquina. Já a literatura, presente no jornalismo, tem a capacidade de mexer com os nossos sentimentos mais profundos.
De forma alguma, pretendo fazer uma crítica ao jornalismo de dados. Os números em si não são um problema e podem ser incorporados ao jornalismo dentro de uma lógica não-positivista. No entanto, percebo que, talvez por pressa, ou por falta de interesse, o jornalismo muitas vezes tem se afastado do que eu considero sua essência: o dom de contar histórias. Prova disso é a "coisificação" presente no cotidiano das redações. As pessoas deixaram de ser humanas e se tornaram meras peças de uma grande máquina.
Prova dessa triste realidade foi a manchete estampada no site do UOL, em 19 de setembro de 2016: “Morte em saguão de aeroporto tumultua chegada de Renato ao Grêmio”. A notícia se referia a dois eventos distintos ocorridos naquele dia no mesmo lugar: a morte de Marlon Roldão, jovem de 18 anos, brutalmente assassinado com 17 tiros à queima-roupa no terminal 2 do Aeroporto Internacional Salgado Filho e o esperado retorno de Renato Gaúcho ao time pelo qual jogou e se tornou ídolo.
Obviamente que a imprensa foi pega de surpresa e não tinha imediatamente os dados precisos sobre o que havia motivado aquela morte, e muito menos sobre quem era Marlon. Entretanto, o título da matéria apresenta, ainda que inconscientemente, um certo desinteresse pela história daquele jovem, que não teve tempo de se despedir dos parentes e amigos.
Marlon “morreu na contramão, atrapalhando o tráfego”. A imprensa gaúcha, sobretudo a esportiva, estava focada em Renato, o craque que voltava, agora como técnico, para o time que o consagrou. O valor-notícia da morte de Marlon, não poderia ofuscar aquele momento histórico para o futebol brasileiro. O jeito era chutar aquele fato para escanteio. Crédito: arquivo pessoal
é jornalista, autor do livro “Escola Base, 20 anos depois”, criador da Casa dos Focas (portal voltado para estudantes de jornalismo - www.casadosfocas.com.br) e mestrando do programa de mestrado profissional em jornalismo do FIAM-FAAM - Centro Universitário. emilio.o.coutinho@gmail.com

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