Opinião: Os gratuitos talvez representem a última revolução pela qual passou o jornalismo impresso
Os gratuitos talvez representem a última revolução pela qual passou o jornalismo impresso. Pode-se discutir a qualidade editorial desses per
Atualizado em 13/07/2011 às 18:07, por
Matinas Suzuki Jr..
Orwell e os jornais gratuitos
Há alguns anos, os jornais gratuitos chegaram às calçadas de todo o mundo. Inicialmente distribuídos em estações de metrô das grandes metrópoles, eles passaram também a ser entregues nos cruzamentos de grandes vias. iódicos, mas não se pode negar que a sua forma de distribuição se tornou uma das tendências da imprensa contemporânea.A história dos jornais gratuitos tem cauda longa. Uma das suas nascentes mais conhecidas foi a chamada penny press, jornais muito baratos que passaram a ser produzidos para as novas massas trabalhadoras que chegavam às grandes metrópoles americanas. Diz a lenda que o responsável por introduzir em Nova York o conceito de jornal por um centavo, em 1º de janeiro de 1833, foi Horatio David Shepard, com o seu Morning Post.
Curiosamente, Shepard seria esquecido pela história da imprensa americana, enquanto seu sócio no empreendimento, Horace Greeley, passou a ser considerado como um dos pilares do jornalismo moderno. A imprensa de um centavo (a maior parte dos jornais custavam seis centavos) começou a usar uma linguagem mais direta, mais viva, e a cobrir os chamados temas de interesse humano - crimes, sobretudo. Em pouco tempo chegaram a tiragens inimagináveis, impulsionadas também pelo preço do papel mais baixo e pelas impressoras mais modernas.
Em 1928, começou a circular em Paris um jornal chamado Ami du peuple, que também fazia uma revolução ao ser vendido por uma bagatela.Apresentando-se como um jornal que defendia o interesse público e contra os grandes interesses econômicos, o jornal aventava a possibilidade de poder vir a ser distribuído gratuitamente. Por trás da fachada de filantropia, o Ami du peuple pertencia, na verdade, ao perfumista, fascista e antissemita François Coty, que já era proprietário do Le Figaro desde 1922.
George Orwell (1903-1950) foi um atento observador do panorama da imprensa em seus dias. Além de ter colaborado em diversas publicações, ele colecionava panfletos e folhetos, discorria sobre a linguagem dos jornais e chegou a escrever um ensaio sobre as revistas semanais inglesas destinadas a adolescentes do sexo masculino. Em dezembro de 1928, ele publicou um artigo sobre o francês Ami du peuple. Nesse artigo, ele dizia ter conhecido um jornal diário que havia sido distribuído gratuitamente na Índia.Para um cara que sempre viveu na dureza e sempre esteve do lado da esquerda como Orwell, o preço baixo do jornal parisiense era algo que evidentemente o sensibilizava. Mas ele, um campeão da defesa da liberdade de imprensa, não deixaria de observar: se por concorrência predatória esse tipo de jornal barato ou gratuito inviabilizar economicamente outros jornais que têm custos de produção mais altos, então eles "são inimigos da liberdade de expressão" independentemente de suas intenções.






