Opinião: “O Inimigo Interno”, por Heródoto Barbeiro
O que fazer para evitar novas tragédias como a de Columbine, Suzano, Bagdad, Cairo e tantas outras?
Os dois chegaram de carro na escola. Ninguém poderia imaginar o que os dois jovens fariam. Nem mesmo as suas famílias e amigos. Ninguém suspeitava que pudessem cometer um crime bárbaro como atirar a esmo contra alunos, professores e funcionários da escola. Afinal tinham estudado lá e pelo menos mestres e funcionários eram do seu tempo. Quem viu alguma anotação na internet ou em cadernos não levou a sério, era mais uma brincadeira de jovens tão comuns no mundo web. Ameaças, fotos, vídeos, desenhos de armas. Nem tinham ideia que o seu gesto poderia percorrer o mundo e se tornaria uma verdadeira competição macabra. O resultado do game: quem seria capaz de matar mais pessoas. Uma ação de surpresa, em outros tempos poderia ser chamada de blitzkrieg. No equipamento da morte não faltavam arma de fogo, bombas, e outros dispositivos capazes de matar ou ferir inocentes. Seriam considerados heróis, finalmente o mundo iria saber da existência deles, e quem sabe inspirar outros jovens a fazer a mesma coisa. Conseguiram.
O pânico na escola foi imediato. Ninguém sabia para onde correr e se esconder dos assassinos. Quem pôde saltou o muro e fugiu para a rua, outros, com mais sorte, estavam próximos à saída e fugiram do massacre. Não demostraram dó nem piedade. Pareciam movidos por uma força sobre-humana que anulava qualquer sinal de humanidade ou de compaixão dos que tombavam ou mortos ou feridos. A gritaria dos alunos, ao invés de ajudar a polícia, levava mais pânico e correria nos corredores e pátio. Mesmo antes de se contabilizar mortos e feridos todos queriam saber o que tinha levado os dois jovens a cometer o massacre na escola. As mais diversas explicações foram disparadas e até mesmo uma que dizia que era apenas a vontade de imitar outros massacres em escolas como as que ocorreram nos Estados Unidos, Europa, Oriente Médio... O alvo preferido dos assassinos ou são templos religiosos ou escolas. Frequentemente se noticia, não como a mesma ênfase, atentados com homens, mulheres ou carros bombas nas portas das mesquitas com dezenas de mortos e feridos. Pela constância dos atentados e distância geográfica do mundo ocidental, nem mais tem impacto na opinião pública.
Os dois morreram. Talvez embalados com a sensação que fizeram o que tinham que fazer. Estava aberta a porta para que outros também ousassem suplantá-los. O game não acabou. O terror também não. Foi um ataque suicida, muito diferente de um kamikaze, da Segunda Guerra. Este tinha um propósito, tentar salvar a pátria dos destruidores porta aviões americanos que fustigavam dia e noite o Japão. Saíram de casa para morrer. A internet profunda, deep web, abriu amplos espaços para sites e blogs que hospedavam mapas, jogos eletrônicos, como fazer bombas caseiras e postagens que demostravam ódio a sociedade a que pertenciam. Dylan e Eric começaram a montar uma comunidade na internet que ensinava como causar prejuízos à comunidade. Uma investigação logo descobriu várias ameaças violentas contra professores e alunos da Columbine High School. O mote era ódio generalizado contra a sociedade e o desejo de matar aqueles que o incomodavam. O total de mortos foi de 15 e 50 feridos. Investigadores não têm dúvida que o inimigo é interno. Nada mais.
* é editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.
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