Quinta-feira, 8 de outubro de 2026 ■ MPJ · Mais Pelo Jornalismo

Opinião: Há situações que devem passar "batidas" no ar

Hoje, pensando em uma história para dividir com vocês, lembrei de um colega que muito contribuiu para minha experiência e vivência no rádio:

Lembranças

Crédito:Leo Garbin o saudoso Miguel Dias. Jornalista, radialista e... corintiano. Assim, como eu, Miguel participou do desafio de lançar uma rádio all news, 24 horas tocando notícia. Gostava de uma boa conversa na redação ou ao microfone. Alegria, simpatia e alto astral eram características diárias. Nada tirava Miguel do sério.
Lembro-me de duas passagens com ele no rádio. A primeira (lá na década de 1990), quando ele apresentava um dos primeiros programas da Rádio CBN, o "Notícia na Manhã". A vinheta com o nome do programa entrava no ar, Miguel dava o tradicional bom-dia e as manchetes eram dadas por nós, repórteres, ao vivo. Eu começava na reportagem e aquele friozinho na barriga sempre aparecia quando o meu nome era chamado. Mas, no dia a dia, Miguel deixava os repórteres à vontade e, em qualquer escorregão, ele estava pronto para intervir.
Certa vez, já na escuta da rádio aguardando a vez para entrar com o destaque, perdi o bendito papel que me ajudaria a construir a frase da notícia. No momento em que chamou meu nome, o pânico tomou conta de mim e, para não ficar aqueles eternos três segundos de vazio no ar, comecei a "encher linguiça". O destaque seria algo assim: "o paulistano respira a pior poluição dos últimos dez anos e a Cetesb anuncia medidas para o controle da poluição na cidade". Simples se o papel estivesse em minhas mãos, mas, como não estava, comecei a dizer algo do tipo: "Então... estamos aqui na sede da Cetesb, na região oeste, pertinho da marginal Pinheiros, e logo, por aqui, vão fazer um anúncio sobre poluição. O ar tá muito ruim para respirar e, daqui a pouco, a gente volta para falar sobre isso".
Foi um enrolation, que meu Deus! Miguel, logo em seguida, chamou a outra repórter para dar outro destaque e, antes que ela pudesse falar, escapou um desabafo meu: "ai, que saco!", que causou dúvida se fui eu ou a minha colega, que já tinha sido chamada pelo apresentador para falar de outro tema. Miguel seguiu, então, o manual de radiojornalismo: há situações que devem passar batidas no ar. E foi o que aconteceu. Nem na redação houve comentários. Talvez, alguns ouvintes tenham dado risada ou achado feio, absurdo, mas com aquele episódio aprendi a fechar a boca assim que o técnico me dá um ok para entrar no ar.
Passado um tempinho, mais uma gafe marcante. Certa vez, ao entrar para falar do bairro de Ermelino Matarazzo, disse algumas vezes "ErmeLINDO Matarazzo". Saí do ar e já voltei para a redação. Ao chegar, Miguel, discretamente, veio conversar comigo. Sempre de bom humor, comentou: "Cátia: o bairro que você estava era ERMELINO Matarazzo e não ERMELINDO. Lindo, sou eu". É isso. Vivendo e aprendendo sempre, inclusive com as lembranças.
Coluna publicada na edição de maio (278) da Revista IMPRENSA Opinião: Há situações que devem passar "batidas" no ar

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