Opinião: Governo do Millenium, por Gabriel Priolli

E agora, José? Depois de quase três anos de crise profunda, iniciada com as ditas “jornadas de junho” de 2013, eis o Brasil de governo novo.

Atualizado em 21/06/2016 às 16:06, por Gabriel Priolli.


Da mesma forma como aquelas manifestações galvanizaram as mais diversas insatisfações e expectativas, o movimento que depôs Dilma mobilizou muitos setores, com distintos papéis e perspectivas próprias. À frente de todos eles, destacou-se a imprensa, que tem agora, como em 1954 ou 1964, a oportunidade de descascar o abacaxi que ela mesma plantou, regou e colheu.
Como? A imprensa não liderou nada? Apenas cobriu os fatos com isenção e rigor crítico, como é seu dever? Cada um acredita na lenda que lhe parece mais crível e essa é a preferida nas redações do Oiapoque ao Chuí.
A mídia liberal, organizada como empreendimento comercial, sempre oculta seus interesses político-empresariais sob a fachada da neutralidade, da abordagem “apartidária” dos conflitos da vida social. Jamais admite ação política sobre os fatos, enquanto eles acontecem. Apenas muitos anos depois, eventualmente, oferece algum ato de contrição -patético, de tão cínico.

Eppur, si muove... Queira ou não, na política a imprensa cria e altera fatos, produz a matéria que noticia. Pauta os temas, organiza os discursos e chega a determinar o ritmo da agenda. Basta que se decida meramente cobrir um assunto ou fazer campanha em torno dele, como ocorreu neste impeachment, que [a imprensa] abraçou desde o mensalão, a rigor, e noticiou com regozijo, mais que estardalhaço, no golpe decisivo de 17 de abril.
Espera-se, portanto, que a grande imprensa não fuja à sua responsabilidade. Este é o seu governo. Fruto do seu esforço. Não se pede que reconheça a ilegitimidade e a impopularidade dele, porque seria demais para obra própria. Mas ela vai apoiá-lo, como seria digno? Vai noticiar o que fizer de ruim e também de bom? Vai conferir-lhe o direito a um mínimo equilíbrio entre reconhecimento de acertos e crítica dos erros?
Outra dúvida: a grande imprensa vai usar o poder de seu novo governo para esmagar a imprensa alternativa? Vai exigir CPI para os blogs, a PGR em cima dos sites de esquerda, a PF conduzindo jornalistas a depor (como já fez com o colega Breno Altman)?

Vai estimular Moro a construir vinculações entre as verbas publicitárias dirigidas a sites lulodilmopetralhas, vindas do mesmo caixa que também lhe paga as contas, e o dinheiro desviado da Petrobras? Vai aproveitar o embalo, enfim, para limpar o Brasil dos "blogs sujos", agressão que não ousou cometer com a “imprensa nanica” do período da ditadura?
É o seu governo, enfim. Ou desgoverno. O tempo dirá. Que a grande imprensa não caia no próprio conto da isenção e do distanciamento crítico. Ela será cobrada pelo que ocorrer, agora e no futuro, tanto quanto os personagens sinistros que pôs no Planalto e que, por enquanto, apenas assombram o Brasil.