Opinião: “Cobrir Carnaval não é brincadeira”, por Wagner de Alcântara Aragão

Cobrir Carnaval exige profissionalismo... e muita resistência dos profissionais de imprensa, para lidar com jornadas exaustivas e condições

Atualizado em 20/03/2019 às 10:03, por Wagner de Alcântara Aragão.

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O Carnaval não se encerrou com a quarta-feira de Cinzas. Além de a folia se estender até o fim do mês em alguns lugares – de 21 a 23 de março ocorrem, por exemplo, os concorridos desfiles das escolas de samba em Uruguaiana (RS) -, episódios dos dias de festa ainda repercutem.

Aproveitemos o momento para repercutir, também, o trabalho da imprensa para reportar ao público o que de mais relevante acontece no Carnaval de norte a sul do Brasil.


Quem assiste aos desfiles das escolas de samba e às apresentações de trios elétricos e blocos de rua, pela televisão, e se depara com apresentadores e repórteres estampado sorriso no rosto, demonstrando entrosamento com a festa, pode imaginar que a cobertura do Carnaval é só alegria.


De fato, é uma atividade maravilhosa, para quem gosta da folia de momo. Mas cobrir Carnaval não é brincadeira não. Exige profissionalismo. E muita resistência dos profissionais de imprensa, para lidar com jornadas exaustivas e condições de trabalho na maioria das vezes bem precárias.


No final de fevereiro, já no esquenta para o Carnaval carioca, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro divulgou uma em seu site com resultados de uma pesquisa que traduz essa precariedade de que estamos falando.


Segundo o levantamento, de cada dez profissionais praticamente oito trabalharam mais que as sete horas de jornada diária. Mais da metade dos que precisam exceder a jornada (53%) não recebe por essas horas extras; dos outros 47%, nem todos recebem isso em dinheiro: 6% compensam em folgas depois.


O Sindicato aponta ainda problemas com relação à segurança e insalubridade no trabalho de cobertura dos desfiles na Passarela do Samba Darcy Ribeiro – o sambódromo da Marquês da Sapucaí. E acrescenta que 81% dos jornalistas que atuam na cobertura não recebem, de suas empresas empregadoras, adicional de insalubridade.


Não bastassem esses problemas estruturais indicados pelo Sindicato dos Jornalistas, os organizadores dos desfiles, trios e blocos (os mega blocos, frutos de grandes patrocínios) costumam ser bastante seletivos na liberação de acessos a espaços que viabilizem a cobertura pelos jornalistas.


Redes maiores, detentoras de direitos de transmissão, têm trânsito nas arenas (sambódromos, circuitos, palcos, trios) proibido a profissionais de outros veículos. Comunicadores de portais, rádios locais e produtoras e canais de vídeo independentes quando muito são confinados em cercadinhos ou em áreas em que o exercício da atividade fica extremamente prejudicado. Em tempos em que a produção de conteúdo não é mais restrita a grandes conglomerados, inadmissível cercear o direito à cobertura de novos atores no cenário da comunicação.


Falo por experiência própria. Enquanto mantenedor de um veículo de mídia independente (Rede Macuco), o esforço para conseguir credenciamento para trabalhar é dobrado. É preciso montar verdadeiros dossiês que comprovem nossa atuação jornalística. Revezamento de equipes, possibilidade de uma cobertura mais plural, garimpo pela informação exclusiva, histórias únicas, tudo isso é inviabilizado por condições precárias e restrições à circulação pelos locais dos eventos.


Falo por experiência própria, repito, e não em causa própria, ressalto. Porque que sim, perdemos nós, profissionais da comunicação, com essas condições indignas de trabalho, mas perde principalmente a coletividade, a sociedade, na medida em que se dificulta a circulação de mais conteúdo de qualidade.


Crédito:Arquivo pessoal * é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.


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