Opinião: A maior mudança não está na tecnologia, mas na facilidade do acesso

São muitas as transformações. Para surpresa geral, não é menor o número de incômodos. Por todos os lados, novos dispositivos, produtos, empr

Atualizado em 04/11/2011 às 11:11, por Luli Radfahrer.

A insustentável leveza

Crédito:Leo Garbin esas, formadores de opinião, serviços, relacionamentos, canais, mídias e interações parecem questionar a forma "correta" de se comportar, se relacionar, produzir e consumir conteúdos, sem uma proposta concreta do que pode vir em seu lugar. Em vez disso, novas palavras, que mal ocupariam o jargão de técnicos especializados, em alguns anos tornam-se tão banais que soa pedante usá-las com alguma ênfase.
A mudança não é recente e não há sinais de que esteja perdendo a força. A linguagem evolui em uma velocidade similar à da tecnologia, a tal ponto de daqui a pouco ser muito difícil compreender uma sem a outra. E vice-versa. Nunca o meio e a mensagem se misturaram com tamanha intensidade.
O desamparo de muitos que se assustam com as novas interações parece vir da naturalidade que outros, que cresceram no meio delas, as assimilam. Desapareceram LPs, CDs, filmes fotográficos, fotolitos, fitas de vídeo e originais de texto e, para quem nunca teve de usá-los, é como se nunca tivessem existido. A informação, desprendida de seu suporte, é cada vez mais volátil, mutante, difícil de documentar, arquivar, guardar para uma referência futura que talvez nunca ocorra.
A maior mudança não está na tecnologia, mas no fim da escassez e na facilidade do acesso. À medida que tudo e todos parecem estar sempre disponíveis, a necessidade de compreender um tema por completo parece ter sido deixada para segundo plano. Sempre se poderá acessar algum especialista que tenha escrito a respeito e que, por um valor irrisório, disponibilize muito mais informação do que seria acessível por meio de leitura de dezenas de livros. E a um tempo mais curto.
Não é uma informação melhor nem pior, mas certamente é diferente de boa parte do que já foi dito desde que a invenção da escrita permitiu o acúmulo de conhecimento. Se por um lado essa informação pode ser encarada como algo supérfluo, banal, consumista e pragmático, por outro vale considerar que nem tudo que é apreendido precisa ser detalhado em profundidade - e que o simples propósito de ser especialista em mais de uma área é, em sua essência, arrogante.
A natureza da informação e do conhecimento estão mudando. Como as relações pessoais, eles se tornam mais leves, acessíveis e diretos. A melhor forma de usá-los é compreendê-los em suas particularidades e criar um ponto de referência que não corra mais atrás de cada interessado para levar a ele o que acontece de novidade no mundo, mas que conheça alguns poucos temas em profundidade e se disponha a explicá-los de forma clara e direta, acessível a quem estiver interessado, no momento do interesse.
De certa forma, é o mesmo que faziam os antigos oráculos e livros místicos, cujo conteúdo, hermético, só fazia sentido quando acompanhado de uma pergunta e um contexto muito pessoais.

Coluna publicada na edição 273 (novembro) de IMPRENSA