Opinião: "A Cama de Procusto", por Heródoto Barbeiro
De fato ele não tinha uma cara simpática. Era sisudo e considerado um político duro. Não negociava qualquer ato do governo se houvesse a men
Em outros lugares não era bem assim. Sistemas políticos presidencialistas que concentravam o poder todo na mão de um único homem usavam o déficit público como uma política de governo. Graças a ele era possível ter dinheiro para investir nas questões básicas, principalmente para implantar as propostas surrealistas que tinham prometido na campanha eleitoral. Para isso precisavam ter no ministério da fazenda, não um técnico, mas um político. Alguém que não conhecesse praticamente nada de ciência econômica, mas se afinava com o chefe. A ordem era arrumar dinheiro para gastar com a imensa estrutura do Estado e financiar obras que garantissem ou a reeleição ou a perpetuação do nome do presidente no concreto ou em placas de bronze, para toda a eternidade. Isto vinha sendo feito desde o tempo dos faraós. Uma das fontes de recursos era o déficit público. O governo gastava mais dinheiro do que tinha em caixa, mas ela não ficava vazia, o ministro providenciava que mais dinheiro fosse fabricado na casa da moeda. Uma maravilha da administração brasileira utilizada por vários presidentes da República ao longo da nossa recente história. Contudo essa política resultava em inflação, com o aumento dos preços dos produtos comprados pela população.
Mesmo sem perceber o povo pagava duas vezes. A primeira quando recolhia os impostos. A segunda quando fosse comprar um pãozinho na padaria e ele tinha subido de preço. Para o cidadão comum o responsável era o “Seu Manoel”, ou os atravessadores, ou o Saci Pererê. Não lhe passava pela cabeça que um tal déficit fiscal tinha alguma coisa com isso. Em outras palavras o governo usava o método da cama de Procusto. Este, segundo a mitologia grega, tinha uma cama de ferro, que oferecia ao viajante. Se este fosse menor do que a cama ele o amarrava e esticava seu corpo até ficar do tamanho da cama. Se o dinheiro era menor do que as despesas, ele esticava o orçamento fabricando dinheiro. Inflação era tida como algo não tão ruim, e até bons economistas diziam que era possível desenvolver o país graças a ela. O Brasil conviveu com essa política monetária ao longo de muitos governos. Quem saía da Presidência deixava um imenso déficit para o sucessor. Este assumia o combate, e não realizava obras, ou acelerava a inflação com mais dinheiro no mercado, para fazer obras e também deixar a sua marca. Ninguém ganha eleição prometendo controlar o déficit público. Quem conseguiu essa proeza foi Gladstone, afinal o regime inglês era parlamentarista.
(Inspirado pela leitura de o "Antifrágil", de Nassim Taleb, Ed. Best Business).
* Heródoto Barbeiro é jornalista da Record News e do R7. Lança no dia 1° de julho (Itaú Cultural, 17hs), com Frei Betto, "O Budista e o Cristão: Um Diálogo Pertinente" (Ed. Fontanar).






