Oboré comemora 35 anos e segue auxiliando a comunicação em diversas frentes

A capa do site explica. "Boré" é uma flauta Tupi usada para chamar a tribo dispersa a lutar pela legítima defesa. O jornalista Sergio Gomes, um dos fundadores e hoje diretor da Oboré, que presta diversos serviços em comunicação popular, conversou com IMPRENSA sobre trajetória e o aniversário da entidade, que há 35 anos vem fazendo o chamado.

Atualizado em 28/02/2013 às 10:02, por Vanessa Gonçalves e Jéssica Oliveira*.

"Boré" é uma flauta Tupi usada para chamar a tribo dispersa a lutar pela legítima defesa. O jornalista Sergio Gomes, um dos fundadores e hoje diretor da Oboré, que presta diversos serviços em comunicação popular, conversou com IMPRENSA sobre trajetória e o aniversário da entidade, que há 35 anos vem fazendo o chamado.


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"Quando o muro separa uma ponte une / Se a vingança encara o remorso pune / Você vem me agarra, alguém vem me solta / Você vai na marra, ela um dia volta / E se a força é tua ela um dia é nossa" são os primeiros versos da música "Pesadelo", de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro.


A canção marcou a juventude de uma geração que cresceu e segue fazendo a diferença no Brasil. Neste grupo, lá nos anos 70, estava Gomes. "Algumas músicas foram muito inspiradoras, quase a trilha sonora da nossa luta política", afirma.


A preparação


Pouco antes, em 1963, quando tinha 13 anos, Gomes deixou de lado o sonho de ser arquiteto ao receber sua primeira pauta no jornalzinho do colégio, o "O Boré". Mas a reportagem "não foi". Escolhido para fotografar uma corrida de bicicletas dos Jogos Panamericanos em São Paulo, quando revelou o filme viu que perdeu as imagens. "As bicicletas era muito rápidas", lembra. Pediu demissão. "Iria me preparar para estar à altura do jornal da minha escola", conta. Em 1967 ele conseguiu. E não pensou mais em arquitetura.

Seu último ano de colegial foi marcado pelo primeiro em vigor do Ato Institucional nº 5, ponto-chave da ditadura no Brasil. Em 1970, quando entrou na ECA-USP e conviveu os "anos de chumbo" durante sua vida universitária, ele e amigos fundaram o jornal semanal dos centros acadêmicos A Ponte , inspirado na canção de Tapajós e Pinheiro.


Crédito:Jéssica Oliveira Gomes com o primeiro exemplar para os trabalhadores.

Com os ouvidos
Sem perder essa característica de luta política, em 1978 ele e mais nove pessoas fundaram uma cooperativa de jornalistas e artistas, entre eles o cartunista Laerte Coutinho, para colaborar com os movimentos sociais e de trabalhadores urbanos na realização de sua imprensa própria, com produção de jornais, boletins, revistas e campanhas. Com quatro princípios, três públicos e um secreto, nasceu a Oboré.

"Os três princípios públicos eram não ter jornal, não ser um grupo homogêneo e não ser mantido com dinheiro de fora. E o secreto é que não entrava ranheta. Podia ser reacionário, ter um texto do cacete, mas se fosse zangadinho, encrenqueiro, maledicente, ficava fora", lembra Gomes.

A partir de 1993, a Oboré passou a desenvolver projetos de comunicação com trabalhadores rurais, atuar com o rádio como veículo de valorização da diversidade cultural brasileira e a auxiliar no controle social das políticas públicas.
"Tínhamos de escrever com os ouvidos, ir ao encontro dos trabalhadores, aprender com eles de verdade, não ter nenhum tipo de arrogância. Faríamos o jornal dos sindicatos que nos procurassem. Não queríamos ser partidários. Nos propomos a ser uma alternativa à imprensa alternativa", recorda.

Reforçando esse objetivo de escrever com os ouvidos, Gomes ressalta que já que não existe nada que não tenha sido feito pela mão de um trabalhador, ele merece sempre o melhor. Àquela época ele já sabia disso e afirma que a ideia da cooperativa era sempre oferecer o melhor jornal possível. "Mesmo antes da internet já havia mecanismos de ajudar a formar opinião pública, independente do que dizem ou deixam de dizer os grande jornais", afirma.
Diversas frentes de atuação
Ainda nos anos 90, a Oboré lança também uma área da formação, especialmente com cursos de complementação universitária para estudantes de jornalismo e oficinas para comunicadores populares. "Jornalista é muito parecido com juiz, gosta de ensinar, mas não gosta de aprender", lamenta. O maior exemplo dessa frente é o "Repórter do Futuro", anteriormente chamado de "Repórter 2000". "Escolhemos os alunos que nos escolhem, que nos procuram", explica sobre a relação diferente das faculdade de jornalismo.
Entre os demais pontos de atuação, a Oboré desenvolve atividades de relacionamento com a imprensa para entidades, dirigentes e gestores; consultoria de análise e planejamento de comunicação, gestão de projetos, edição de livros, periódicos e catálogos temáticos; pesquisas de monitoramento e avaliação de projetos e produtos da área.

Hoje, após 35 anos de história e incorporação de novas atividades, a sede da Oboré, localizada no Centro de São Paulo, mantém características pensadas lá atrás, ou seja, de ser um espaço onde as pessoas se encontrem diretamente e "boré: chamar quem está disperso", ressalta Gomes. "Tanto que é um ambiente sem paredes, não existe salinha da diretoria, tudo é conversado abertamente", explica.
A entrevista e o objetivo de vida
Durante o primeiro um ano e meio entidade todos da equipe trabalharam de graça e mantinham outro emprego. Gomes trabalhava para o caderno "Ilustrada", da Folha de S.Paulo . Fez diversas entrevistas para o jornal, mas uma o marcaria profundamente. O instrumentista mineiro Renato Andrade (1932-2005), que uniu sua técnica de violinista à viola caipira. O álbum "A Fantástica Viola de Renato Andrade", lançado em 1977, rendeu a entrevista.

Andrade relatou a Gomes que durante uma conversa com o prefeito de sua cidade e seu grande amigo, disse que seu objetivo não era impedir que os outros o chamassem de "fio da puta", porque isso sempre iria acontecer, mas impedir ser "chamado de fia da puta em voz arta".

Como músico, Andrade tocava e ensaiava muitas horas por dia. Em certa ocasião, ele começou a pensar em quantos violinistas existiram no mundo e deduziu que por mais que estudasse, seria só mais um. "Ele olhou em volta e viu que o pessoal tocava aquela viola de dez cordas, e aplicou sua técnica de violinista a ela", explica Gomes, que guarda a reportagem com carinho.

Crédito:Jéssica Oliveira A entrevista da sua vida, com o instrumentista mineiro Renato Andrade

Olha aí
O balanço dos 35 anos da Oboré será feito ao longo deste ano. Alguns materiais devem ser reeditados, a história relatada em detalhes, entre outras coisas. Um dos desejos de Gomes é ter Paulinho da Viola na festa de aniversário, já que a música "Dança da Solidão" foi outra grande inspiradora de sua geração.

"Solidão é lava que cobre tudo / Amargura em minha boca / Sorri seus dentes de chumbo / Solidão palavra cavada no coração / Resignado e mudo / No compasso da desilusão [...] Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia / Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia / Apesar de tudo, existe uma fonte de água pura / Quem beber daquela água não terá mais amargura" afirmam os primeiros e últimos versos. "Qual o contrário de solidão que começa com S...?", questiona Gomes. "Solidariedade", responde, diante do silêncio da repórter.
Sem esquecer os versos de "Pesadelo", que em sua última estrofe diz "O muro caiu, olha a ponte / Da liberdade guardiã / O braço do Cristo, horizonte / Abraça o dia de amanhã, olha aí", Gomes sabe que ainda há muito para ser feito pela comunicação. Mas ele e todos que construíram a história da Oboré podem dizer com orgulho que "35 anos de solidariedade depois, olha aí".
Outros trechos da entrevista e matéria completa poderá ser lida na edição de abril (288) de IMPRENSA.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves