“Objetivo foi nem transformá-lo em bandido, nem em herói”, diz jornalista sobre Pizzolato

“Justiça italiana nega extradição de Henrique Pizzolato”. Essa foi uma das principais manchetes desta semana. O ex-diretor de marketing do Banco do Brasil (BB), condenado a 12 anos e sete meses de prisão, fugiu do Brasil após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) dentro do processo do mensalão.

Atualizado em 31/10/2014 às 14:10, por Gabriela Ferigato.

Fernanda Odilla, repórter da sucursal Brasília da Folha de S.Paulo , chegou à capital do país no auge do escândalo. Crédito:divulgação Fernanda começou a escrever o livro em fevereiro deste ano Esse foi um tema que sempre despertou bastante sua atenção, mas começou a olhar ainda com mais cuidado quando Pizzolato escreveu uma carta dizendo que ia buscar um julgamento mais justo fora do Brasil. “Em fevereiro deste ano, teve a coletiva da Polícia Federal para anunciar como foi a operação de busca e captura [dele]. Foi aí que eu ‘pirei’, no bom sentido. Já achava a história incrível, mas naquele momento tive a certeza que queria escrever sobre ela”, conta Fernanda.
A jornalista tirou férias do trabalho; viajou até a fronteira com a Argentina (onde Pizzolato deixou o país); foi até Concórdia, na Itália (cidade natal do executivo); fez mais de quarenta entrevistas com amigos, inimigos, parentes e policiais italianos e brasileiros. Tudo isso com um claro objetivo em mente: narrar todo o processo de como ele saiu do Brasil e como a polícia conseguiu encontrá-lo.
“Os amigos contaram muito sobre sua infância e juventude. Tudo isso é importante para humanizar o personagem. Meu principal objetivo sempre foi nem transformá-lo em bandido, nem em herói. Queria ser o mais justa possível com a história. Não entrei no mérito de avaliar o julgamento do mensalão. Ele aconteceu. É um fato e precisava ser contado”.
No livro “Pizzolato - Não existe plano infalível” (Leya), Fernanda conta como o ex-diretor do Banco do Brasil conseguiu sair do país, em setembro de 2013, usando os documentos de seu irmão, que morreu em 1978. Pizzolato fez uma viagem de carro do Rio de Janeiro até a fronteira com a Argentina; de Buenos Aires pegou um voo para Espanha e, de lá, seguiu até a Itália.
Segundo a jornalista, a princípio a polícia desacreditava que ele tinha ido para a Itália, e ficaram Crédito:divulgação incomodados por não existir nenhum registro de saída do Brasil e nem de entrada em nenhuma outra região. Enquanto isso, a polícia Italiana descobriu que uma pessoa chamada Celso Pizzolato estava morando em um vilarejo.
“Acharam que em algum momento o Henrique poderia visitar o ‘irmão’. Quando contaram para os policiais brasileiros, disseram que o Celso estava morto. Em menos de 24 horas, uma operação de meses se resolveu. Os detalhes todos são muito saborosos. A polícia italiana fingiu que estava varrendo a rua, cortou a luz para poder forçar as pessoas a saírem de casa e então o identificaram pela foto”.
Fernanda diz que, enquanto a investigação estava em curso, foi muito difícil para a imprensa no geral conseguir informações. “Às vezes vinham notícias desencontradas, mas é porque as fontes eram muito fechadas”. Mesmo tendo lançado o livro pouco tempo antes da atual decisão negando a extradição de Pizzolato, a repórter conta na obra que a situação das prisões brasileiras sempre foi um dos pontos de sua defesa.
“Eu tive muito tempo para produzir o livro. Foi bacana fazer uma reportagem sem muita pressa, sem deadline. Isso é mais raro no dia a dia. Cheguei a tomar café na casa de uma tia dele, me hospedei na mesma pousada que ele ficou com a esposa, falei com amigos de infância. Tudo isso me fez ter certeza que eu adoro reportagem”, finaliza.