"O teatro é a forma de arte mais perseguida em todos os regimes militares", diz dramaturgo

"O teatro é a forma de arte mais perseguida em todos os regimes militares", diz dramaturgo

Atualizado em 14/12/2007 às 19:12, por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA.

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Após a abertura do segundo dia do "1º Congresso Estadual dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo", deu-se início à palestra "Os meios de comunicação, a cultura e a herança da censura na época da ditadura", apresentada pelo dramaturgo e advogado Idibal Pivetta, e pelo jornalista Alípio Freire.

O dramaturgo, que ficou 40 dias preso durante o regime militar, abriu a palestra lembrando a presença dos censores nas redações dos jornais e a forma silenciosa como protestavam. "O jeito era publicar poesias e receitas de bolos", comentou Pivetta.

Ele acrescentou que, por ser tão tocante e forte, "o teatro é a forma de arte mais perseguida em todos os regimes militares". Segundo o dramaturgo, 573 peças foram proibidas "graças à imbecilidade dos revisores".

Pivetta alertou para a atual censura econômica, que obriga as companhias teatrais a produzirem conteúdo que seja interessante ao mercado. Ele criticou, ainda, as produções internacionais que são aclamadas quando se apresentam no Brasil. "Elas nada acrescentam à nossa cultura", afirmou o dramaturgo.

Em tom de denúncia, Pivetta declarou que a peça "João Cândido - A revolta da chibata", produzida por ele, teve sua exibição proibida em Brasília (DF), por representantes da Marinha. "Eles alegaram falta de verba, mas eu soube por fontes que ele não queriam o espetáculo na cidade".

Em seguida, o jornalista Alípio Freire abriu seu discurso, comentando a importância de lembrar aos jovens as lutas do passado.

O jornalista ressaltou o domínio do conteúdo por parte dos donos dos conglomerados de comunicação. "Através dos meios de comunicações, os proprietários pautam os nossos debates; decidem o que é importante na notícia". Segundo Freire, eles formam a opinião pública.

Freire afirmou que, apesar das perseguições sofridas pelos meios de comunicação, eles contribuíram muito para o golpe militar. "Se houve uma ditadura no Brasil, foi porque as grandes empresas de comunicação se aliaram ao governo". Ainda sobre ditadura, comentou que mídia produziu um tipo de vítima que não existe. "A mídia produziu vítimas inocentes, mas isso nós não somos".

O jornalista terminou seu discurso, analisando a nova TV pública. O jornalista ressaltou a importância do controle sobre a mesma."Não basta ter TV pública, é preciso que se crie um controle social sobre ela".

O "1º Congresso Estadual dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo" aconteceu nos dias 13 e 14/12, e foi realizado no anfiteatro Fernando Azevedo, da Secretaria de Estado e Educação, no centro da capital paulista.