O segredo da tipografia chinesa

O segredo da tipografia chinesa

Atualizado em 19/01/2011 às 14:01, por Nelson Varón Cadena.

Os chineses inventaram o conceito de tipografia, muitos séculos antes de Gutenberg, mas não usufruíram dele pelo volume de tipos, ou seja, letras, que seria necessário fabricar para compor uma página de jornal. Considerando que o alfabeto chinês compreende em torno de cinco mil caracteres, tornava-se inviável para eles, na relação custo beneficio; uma diferença abismal em relação aos 29 caracteres latinos desenvolvidos pelo ferreiro Batavo aqui referido. Passaram-se muitos séculos, surgiu a tipografia ocidental, evoluímos para os tipos fabricados em chumbo e os chineses continuaram a sua vidinha, mas não abriram mão de usufruírem de uma das grandes invenções do homem, a prensa e do seu produto final: livros e revistas.

Semana passada vi pela primeira vez uma fotografia de uma caixa de tipos de uma tipografia de Xangai, numa revista de inícios do século XX, imagem surpreendente. Dava para estimar o tamanho do equipamento em função do homem que pousava ao lado; então estimei a caixa de tipos, uma delas apenas, em seis metros de largura por dois de altura. Surgiu na minha mente a inevitável pergunta: que tipo de organização e método teriam os tipógrafos chineses para lidarem com milhões de tipos no trabalho de composição de uma página dupla de jornal? Eu disse milhões e explico.

Para quem nunca viu uma tipografia e não tem idéia de como funcionava essa oficina, caixas de tipos eram caixões de madeira onde os operários guardavam numa ordem impecável as letras fundidas em chumbo na ponta de uma haste de madeira, ou de metal, para serem montadas uma a uma, conforme o texto do redator, e assim criar uma matriz de impressão para cada folha. Isto descrito vamos às contas para melhor compreendermos, ou não, a incrível capacidade dos chineses em lidar com a tipografia moderna, no século XX.

As contas

A legenda da foto em questão esclarecia que 700 caracteres eram necessários para a composição de um texto. Não entendi direito, considerando os 5.000 caracteres da escrita chinesa, mas faço dessa informação da legenda de rodapé para o calculo de quantos tipos seriam necessários para o trabalho de impressão. 700 caracteres vezes dois (maiúsculas e minúsculas), vezes quatro (corpos 10, 11, 12 e 18 para os títulos) vezes quatro (duas fontes da família Italic e duas da família Gotic, preponderantes na época), vezes 420 (estimativa de 30% de vogais num texto de uma lauda de 1.400 caracteres) vezes um número aleatório ( correspondente as consoantes e a sua incidência de uso)que não sei estimar.

Onde a conta foi interrompida (700 x 2 x 4 x 4 x 720) chegamos a 8.064.000 tipos. Vamos arredondar para oito milhões para não complicar. Está explicado o gigantismo das caixas de tipos por eles utilizadas, quatro a cinco vezes o formato das caixas utilizadas nas tipografias ocidentais, no Brasil inclusive. Isso no formato. No volume a estimativa é de 24 vezes o número de tipos (29 x 24). Fiquei a imaginar como seria o empastelamento de um jornal chinês. Aqui no Brasil policiais, ou sicários, no passado invadiam as redações, jogavam os tipos no chão, embaralhavam tudo e os tipógrafos demoravam mais de um mês para colocar tudo em ordem de novo. Empastelamento de jornal muitas vezes implicava no seu fechamento definitivo.

E na China, jornal empastelado, imagino, não tinha retorno. Pensem em um grupo de chineses ajoelhados e sentados no chão catando 8 milhões de tipos para arrumá-los em no mínimo 700 categorias (as setecentas letras) com suas respectivas divisões de fontes, corpos e ainda de caixas alta e baixa. Trabalho para um bando de loucos, ou quem sabe de abnegados e determinados funcionários.