O que há por trás das lágrimas
O que há por trás das lágrimas
Atualizado em 04/05/2010 às 20:05, por
Igor Ribeiro.
Tenho acompanhado com grande interesse o desenrolar do caso dos em Goiânia, que voltaram às mães biológicas no dia 3 de maio. Uma série de fatos me deixou bastante comovido, desde o início do caso e sua tragédia inerente - drama mais comum nos hospitais brasileiros do que nós, jornalistas, somos capazes de relatar -, até a desventura de uma das mães sofrer acusações a la "Bentinho" e se ver abandonada pelo marido desconfiado.
O ápice, no entanto, foi o momento da destroca em si. Repleta de simbologias e leituras, a cena deveria ser estudada minuciosamente pela psicanálise e pela lógica utilitarista, com a simples finalidade de se tentar observar os limites entre a perversidade e a grandeza humanas - paradoxalmente gigantescas e sutis neste episódio. Pois não há resposta conclusiva a se tirar do acontecido, não há lição que a absoluta simplicidade do vínculo maternal já não tivesse nos ensinado. Há, sim, espaço para Justiça na forma de auditorias, penalizações, revisões, inquéritos, tribunais, condenações. Porém, para Elaine Gomes de Oliveira e Keila Celina dos Santos Fagundes, as mães, não há mais nada a não ser lágrimas.
O tocante da cena foi o choro uníssono e angustiante de duas mulheres com um destino que não escolheram. A única decisão que lhes coube, ao fim das contas, foi destrocar os bebês, um ano depois do ocorrido, em tempo de poupar os filhos de traumas e consequências ainda mais trágicas. Os corações dessas mães já estão dilacerados e marcados profunda e irreversivelmente. Tal desespero se extravasou em lágrimas que emocionaram parentes, amigos, curiosos, espectadores como eu, e o próprio juiz Maurício Porfírio, da vara de infância e juventude, magistrado cujos olhos marejados denunciaram a fragilidade afetiva que enfrentavam aquelas mulheres.
Não raro me questiono sobre a subjetiva imparcialidade jornalística e a incapacidade institucional de lidar com a questão de maneira honesta e respeitosa. Não consegui resposta definitiva para isso, mas a ideia que mais faz sentido para mim é separar trabalho e amizade, mas nunca razão e emoção. O trabalho pode construir pontes até uma amizade e vice-versa, mas para mim seus dividendos nunca são intercambiáveis: não há moeda de troca ou interesses que ditem os rumos de um ou de outro. Como considero ambos sagrados, cada um em seu universo, sua independência é o quociente de pureza que os mantém invioláveis.
Já razão e emoção não devem nunca se sobrepor em nossas vidas, principalmente no jornalismo. Elas se completam e se fundem das formas mais diversas, ajudando a tecer uma malha que ora nos protege, ora nos conforta. São faculdades humanas que fazem bem, cada uma ao seu modo, à apuração e à redação. Encontrar o justo equilíbrio entre razão e emoção numa reportagem traz o público para perto sem desvirtuá-lo. Sensibilizar a audiência para que preste atenção em algo importante com bom senso e sem injustiças é fundamental para a prática jornalista. E para qualquer profissão, como demonstrou o juiz, emocionado com a comovente cena que protagonizaram as mães.
Além do inquérito que investiga as enfermeiras de plantão no dia da troca, as mães pretendem mover uma ação contra o Hospital Santa Lúcia, onde tudo aconteceu. Apesar da angústia, Elaine e Keila se dizem amigas e consideram seus filhos irmãos gêmeos. Pretendem mudar-se para morar próximas uma da outra e verem com frequência as crianças que, por um ano, chamaram de "filho".
O ápice, no entanto, foi o momento da destroca em si. Repleta de simbologias e leituras, a cena deveria ser estudada minuciosamente pela psicanálise e pela lógica utilitarista, com a simples finalidade de se tentar observar os limites entre a perversidade e a grandeza humanas - paradoxalmente gigantescas e sutis neste episódio. Pois não há resposta conclusiva a se tirar do acontecido, não há lição que a absoluta simplicidade do vínculo maternal já não tivesse nos ensinado. Há, sim, espaço para Justiça na forma de auditorias, penalizações, revisões, inquéritos, tribunais, condenações. Porém, para Elaine Gomes de Oliveira e Keila Celina dos Santos Fagundes, as mães, não há mais nada a não ser lágrimas.
O tocante da cena foi o choro uníssono e angustiante de duas mulheres com um destino que não escolheram. A única decisão que lhes coube, ao fim das contas, foi destrocar os bebês, um ano depois do ocorrido, em tempo de poupar os filhos de traumas e consequências ainda mais trágicas. Os corações dessas mães já estão dilacerados e marcados profunda e irreversivelmente. Tal desespero se extravasou em lágrimas que emocionaram parentes, amigos, curiosos, espectadores como eu, e o próprio juiz Maurício Porfírio, da vara de infância e juventude, magistrado cujos olhos marejados denunciaram a fragilidade afetiva que enfrentavam aquelas mulheres.
Não raro me questiono sobre a subjetiva imparcialidade jornalística e a incapacidade institucional de lidar com a questão de maneira honesta e respeitosa. Não consegui resposta definitiva para isso, mas a ideia que mais faz sentido para mim é separar trabalho e amizade, mas nunca razão e emoção. O trabalho pode construir pontes até uma amizade e vice-versa, mas para mim seus dividendos nunca são intercambiáveis: não há moeda de troca ou interesses que ditem os rumos de um ou de outro. Como considero ambos sagrados, cada um em seu universo, sua independência é o quociente de pureza que os mantém invioláveis.
Já razão e emoção não devem nunca se sobrepor em nossas vidas, principalmente no jornalismo. Elas se completam e se fundem das formas mais diversas, ajudando a tecer uma malha que ora nos protege, ora nos conforta. São faculdades humanas que fazem bem, cada uma ao seu modo, à apuração e à redação. Encontrar o justo equilíbrio entre razão e emoção numa reportagem traz o público para perto sem desvirtuá-lo. Sensibilizar a audiência para que preste atenção em algo importante com bom senso e sem injustiças é fundamental para a prática jornalista. E para qualquer profissão, como demonstrou o juiz, emocionado com a comovente cena que protagonizaram as mães.
Além do inquérito que investiga as enfermeiras de plantão no dia da troca, as mães pretendem mover uma ação contra o Hospital Santa Lúcia, onde tudo aconteceu. Apesar da angústia, Elaine e Keila se dizem amigas e consideram seus filhos irmãos gêmeos. Pretendem mudar-se para morar próximas uma da outra e verem com frequência as crianças que, por um ano, chamaram de "filho".






