O Papa pelos portenhos
O Papa pelos portenhos
A cobertura dada à eleição do novo Papa teve alguns pontos em comum entre a imprensa brasileira e a argentina. A montanha de especulações sobre quem poderia ser o sucessor de João Paulo 2º e as inúmeras matérias sobre a mitologia que cerca a escolha do novo Papa foram adotadas como prioridade por jornalistas de ambos os países para tratar do tema.
A principal diferença ficou por conta da torcida que se formou no Brasil em cima do candidato brasileiro ao posto de Papa, dom Cláudio Hummes. A imprensa, assim como o Presidente Lula, encampou o nome de dom Cláudio e fez uma campanha memorável a favor do cardeal brasileiro. Na Argentina, mesmo a imprensa mais conservadora não se empolgou com o nome do Arcebispo de Buenos Aires, cardeal Jorge Bergoglio. Talvez pela falta de carisma ou pelas denúncias que o vinculavam à ditadura militar, os jornalistas preferiram manter distância do candidato argentino.
O que talvez tenha sido uma falha da mídia dos dois países foi fechar os olhos para o óbvio: o novo Papa iria ser imagem e semelhança do que desejava João Paulo 2º.
A justificativa para tal afirmação se encontra em um dado concreto. O então Papa João Paulo 2º não havia nomeado somente 2 dos 117 cardeais que participariam no conclave. E seu melhor amigo e confidente era ninguém mais que Joseph Ratzinger, atual Papa Bento 16.
Como se tratava de uma disputa política, já que estamos falando de um conflito de interesses entre homens e não entre santos, em vez de consultar os tão sábios especialistas em Vaticano que povoaram as páginas dos jornais, seria mais prudente consultar alguém que está mais acostumado a viver a lógica política. Talvez se perguntassem ao Presidente da Câmara do Deputados, Severino Cavalcanti, o nobre deputado teria acertado de primeira, já que sabe que, se pode escolher os eleitores de seu sucessor, seguramente elegerá aquele que melhor lhe convém.
Além dos especialistas em Vaticano, a imprensa em geral também deu muito espaço para pessoas como Frei Betto e Leonardo Boff que, apesar de serem dotadas de grande capacidade intelectual, perderam não só a batalha, mas também a guerra dentro de uma instituição que transformou a Teologia da Libertação em história e, com isso, conseguiu mais uma série de prognósticos equivocados.
Sobre a eleição do novo Papa, Bento 16, nenhum meio nos dois países noticiou o "Habemus Papam" com muito empolgação. Talvez fruto do fim da ilusão causada pelas equivocadas análises que davam a idéia de que uma reunião de conservadores elegeria um progressista. E nada melhor que a manchete do jornal argentino Página 12 para esboçar o sentimento geral em relação à decisão do conclave: "Que Deus os perdoe!".






