O nosso espetinho de escorpião

O nosso espetinho de escorpião

Atualizado em 23/08/2008 às 14:08, por Rodrigo Manzano.

Você não vai jantar na casa de alguém e leva seus talheres. É deselegante e, no mínimo, estranho. Os jornalistas, quando foram a Pequim, cobrir as Olimpíadas, levaram os seus próprios talheres. O faqueiro da imprensa se chama "etnocentrismo", um conceito da antropologia que significa, basicamente, o olhar preconceituoso sobre a cultura do outro a partir das suas próprias percepções culturais. Eventos internacionais, sobretudo os esportivos, quando os repórteres são enviados para cobrir as disputas entre os países mas também são pautados para enviar matérias sobre as características do local onde se realizam as provas, são uma ótima oportunidade para apresentar ao público faces de uma cultura estrangeira pouco conhecida. Mas, quase sempre, o que acontece é uma repetição incansável dos mesmos clichês, das mesmas pautas, das mesmas abordagens.

Eu nunca fui à China, mas desde pequeno ouço histórias sobre os estranhos hábitos alimentares dos chineses, afeitos a iguarias como insetos e outros bichos. Os espetinhos de escorpião podem ser tão estranhos como um hot dog. Depende do olhar que lançamos sobre eles. Entre um cachorro-quente na porta do estádio e um espetinho de escorpião, certamente meu paladar escolhe o primeiro, mas meu juízo não deixa que o segundo diminua minha percepção daquela cultura.

Nem todos se lembram, mas quando a Copa do Mundo de futebol foi realizada no Japão e na Coréia do Sul, as matérias de "esquenta", preliminares ao campeonato propriamente dito, incluíam reportagens sobre o uso de carne de cachorro na alimentação. Isso levou os organismos internacionais de proteção aos animais protestarem contra o hábito ancestral dos coreanos, o que, por sua vez, pressionou o governo a solicitar que os nativos excluíssem cães do seu cardápio. (Imagine um congresso internacional da comunidade judaica no Rio de Janeiro. Parece pouco provável que os cariocas todos se abstivessem da feijoada no sábado, não?). A origem da discórdia foi, em grande parte, motivada pela repercussão internacional da mídia sobre o hábito coreano.

Da mesma maneira como nos irritamos constantemente com a desgastada imagem de país do "futebol e samba" atribuída ao Brasil, suponho que os chineses não gostem muito de serem identificados apenas com os espetinhos de escorpião.

O espetinho de escorpião é o cabresto do repórter, a impedir que ele descubra na China aquilo que ultrapassa o senso comum. Octávio Paz, certa vez, afirmou que só é possível contemplar o oriente a partir de uma janela. Se reconhecidamente já é difícil entender a cultura do outro, mais difícil ainda fica quando fechamos a janela para aquilo que ele tem de melhor, o que, quase nunca, é aquilo que ele tem de mais excêntrico.

Faça um exercício básico. Estique a lateral dos seus olhos e vire, por um minuto, um chinês. Certo, você não vai se transformar num chinês, mas pode chegar mais perto. Agora pense no estranhamento que lhe causa, por exemplo, a "Dança do Créu". A "Dança do Créu" é nossa barata frita e a Mulher Melancia é nossa escarrada no chão.

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Os que desejam conhecer um pouco melhor, sem os filtros do etnocentrismo, a culinária chinesa para além dos fatídicos espetinhos de escorpião, recomendo assistirem ao "A deliciosa China de Kylie Kwong", uma excelente série de programas em que uma chef de cozinha, descendente ocidental de chineses, viaja ao monumental país descobrindo seus sabores. Vi praticamente todos os episódios, exibidos no Brasil pelo ótimo GNT. Até agora, em nenhum ela degustou nada que não tenha me feito salivar como um cão de Pavlov.