O não reconhecido Denial State
O não reconhecido Denial State
Estão errados os que dizem que 50 são os estados americanos. Na minha modesta opinião, existe mais um, não considerado, que não aparece em mapas nem no Google Earth. E nem será contabilizado pelo Censo deste ano embora lá vivam milhões de cidadãos. Talvez seja o estado mais populoso, o com maior diversidade étnica, cultural, social, profissional. Chama-se Denial State. Ou o estado da negação. Os habitantes de Denial compartilham todos de uma mesma característica: se recusam a ver o óbvio. Mais que uma característica, desconfio que seja uma doença e que aqueles nos estágios terminais tentam sempre tapar o sol com a peneira.
Diariamente, vejo notícias vindas de Denial. Não tem um programa de auditório, um noticiário de televisão, uma edição de jornais ou revistas que não traga uma história de lá.
Vejam essa aqui: desde julho do ano passado morreram em combate no Afeganistão 761 soldados americanos. Durante o mesmo período, outros 817 cometeram suicídio. Entretanto, comandantes do Exército evitam reconhecer que as guerras do Iraque e do Afeganistão possam ter algo a ver com esse fato.
O número de suicídios entre soldados tem mantido uma taxa de crescimento contínuo nos últimos 5 anos, embora permaneça estável entre a população civil, mesmo quando a comparação entre os dois grupos leva em conta as mesmas variáveis como idade e gênero.
"É muito frustrante que apesar de todos os nossos esforços não conseguimos conter essa onda de suicídios", disse o general George Casey ao Congresso dia 23 de Março, numa reunião específica para discutir a questão. Os esforços a que ele se referiu foram milhões de dólares investidos na contratação de centenas de psicólogos, psiquiatras e especialistas em saúde mental debatendo o problema.
Outro líder militar, que imagino também deve ser morador de Denial, Secretário do Exército John McHugh, se disse "perplexo". E um porta- voz, Gary Tallman, disse que os especialistas, procurando entender melhor as causas desse fenômeno, recomendaram aos comandantes militares a aplicação de procedimentos padronizados para conduzir futuras investigações. Ou seja: propuseram mudanças no questionário até então usado. O Exército quer saber tudo sobre a vida pessoal do soldado que se suicidou: seus relacionamentos, as últimas conversas, o estado de suas finanças, alterações no humor e outros traços de personalidade. O objetivo é determinar "as circunstâncias, os métodos e os fatores que possam ter contribuído para o evento, na esperança de que essas informações gerarão recomendações claras e relevantes para prevenir futuros suicídios", explicou o porta-voz.
Francamente, eu leio uma notícia como essa e quem fica perplexa sou eu. Chego quase a engasgar de raiva dos burocratas, essa raça que abomino e cuja lógica -- se é que ela existe --eu absolutamente não entendo.
Não me parece nenhum enigma difícil de decifrar que participar de uma guerra deve estilhaçar em milhões de pedacinhos o psiquismo de qualquer ser humano, não importa seu sexo ou local de nascimento . O medo, o stress contínuo num ambiente estranho e hostil, a solidão e a distância da família, ser testemunha diariamente, por meses a fio, de matanças e situações de extremo perigo e violência... Impossível passar por uma experiência dessas sem qualquer dano emocional importante e permanente.
As mulheres-soldados , além de todos esses fatores, ainda enfrentam mais um:as violências sexuais. No livro "The lonely soldier: the private war of women serving in Iraque" ( O soldado solitário: a guerra particular das mulheres servindo no Iraque ), a autora, Helen Benedict, traça um perfil perturbador da corporação. Ela diz que o estupro de mulheres-soldados por seus próprios companheiros de tropa e superiores é um problema sistêmico no Exército americano, que acontece rotineiramente sem que a corporação tome medidas sérias para prevenir, coibir, ou punir os culpados.
| Divulgação |
| Suzanne Swift |
Durante as pesquisas para escrever o livro, Benedict descobriu que a quase totalidade das mulheres soldados sofreu, em algum ponto da carreira, algum tipo de assédio sexual. Ela revela que um estudo realizado entre veteranos em 2004 revelou que 71 por cento das mulheres militares declararam terem sido estupradas por seus próprios conterrâneos enquanto estavam lotadas em zonas de guerra. Mais: a maioria dos casos sequer são reportados. Quando são, geralmente a vítima é aconselhada a calar a boca para não comprometer a "moral" da tropa. E tem que continuar encarando, todo dia, seus agressores. Muitas, como , decidem desertar, acabam presas, são levadas para Cortes Marciais, acusadas de traidoras, expostas a novas humilhações ou ameaçadas com uma dispensa desonrosa que afetará negativamente toda sua vida e futuro profissional.
Por muito menos que isso tem gente que já contempla o suicídio. E milhões de dólares são gastos para que especialistas em saúde mental possam juntar as peças desse quebra cabeça e fazer algum sentido do que não tem nenhum. Tem coisa mais primitiva, mais absurda do que uma guerra? Eu não vivo lá, mas as vezes acho que deve ser bom ser um habitante de Denial. Pensando bem deve ser um luxo viver dessa maneira, nesse estado de letargia e cômoda ignorância.






