O marketing gorduroso e nefasto do fast food
O marketing gorduroso e nefasto do fast food
O marketing infantil anda povoado de sanduíches gordurosos, palhaços sem graça alguma, e uma incrível disposição para ganhar dinheiro à custa da saúde das nossas crianças.
O fast food, os fabricantes de comidinhas e bebidinhas não saudáveis, proclamadas particularmente pelas grandes redes internacionais, são por definição predadores. Não hesitam em lançar mão de ações não éticas com o objetivo de seduzir as crianças e adolescentes e têm contribuído negativamente para a formação de hábitos alimentares inadequados.
Pesquisa realizada pela Consumer International (CI), uma entidade que reúne um número superior a 200 organizações em todo o mundo, revelou o que todos nós já sabemos: há muita porcaria sendo vendida por aí, e veiculada intensamente pela mídia, com o objetivo único é engordar o caixa de empresas que fabricam e comercializam comidas e bebidas pobres em nutrientes e absolutamente ricas em calorias, açúcar, gorduras e sal.
O levantamento da CI que foi realizado em 14 países, Brasil incluído, evidenciou a necessidade de uma regulamentação correta para o marketing infantil, para coibir os desmandos praticados pelas cadeias de fast food, pelas empresas que fabricam salgadinhos e bolachinhas com alto valor calórico, apesar do discurso hipócrita que menciona saladinhas, frutas, mas que investe pesadamente no consumo de lanches gordurosos e copos grandes de refrigerantes.
No Brasil, as tentativas de restrição à propaganda de produtos não saudáveis têm esbarrado no lobby formidável de empresas, agências de propaganda e de veículos que temem sobretudo ver reduzido o seu ganho, já que o setor inclui anunciante de peso.
Além disso, todo debate que visa regular o marketing infantil acaba sendo desvirtuado para um outro foco: a restrição à liberdade de expressão, como se disciplinar o assédio de fabricantes de produtos não saudáveis às nossas crianças fosse algo negativo, prejudicial à sociedade. Trata-se de um esforço (que infelizmente tem sido bem sucedido pela cumplicidade e inoperância de todos nós) no sentido de manter os canais livres para esta divulgação nociva que contribui para comprometer a saúde dos mais jovens. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, 30% das crianças têm sobrepeso e 15% delas são obesas.
É fundamental que o Governo, mas também a sociedade civil, as entidades de defesa do consumidor em particular, as escolas e a imprensa (que quase sempre opta pela omissão e pela cumplicidade nesta área) empenhem-se ao máximo para disciplinar o marketing infantil, como já ocorre em dezenas de países.
Não se pode cair na armadilha de acreditar na autoregulamentação porque ela tem se mostrado pouco eficaz porque sempre comprometida com os interesses dos anunciantes, agências e veículos, repetindo a velha história da raposa que toma conta do galinheiro. Todos os avanços obtidos em termos de disciplinar a propaganda voltada para as crianças têm sido conseguidos pela pressão da sociedade e não pela decisão própria das empresas de fast food, de fabricantes de bebidinhas e comidinhas sem qualidade nutricional.
A autoregulamentação é, por excelência, cínica na indústria da saúde, de alimentos, de bebidas, agroquímica, tabagista etc etc porque, na prática, as empresas buscam apenas manipular a opinião pública, quase sempre proclamando ações que não são cumpridas ou para as quais não há controle. Algumas empresas ou setores preferem agir debaixo dos lençóis, saindo dos holofotes da televisão e penetrando nos sites e nos games com apelos quase subliminares para as crianças, em geral com um efeito devastador.
Há que se destacar o papel nocivo dos brindes, das promoções no setor de fast food que atraem crianças (e pais pouco informados), promovendo, de maneira apelativa e irresponsável, alimentos não saudáveis. É preciso, portanto, proibir essas promoções porque elas funcionam como isca, como pressão insuportável sobre os pais (que, é lógico, deveriam ser mais atuantes, menos omissos). Alegar, no entanto, que os pais devam controlar os filhos é um argumento discutível porque as crianças são bombardeadas o tempo todo por propagandas sedutoras (e ao mesmo tempo irresponsáveis) e por promessas feitas por palhaços babacas e heróis artificiais de histórias em quadrinhos e desenhos animados.
O Estado e a sociedade precisam colaborar com os pais, regulando o assédio da indústria às crianças, proibindo o estímulo ao consumo não consciente e punindo as empresas que glamurizam "bigs qualquer coisa" para encherem os seus cofres.
A mídia precisa também desempenhar o seu papel, mas é forçoso reconhecer que, em boa parte, ela já escolheu o seu lado, alinhando com os anunciantes que costumam ser generosos com aqueles que os promovem.
É preciso dar um basta a este marketing nefasto e gorduroso, é preciso desmascarar a autoregulamentação nessa área, é preciso fortalecer entidades como a ANVISA , o Instituto Alana e o IDEC que têm enfrentado interesses poderosos para denunciar e coibir abusos.
Certos setores industriais, determinados veículos e agências não têm compromisso algum com a liberdade de expressão e utilizam, com a maior cara de pau, este argumento para justificar a sua ação predadora. No fundo, defendem apenas a sua liberdade, respaldados pelo seu poderio econômico, e se empenham para calar as vozes adversárias.
Devemos ampliar , aumentar o tom do nosso repúdio e repetirmos em voz alta para que todos (sobretudo empresas, agências e veículos) nos escutem: deixem em paz as nossas crianças. Enfiem, por favor, esta propaganda gordurosa em outro lugar.






