O 'jeitinho' brasileiro deu conta do Haiti, por Marjorie Rodrigues
O 'jeitinho' brasileiro deu conta do Haiti, por Marjorie Rodrigues
Como o exército de um país pobre conseguiu fazer o que nem as tropas de países ricos conseguiram? O coronel Cunha Mattos, chefe do sistema de comunicação social do exército (CCOMSEX), explica que isso se deve à personalidade do brasileiro. Ele mostra a foto de um de nossos soldados - devidamente fardado e armado - brincando de roda com crianças haitianas e pergunta: "você consegue imaginar um soldado americano fazendo isso?".
Depois da queda do presidente Jean Bertrand Aristide, uma Força Multilateral Interina (MIF, na sigla em inglês), formada por Estados Unidos, Canadá, França e Chile, foi convocada para conter a disputa de poder e a guerra civil que se anunciava. Não conseguiu. Os civis ficaram à mercê dos grupos armados e, nas ruas, corpos fuzilados se misturavam a montanhas de lixo e detritos. Desde junho de 2004, a Minustah, missão de paz da ONU no Haiti, é composta apenas por brasileiros. Tem dado certo. Cunha Mattos conta que a favela de Bel'Air, antes um cenário de horror e sujeira, hoje tem as ruas limpas e livres e seus moradores podem sair de casa na hora em que bem entenderem.
Graças ao "jeitinho" e à amabilidade brasileira, a Minustah driblou a ONU para trabalhar em conjunto com entidades comunitárias e ONGs. "Se você dá vassoura e pá para os próprios moradores ajudarem a limpar a rua, você cria uma consciência de que eles mesmos podem fazer sua vida voltar ao normal". ONGs brasileiras também são convidadas a trabalhar no Haiti. A Viva Rio é uma delas. Segundo Mattos, também já foram feitos mais de 3 mil atendimentos médicos e os próprios soldados chegaram a dividir sua "ração" com os haitianos. Mas ninguém passou fome, não", diz ele. "No Haiti, estamos muito bem equipados e servidos. Sobra. No Brasil, é que pode faltar alguma coisa".
Tanto o coronel como o próprio o Haiti quebram paradigmas. À primeira vista, Cunha Mattos parece um tanto franzino para um militar. Mas, no Haiti, onde trabalhou até o ano passado, testemunhou a morte do general Bacelar e as primeiras eleições, às quais os haitianos compareceram em peso, mesmo o voto não sendo obrigatório no país. Ele também já foi observador militar da ONU na fronteira entre Uganda e Ruanda, durante os conflitos que resultaram no genocídio retratado em "Hotel Ruanda", filme indicado a três Oscar (melhor ator, melhor atriz e melhor roteiro) em 2005. Cunha Mattos também é bastante comunicativo - sua verborragia surpreende, se considerarmos a caricatura do militar mau-humorado que só sabe dizer que não tem nada a declarar. Já o Haiti costumava ser a mais produtiva das colônias da América, graças à produção de açúcar, tabaco e outros produtos tropicais. Em 1791, os próprios escravos (cuja quantidade superava em dez vezes o número de franceses e mestiços) se libertaram e, três anos depois, o Haiti foi o primeiro país do Novo Mundo a conquistar a independência. Contra todas as expectativas da época, hoje ele é o mais pobre do continente.
Enquanto esteve no Haiti, Cunha Mattos sempre dava um jeito de levar jornalistas ao país e faz questão de citar os nomes daqueles para quem arranjou um lugar nos vôos que fazem a troca das tropas, que ocorrem a cada seis meses. Assim como Carlos Fino, o repórter de guerra português que foi o primeiro no mundo a anunciar o início da guerra no Iraque, ele julga mais prudente ir a uma zona de conflito armado na situação de "embeded", ou seja, protegido pelo exército de um dos lados. Para ele, o jornalista tem de botar em um dos pratos da balança a sua integridade física e, do outro, sua autonomia. Às vezes, vale a pena perder um pouco da autonomia para não levar um tiro.
Lá, Cunha Mattos também atendia a imprensa, como faz aqui no Brasil. Os jornais estrangeiros só queriam saber da pergunta que abre esta reportagem: como um exército pequeno, modesto, vindo de um país subdesenvolvido, conseguiu dar jeito no conflito haitiano? O coronel atribui o sucesso ao lema "braço forte, mão amiga", em oposição a outros exércitos que só usam o "braço forte". E brinca: "como um cara do Canadá ia conseguir solucionar o conflito no Haiti? Esses caras estão acostumados a só apartar briga de esquilos". Quando era a vez dos jornalistas brasileiros, reinava a vontade de saber se o Haiti pode ser aqui, como na letra de Caetano. Afinal, se o exército é capaz de pacificar o Haiti, por que não poderia fazer o mesmo nos morros do Rio de Janeiro? Mattos, que ainda não assistiu a "Tropa de Elite", diz que o exército pode, sim, fazer isso. "Mas falta ordenamento jurídico", conta. "No Haiti, as tropas são brasileiras, mas as regras são da ONU". O exército pode revistar casas e transeuntes e atirar em pessoas armadas, desde que não seja pelas costas. Aqui, uma pessoa só pode ser presa em flagrante delito e, para entrar na casa de alguém, só com um mandado de busca e apreensão.
Cunha Mattos frisa que o que existe no Rio não é uma guerra, como insistem alguns setores da sociedade. Mas considera o morro do alemão pior que o Haiti por três motivos: primeiro, os "bandidos" daqui estão muito bem armados com potentes fuzis e granadas de mão. "No Haiti, o máximo que eles tinham era coquetel molotov", conta o coronel. Em segundo lugar, vem a topografia. No Haiti, as favelas são planas. "É muito mais fácil empurrar alguém morro abaixo do que morro acima. Quem está em cima tem uma visão estratégica", pondera. Por fim, há a motivação dos traficantes do Rio, que é defender um negócio lucrativo. No Haiti, não era esse o principal objetivo e, por isso mesmo, quando a Minustah tomava algum lugar, os rebeldes simplesmente iam embora. Aliás, eis o grande segredo: permanecer no local. "Só demos jeito em Bel Air porque ficamos ali. Assim, os bandidos não voltam", diz Mattos. Segundo ele, o exército está só esperando o "ordenamento jurídico" para entrar em ação na cidade nem sempre maravilhosa. Por enquanto, vai ficando no Haiti, de onde pretende sair gradualmente até as próximas eleições, que acontecem em 2011.
*Marjorie Rodrigues é estudante de jornalismo da Universidade de São Paulo. Para entrar em contato, envie um e-mail para






