O Infalível Homem-Falível

O Infalível Homem-Falível

Atualizado em 05/09/2007 às 09:09, por Eduardo Pugnali.

Falhei. Errei. Não consegui.

Essas são as únicas palavras que posso dizer sobre a semana passada. Não consegui cumprir com o meu artigo semanal para o Portal Imprensa. Não deu mesmo. Peço desculpas a quem procurou ele na terça e não encontrou, mas não deu mesmo.

E a pergunta que fica é: por quê? Porque foi impossível conciliar tantos compromissos e deveres ao mesmo tempo. Estive viajando, acompanhando um cliente e, ao mesmo tempo, sofrendo por conta de não ter feito o texto.

Por outro lado, surgiu a idéia para esse. Pode parecer oportunista isso, mas confesso que foi pura inspiração mesmo. No texto anterior, falei do Mundo-do-Saber-Tudo e, de repente, me vejo com todos os efeitos colaterais que esse pensamento e atitude nos levam. Por estar envolvido com tantos projetos, muitas vezes eles nos sugam para uma espiral sem começo nem fim. Tudo que você planeja acaba se sobrepondo por outras demandas, tudo de uma vez só e ao mesmo tempo.

Começou no Aeroporto, onde caí na cilada de achar que um vôo poderia sair na hora. Tive que provar o gosto, novamente, de uma espera no chão frio do Aeroporto de Cumbica, em pleno domingo à noite. Tinha planos de chegar cedo no meu destino, em Curitiba, e escrever o texto do hotel. Óbvio que cheguei lá em plena madruga e estava exausto para pensar em qualquer coisa.

É claro que vocês devem estar pensando: "por que ele não escreveu antes?". Já respondo. Não gosto de escrever textos com muita antecedência. Para mim, perdem o frescor do que passa na minha cabeça. É um processo terrível, eu sei, mas é do jeito que me sinto melhor. Tenho que ter um pouco de pressão nas costas para produzir algo. Talvez seja um mal universal de alguns jornalistas, talvez não, mas sofro disso sem dúvida alguma.

Bom, mas toda essa lamúria não é para me justificar do injustificável. É para falar de como esse tipo de situação nos ataca diariamente no atendimento dos clientes e na rotina de uma agência de comunicação.

Normalmente, quando fazemos uma prospecção com um possível cliente sempre trabalhamos com um discurso positivo, elaborado e de superação. Não que todos prometam algo que não será cumprido. Quem tem ética não faz isso. Mas "vendemos" sim um modelo de gestão de comunicação diferenciada e de acordo com as políticas de cada agência, que em suma só tem um objetivo: entregar o melhor trabalho possível para o cliente.

Feito isso e cliente convencido de suas boas intenções e know-how , começa a fase do trabalho para valer e é aí que, como diz o ditado popular, a "porca torce o rabo". O que não se leva em consideração é o ritmo do cliente com o da agência, que normalmente, o nosso é muito, mas muito mais acelerado do que do contratante.

Nesse ínterim, começam-se formar "vácuos" entre o que você precisa cumprir e o que está sendo entregue. Some-se isso a outros compromissos, com outros clientes e, dependendo do caso, com a própria agência (quem é dono sabe o que estou dizendo) e pronto, bagunça feita. Tudo começa a se acumular e se sobrepor de forma constante e incessante.

Esse é um cenário comum nas nossas vidas, mas dependendo do estágio desse ciclo, as jornadas de trabalho começam a varar 10, 12, 16 horas diárias e tudo parece nunca ter fim. Nem com um "viagra criativo-jornalístico-estimulante" parece que tudo vai terminar.
Essa era minha situação na semana passada. Tudo beirando à loucura mesmo. Corpo estafado, cabeça cheia e agenda para cumprir. O que fazer? Aperta o botão de parada e pula desse trem!!! Claro que pulando do trem em pleno movimento a gente se machuca um pouco, mas mesmo assim é melhor.

Não dá para segurar esse ritmo muito tempo. falhou. Vendemos a imagem de super, mas somos meros mortais mesmo. Temos que ter consciência disso e passar, na medida exata, essa situação para a clientela.

Outro dia, ouvi de um cliente algo fantástico: "não existe nada urgente na vida que não possa esperar 15 minutos". Uso isso para ilustrar, mesmo que as frações de tempo possam variar conforme a situação, mas a suma da frase é que tudo pode esperar mais um pouco. A consciência disso pode salvar vidas, acredite. Estou tentando seguir essa regra (inclusive disse para o cliente que ia começa a aplicar essa regra para os pedidos dele também).

Num livro que li há algum tempo, "A Ciência dos Super-Heróis", de Lois Gresh e Robert Weinberg, que trata das possibilidades de um herói de quadrinhos poder ou não existir no nosso mundo, havia uma frase que me chamou a atenção. Logo no começo da obra, eles tentam explicar o fascínio que esse tipo de personagem representa no imaginário coletivo e eles chegam numa conclusão que, para mim, foi perfeita: o super-herói é o ser que desafia as probabilidades e as vence. É provável que um homem voe? Não, mas o herói consegue. Qual a probabilidade de um homem só vencer um exército? Praticamente zero, mas o super-herói consegue. Esse é o encanto que Homem-Aranha, Batman e, claro, o Super-Homem tem sobre nós.

Tirando toda a viagem quem um livro desse tipo tem, ao mesclar cultura pop com teorias e práticas científicas e filosóficas, podemos transportar parte dessa idéia para uma redação de assessoria de comunicação.

Temos realmente como vencer as probabilidades do tempo, por exemplo? Vamos conseguir produzir muito mais do que podemos? Conseguiremos estar em vários lugares ao mesmo tempo? Não, nada disso é possível. Afinal, somos vítimas das probabilidades.

Ser dedicado e focado é o caminho para todo profissional dar certo, mas não adianta vestir um colante azul, com uma capa vermelha e tentar sair voando pela janela para atender um cliente ou divulgar um release. Faça o que estiver dentro das possibilidades, organize-se, estude. A evolução é algo gradual para tornar-se um profissional de primeira linha.

Em suma, basta você ser apenas um super ser-humano mesmo que já é meio caminho andando. O talento, dedicação e, sem dúvida alguma, a consciência dos seus limites físicos fazem a outra parte.

Para o alto e avante!!!