O imediatismo da notícia, 18 anos depois - Por Nereu Leme/Casa da Notícia
O imediatismo da notícia, 18 anos depois - Por Nereu Leme/Casa da Notícia
Atualizado em 11/08/2005 às 18:08, por
Nereu Leme.
Por
No meu primeiro press release (que a gente nunca esquece), já como Casa da Notícia, em agosto de 1987, precisei desenhar todos os acentos e cedilhas com uma caneta. Ele foi feito numa máquina de escrever Sharp PA - 1000, importada do Japão (que eu tenho até hoje em meu minimuseu). Chamávamos de máquina de escrever eletrônica, porque estava um passo à frente da elétrica, e a meio caminho do computador pessoal.
Como veio do Japão, não tinha acentuação em português. Fiz todos os acentos e cedilhas à mão e depois tirei cópia.
Por que fazer o texto numa máquina como essa e não numa máquina de escrever convencional, como na minha Olivetti de 1910 (uma raridade), por exemplo? É que a tecnologia já começava a oferecer um diferencial para a comunicação. Era chique e moderno, e também uma forma de passar informação tecnológica para os jornalistas, numa época em que se tentaVA desmistificar o computador. Um pouco mais tarde, passei a enviar press releases diagramados no meu Macintosh Plus, usando o PageMaker 1.0, equipamento e software que introduziram o chamado DTP (Desktop Publishing) ou seja, a possibilidade de imprimir um jornal ou revista diretamente de sua mesa de trabalho. O objetivo era criar um diferencial e oferecer informação sobre uma nova tecnologia.
O press release, esse da máquina japonesa, era para o lançamento de um superminicomputador da Digirede, destinado à automação bancária. Era um equipamento do tamanho de uma geladeira, com cinco CPUs e 16 Mbytes de memória. Outro dia, ganhei um "pen drive", menor do que um isqueiro, que tem 156 Mbytes de memória de armazenamento.Isso, sem contar meu novo iPod (aquele tocador de músicas da Apple, menor do que um maço de cigarros), que tem 60 Gigabytes de memória, ou seja, 3.800 vezes mais do que o supermini de 1987. Bom! Não foi só a tecnologia que evoluiu nesses 18 anos.
O papel do press release imitava uma lauda de jornal. Cada folha tinha 20 linhas, com espaço para 72 toques em cada uma delas. Alguns criticavam essa tentativa de fazer o press release parecer matéria feita no jornal, pronta para ir para a gráfica. Hoje, isso não faria a menor diferença. O mercado, jornalistas e assessores, amadureceu.
Essa lauda era pré-impressa e, às vezes, a copiadora puxava a folha errada ou torta, e o trabalho era perdido. Logo depois, comprei meu primeiro Macintosh (de apenas 1 Megabyte de memória) e uma impressora matricial. Investi, na época, a bagatela de 3.300 dólares para superar esses pequenos problemas. Hoje, viraram peças de museu, e comercialmente não valem nada.
O mais difícil, no entanto, viria a seguir.
Envelopar o release, colocar fotos em preto e branco (colorida, nem pensar) e etiquetar o envelope. As etiquetas eram datilografadas uma a uma. Primeiro em máquinas mecânicas, e depois em máquinas elétricas.
E não parava por aí. Era preciso entregar aqueles 500 envelopes (algumas vezes mais de 1000) no Correio e esperar, pacientemente, que todos fossem autenticados (franqueados), ou selados um a um. Na maioria das vezes, a correspondência demorava uma semana para chegar a todos os Estados do País. A notícia sempre ficava velha.
O processo, complicado e demorado, tinha lá suas vantagens. Como a produção de releases era artesanal e limitada, a notícia tinha grandes chances de ser publicada.
Na década de 80, os jornalistas de publicações ainda não entendiam nem respeitavam muito o trabalho do assessor de imprensa, principalmente do terceirizado, aquele que não era funcionário da empresa representada. Assessoria interna também não era comum e a maioria era dominada por relações públicas, profissionais de marketing e secretárias dos presidentes das empresas.
Mesmo assim, cerca de 80% do material ganhava as páginas dos jornais e revistas. A gente não precisava fazer follow-up. Corria-se o risco de o carteiro jogar todos os seus releases fora (até os escândalos dos Correios eram mais prosaicos), mas jamais se ligava para o jornalista para saber se ele havia recebido a informação, e muito menos se ele iria publicá-la. O retorno era farto, desde que o material fosse de qualidade, e a notícia de interesse dos leitores desses jornais e revistas.
Também havia poucas assessorias. O grande "boom" desse serviço começou exatamente na década de 80 (final), com o início da produção de computadores brasileiros. A SEI (Secretaria Especial de Informática) criou a reserva de mercado, o que possibilitou o surgimento de empresas como a Digirede, SID Informática, Labo, Cobra, Itautec e outras. Todas elas passaram a contratar serviços de assessoria de imprensa: Casa da Notícia, ABCE, Bansen e Associados, Vervi, Mecânica de Comunicação, LVBA, entre outras, além das assessorias internas.
Quando saí da sucursal de O Globo, em São Paulo, para ir trabalhar na assessoria interna da Sharp e da SID Informática, passei a ganhar o dobro do salário de um repórter. Quando abri a Casa da Notícia (no início era nome fantasia da Formatexto), minha primeira nota fiscal, de 28 de outubro de l987, foi de Cz$ 92.388,70 (valor em cruzeiros), ou o equivalente a US $ 1.678,08 . Hoje, a empresa fatura o equivalente a US $ 65 mil, por mês. Porém, hoje a lucratividade é muito menor e as assessorias já são milhares.
Trocamos o termo assessoria de imprensa por Assessoria ou Agência de Comunicação. Hoje, os trabalhos mais importantes são os de consultoria de comunicação, gestão de relacionamento com a mídia e gestão de crise. E, como tem crise por aí.
O trabalho e a dificuldade de se manter atualizado um mailing list de jornalistas foi transferido para empresas especializadas, como a Maxpress e a Comunique-se. Essa listagem deixou de ser estratégica. A inteligência, agora, está em saber escolher o veículo certo, a pessoa certa e enviar a mensagem adequada. Em segmentar informação, em trabalhar com pautas exclusivas.
O conteúdo pode ser contextualizado e enriquecido com o auxílio da Internet. O correio eletrônico (e-mail) agiliza a entrega da notícia, e os sites e blogs dão respostas imediatas.
Hoje, uma notícia enviada às 10 horas da manhã, é publicada no site às 10h30. O complemento dessa notícia (suíte) pode ser feito às 11 horas.E, às 11h30, ele já está novamente publicado no mesmo site, substituindo e ampliando a informação anterior.
É o imediatismo da notícia.

No meu primeiro press release (que a gente nunca esquece), já como Casa da Notícia, em agosto de 1987, precisei desenhar todos os acentos e cedilhas com uma caneta. Ele foi feito numa máquina de escrever Sharp PA - 1000, importada do Japão (que eu tenho até hoje em meu minimuseu). Chamávamos de máquina de escrever eletrônica, porque estava um passo à frente da elétrica, e a meio caminho do computador pessoal.
Como veio do Japão, não tinha acentuação em português. Fiz todos os acentos e cedilhas à mão e depois tirei cópia.
Por que fazer o texto numa máquina como essa e não numa máquina de escrever convencional, como na minha Olivetti de 1910 (uma raridade), por exemplo? É que a tecnologia já começava a oferecer um diferencial para a comunicação. Era chique e moderno, e também uma forma de passar informação tecnológica para os jornalistas, numa época em que se tentaVA desmistificar o computador. Um pouco mais tarde, passei a enviar press releases diagramados no meu Macintosh Plus, usando o PageMaker 1.0, equipamento e software que introduziram o chamado DTP (Desktop Publishing) ou seja, a possibilidade de imprimir um jornal ou revista diretamente de sua mesa de trabalho. O objetivo era criar um diferencial e oferecer informação sobre uma nova tecnologia.
O press release, esse da máquina japonesa, era para o lançamento de um superminicomputador da Digirede, destinado à automação bancária. Era um equipamento do tamanho de uma geladeira, com cinco CPUs e 16 Mbytes de memória. Outro dia, ganhei um "pen drive", menor do que um isqueiro, que tem 156 Mbytes de memória de armazenamento.Isso, sem contar meu novo iPod (aquele tocador de músicas da Apple, menor do que um maço de cigarros), que tem 60 Gigabytes de memória, ou seja, 3.800 vezes mais do que o supermini de 1987. Bom! Não foi só a tecnologia que evoluiu nesses 18 anos.
O papel do press release imitava uma lauda de jornal. Cada folha tinha 20 linhas, com espaço para 72 toques em cada uma delas. Alguns criticavam essa tentativa de fazer o press release parecer matéria feita no jornal, pronta para ir para a gráfica. Hoje, isso não faria a menor diferença. O mercado, jornalistas e assessores, amadureceu.
Essa lauda era pré-impressa e, às vezes, a copiadora puxava a folha errada ou torta, e o trabalho era perdido. Logo depois, comprei meu primeiro Macintosh (de apenas 1 Megabyte de memória) e uma impressora matricial. Investi, na época, a bagatela de 3.300 dólares para superar esses pequenos problemas. Hoje, viraram peças de museu, e comercialmente não valem nada.
O mais difícil, no entanto, viria a seguir.
Envelopar o release, colocar fotos em preto e branco (colorida, nem pensar) e etiquetar o envelope. As etiquetas eram datilografadas uma a uma. Primeiro em máquinas mecânicas, e depois em máquinas elétricas.
E não parava por aí. Era preciso entregar aqueles 500 envelopes (algumas vezes mais de 1000) no Correio e esperar, pacientemente, que todos fossem autenticados (franqueados), ou selados um a um. Na maioria das vezes, a correspondência demorava uma semana para chegar a todos os Estados do País. A notícia sempre ficava velha.
O processo, complicado e demorado, tinha lá suas vantagens. Como a produção de releases era artesanal e limitada, a notícia tinha grandes chances de ser publicada.
Na década de 80, os jornalistas de publicações ainda não entendiam nem respeitavam muito o trabalho do assessor de imprensa, principalmente do terceirizado, aquele que não era funcionário da empresa representada. Assessoria interna também não era comum e a maioria era dominada por relações públicas, profissionais de marketing e secretárias dos presidentes das empresas.
Mesmo assim, cerca de 80% do material ganhava as páginas dos jornais e revistas. A gente não precisava fazer follow-up. Corria-se o risco de o carteiro jogar todos os seus releases fora (até os escândalos dos Correios eram mais prosaicos), mas jamais se ligava para o jornalista para saber se ele havia recebido a informação, e muito menos se ele iria publicá-la. O retorno era farto, desde que o material fosse de qualidade, e a notícia de interesse dos leitores desses jornais e revistas.
Também havia poucas assessorias. O grande "boom" desse serviço começou exatamente na década de 80 (final), com o início da produção de computadores brasileiros. A SEI (Secretaria Especial de Informática) criou a reserva de mercado, o que possibilitou o surgimento de empresas como a Digirede, SID Informática, Labo, Cobra, Itautec e outras. Todas elas passaram a contratar serviços de assessoria de imprensa: Casa da Notícia, ABCE, Bansen e Associados, Vervi, Mecânica de Comunicação, LVBA, entre outras, além das assessorias internas.
Quando saí da sucursal de O Globo, em São Paulo, para ir trabalhar na assessoria interna da Sharp e da SID Informática, passei a ganhar o dobro do salário de um repórter. Quando abri a Casa da Notícia (no início era nome fantasia da Formatexto), minha primeira nota fiscal, de 28 de outubro de l987, foi de Cz$ 92.388,70 (valor em cruzeiros), ou o equivalente a US $ 1.678,08 . Hoje, a empresa fatura o equivalente a US $ 65 mil, por mês. Porém, hoje a lucratividade é muito menor e as assessorias já são milhares.
Trocamos o termo assessoria de imprensa por Assessoria ou Agência de Comunicação. Hoje, os trabalhos mais importantes são os de consultoria de comunicação, gestão de relacionamento com a mídia e gestão de crise. E, como tem crise por aí.
O trabalho e a dificuldade de se manter atualizado um mailing list de jornalistas foi transferido para empresas especializadas, como a Maxpress e a Comunique-se. Essa listagem deixou de ser estratégica. A inteligência, agora, está em saber escolher o veículo certo, a pessoa certa e enviar a mensagem adequada. Em segmentar informação, em trabalhar com pautas exclusivas.
O conteúdo pode ser contextualizado e enriquecido com o auxílio da Internet. O correio eletrônico (e-mail) agiliza a entrega da notícia, e os sites e blogs dão respostas imediatas.
Hoje, uma notícia enviada às 10 horas da manhã, é publicada no site às 10h30. O complemento dessa notícia (suíte) pode ser feito às 11 horas.E, às 11h30, ele já está novamente publicado no mesmo site, substituindo e ampliando a informação anterior.
É o imediatismo da notícia.






