"O grafite tem uma mensagem irônica que é uma resposta crítica a tudo", diz André Farkas
A tela de trabalho de André Farkas, 26 anos, não é a comum usada nas artes plásticas. Normalmente, são paredes, rebocos e superfícies do espaço público, como viadutos e pontos de ônibus, que recebem sua arte colorida e provocadora em forma de grafite e pintura.
Acostumado desde pequeno com referências visuais - ele é neto do conceituado fotógrafo húngaro radicado no Brasil, Thomaz Farkas, além de ter pais e tios que atuam com cinema, design e fotografia -, André cresceu pintando o mundo influenciado desde cedo por sua árvore genealógica e pelo próprio gosto de se expressar. Formou-se em Artes Plásticas pela Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP), mas nunca sentiu-se confortável com a forma com que a arte, em seu sentido estritamente conceitual, é tratada. "Eu respeito muito, mas achava as coisas pomposas, de difícil acesso. Só quem está muito inserido neste mundo consegue absorver o que as exposições de arte contemporânea querem mostrar".
Começou a usar o próprio espaço da faculdade para tornar suas experimentações interessantes. Seus primeiros alvos foram as cadeiras e paredes, que são pintadas a cada seis meses e, neste meio tempo, os alunos aproveitam para fazer intervenções artísticas ou apoiar telas de pintura, o que acaba virando uma "sujeira". "Desenhava uns homens pelados, umas palavras em russo nas paredes e vi que isso tinha muito mais retorno do que mostrar um desenho". Além de perceber o maior impacto no público, Farkas gostou de lidar com a "questão do proibido". "Um pouco de caos caiu muito bem na FAAP, que é toda arrumadinha".
Da sala de aula partiu para as ruas, em um movimento intuitivo. Nunca foi propriamente apresentado ao grafite ou a grafiteiros renomados. Ele conta que um dia pegou latas de tinta e spray e resolveu pintar o muro de uma praça. Assim como se sentia insatisfeito com o espaço "ermo" da faculdade, onde sentia que as pessoas mais se afastavam do que se aproximavam, André identificou que a cidade também era "cinza e insossa". Decidiu, então, que o espaço público deveria oferecer um local de vivência e não apenas de passagem. "É uma conversa com a rua que estabelece um diálogo com o espaço público", afirmou, reconhecendo que outros artistas da rua o influenciaram pela reflexão que proporcionaram. "O grafite tem uma mensagem irônica que, no fundo, é uma resposta crítica a tudo".
Para "Treco", pseudônimo com que assina suas obras urbanas, o grafite é uma das poucas artes que a cidade proporciona e de forma completamente gratuita. Apesar de reconhecer valor artístico para o grafite, não o considera como arte em seu sentido rígido. "Para mim, o grafite não é arte. Arte é o que está na galeria e restringe. É um mercado e precisa movimentar dinheiro". Ele defende que a pintura nas paredes é acessível e popular por ser uma obra que você dá à cidade, sem a pretensão de um retorno. "Você só dá a sua arte e é isso. Qualquer um vai e pinta. Não precisa se inserir no mercado, ter contatos, pertencer a uma galeria. Basta querer pintar. Não quer te manipular, convencer a comprar algo...".
Apesar de ter se dado uma "permissão pessoal" para interferir nos cenários das ruas, seja embelezando-os ou provocando-os, já foi detido pela polícia e, no caso mais grave, enfrentou um processo pelo qual foi condenado a prestar serviços comunitários.
Além de "pintor de rua", como prefere se autodenominar, André produz ilustrações e vídeos de animação. Já realizou trabalhos para a revista Bravo, Folha de S.Paulo (três capas do caderno "Ilustríssima"), capa do CD da banda "Pitanga em Pé de Amora" e cenografia de Ballet. Ele também é filiado à galeria de arte Transversal e tem uma coleção de camisetas com as suas imagens.
Para saber mais: http://www.wix.com/decofarkas/site#
Para ver mais: http://www.flickr.com/photos/treco/
Para conversar: decofarkas@gmail.com
* Com supervisão de Gustavo Ferrari
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