O equívoco da "fonte única" da Gazeta do RJ

O equívoco da "fonte única" da Gazeta do RJ

Atualizado em 20/01/2009 às 08:01, por Nelson Varón Cadena.

Retomo o fio da meada em torno do preconceito dos historiadores com a Gazeta do Rio de Janeiro e seus efeitos perversos na construção de uma imagem que não corresponde à realidade, hoje disseminada no meio acadêmico, para esclarecer um equívoco que nesse contexto se multiplica. Trata-se da suposta linha editorial da Gazeta que Nelson Werneck Sodré chamou de "insípida", dentre outras apreciações injustas, conforme relatei no meu artigo da semana passada, aqui no Portal Imprensa.

Nesse ambiente de mau humor para com o nosso jornal pioneiro, o autor da "História da Imprensa no Brasil" exagerou ao definir o conteúdo da Gazeta do Rio como "material de texto extraído da Gazeta de Lisboa". Uma informação equivocada que se multiplicou em obras de outros autores não menos destacados e influentes Todos eles insistindo nessa tese da fonte única, a corroborar a má qualidade do jornal. Qualificam-na com expressões como "emulo da Gazeta de Lisboa", "copia fiel da Gazeta de Lisboa", "extrato da Gazeta de Lisboa"... Nada mais longe da verdade.

Diversas fontes
O certo é que o jornal lisbonense não era a fonte única da Gazeta do Rio de Janeiro, sequer a fonte preferencial. The Courrier, um periódico inglês, tinha essa prerrogativa, o jornal o mais citado como referência. Naquele tempo todos os jornais do mundo se abasteciam das malas diplomáticas que circulavam nos portos amigos, contendo cartas e periódicos de diversos países. Essas eram as fontes, na falta de correspondentes, e no caso específico da guerra Européia apenas Napoleão tinha os seus redatores, no campo de batalha, para repercutir os seus feitos. A Gazeta do Rio de Janeiro, por exemplo, em mais de uma ocasião, reportou-se ao Le Moniteur e outros periódicos sob influência do Cônsul/ Imperador, claro, duvidando de algumas das noticias arroladas, ou criticando-as por motivos óbvios.

Mas, o fato é que a Gazeta do Rio de Janeiro se servia regularmente das informações de trinta jornais em média, número considerável que referenda a sua diversidade e não apenas da Gazeta de Lisboa, conforme afiançado pelos historiadores. Títulos como: Diário de Lerida, Gazeta de Madrid, Correio da Tarde, The courrier, Royal Amsterdam Courant, Diário de Lisboa, Morning Post, London Chronicle, New York Gazette, General Advertiser, Diário de Santiago, Correo Político e literário de Sevilla, Daily Advertise, Gazette of Filadelfia, Le Moniteur, Gazette de France, Journal de L' Empire, Diário Lisbonense, Gazete de Leiden, Times, Diário Mercantil de Cadiz, Journal du Commercie... Servia-se também de jornais holandeses, alemães e russos aos quais se referia de forma genérica e ainda jornais da América do Sul: Colômbia,Venezuela e Argentina em particular. Fontes recorrentes da Gazeta, ainda, eram as cartas oriundas de Porto Rico, Jamaica, Aústria, Itália e mesmo do Egito.

Correspondência como fonte
A propósito de correspondências, fonte usual e naquele tempo de estimável valia, os historiadores mais uma vez avaliam com preconceito o seu uso, nesse caso específico da Gazeta. Referem-se com escárnio, ironia, ou mesmo palavras que não disfarçam a sua má vontade com o periódico, ao fato de Dom João VI ler as cartas antes de serem publicadas. Apreciações que corroboram para sustentar a imagem de um jornal supostamente "áulico".

Ocorre que não há nenhum pecado nisso, já que Dom João e a corte eram os destinatários dessas cartas, a eles enviadas através das representações diplomáticas, em especial de Londres. O jornal não era destinatário de correspondência nenhuma. Publicava as missivas por conter informações novas e de interesse do leitor. Hipólito da Costa que do outro lado do mundo também se abastecia de correspondência dirigida originalmente às autoridades para embasar os seus artigos de opinião, não foi criticado por isso. Ou seja, dois pesos e duas medidas. O resultado dessa avaliação é a história engajada que em nada contribui para a verdade.

Se os historiadores erraram nas suas referências a nosso jornal pioneiro, justamente por não terem pesquisado as edições da Gazeta, o meio acadêmico pode, hoje, corrigir essas distorções. Afinal, a Biblioteca Nacional já disponibiliza centenas de edições do jornal na internet. É só ler e conferir, distante do preconceito disseminado por quem avaliou e julgou sem conhecer.