"O Dia" faz apuração de 3 anos para denunciar falhas em investigações de abuso sexual

Após três anos de apuração, a repórter Juliana Dal Piva, do jornal carioca O Dia, iniciou no último domingo (22/2) uma série de re

Atualizado em 25/02/2015 às 16:02, por Alana Rodrigues*.

Após três anos de apuração, a repórter Juliana Dal Piva, do jornal carioca O Dia , iniciou no último domingo (22/2) uma que desvenda casos de falhas em investigações envolvendo crimes de abuso sexual. Um deles é do diretor financeiro da Creche Gente Inocente, Paulo Barcellos, condenado a nove anos de prisão em decisão baseada apenas em laudos psicológicos.
Crédito:Reprodução Jornal apostou em três anos de apuração antes de divulgar o caso
As reportagens revelam os problemas na produção de pareceres por psicólogos da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (Dcav). Após denúncias de falhas técnicas e éticas, o Conselho Regional de Psicologia (CRP) puniu os peritos Artur de Oliveira e Emerson Brant. Outras pessoas também foram vítimas das falhas de investigação. Na maior parte dos casos, denúncias falsas geraram a separação de pais e filhos por vários anos.
Barcellos foi condenado em 2010 por abuso contra cinco crianças. Hoje, aos 56 anos, carrega o trauma dos quatro em que ficou na prisão. Apenas sai de casa quando necessário e fica sempre alerta ao sensor da tornozeleira eletrônica. Ele ainda tem de cumprir quatro anos no regime aberto. À época da sentença, os exames de corpo de delito realizados nas supostas vítimas deram negativo, mas os laudos dos psicólogos policiais da Dcav apontaram o abuso. Eles foram a única prova contra o diretor e o inquérito foi finalizado sem que o delegado visitasse a escola.
Por trás da reportagem
A jornalista conta que, em março de 2012, em meio a outro caso no judiciário, conheceu pessoas próximas a Barcellos que contaram a situação dele. Desde então, passou a acompanhar o caso. Também teve acesso a um dossiê com mais de 100 páginas de documentos com, ao menos, três casos problemáticos de abuso sexual, momento em que percebeu os questionamentos sobre os laudos psicológicos.
"Eu não sabia que apenas um laudo psicológico podia causar uma condenação. Passei a me dedicar a estudar aqueles documentos e também fui entrando em contato com outras fontes no judiciário para conseguir acesso aos processos originais e a todo o conteúdo envolvendo cada um deles", relata.
Juliana explica que a matéria não pôde ser publicada no mesmo ano, pois faltava o julgamento dos casos no CRP. O órgão apenas terminou de julgar o principal perito acusado no fim de 2014. Nesse período, a repórter ouviu os envolvidos no processo. Após a conclusão do Conselho, ela, Barcellos, e advogados dele decidiram que era o momento para contar a história.
"No jornal a direção deu todo o apoio para o material ser produzido também a essa época, em dezembro. Dali em diante, fiquei deslocada para produzir a série que chamamos de ‘Crimes invisíveis’, destaca. Segundo Juliana, foram quase 30 entrevistas apenas entre janeiro e fevereiro deste ano.
A reportagem também detalha os dias do diretor da creche na prisão. Acusado pelo artigo 217-A do Código Penal — que prevê a pena para quem cometeu estupro de vulnerável —, ele foi duramente torturado. Após transferência para a carceragem da Polinter de Neves, Barcellos foi agredido com chutes e socos em todas as partes do corpo. No dia seguinte, o exame de corpo de delito indicou duas costelas quebradas, hematomas nas costas, além de problemas no rins. “Urinei sangue quase um mês”, relatou ele ao jornal.
Para a jornalista, a história se configura em tudo o que sistema judiciário e penal mantém da ditadura. "Fiquei muito tocada com a dor dessas famílias. Eu faço cobertura de vítimas da ditadura militar e já tinha ouvido relato de torturas antes, mas esse caso foi diferente", afirma.
Nova Escola Base: Imprensa x Judiciário
O famoso caso Escola Base, que completou 20 anos em 2014, consistiu na divulgação de denúncias de abuso sexual de crianças da Escola de Educação Infantil Base, no bairro da Aclimação, em São Paulo (SP), e ficou conhecido como um dos mais marcantes erros da imprensa, que a partir de acusações precipitadas, causou a depredação e posterior fechamento da instituição.
Icushiro Shimada, antigo proprietário da Escola, sua esposa, Maria Aparecida Shimada, que faleceu de câncer em 2007, e mais seis pessoas ligadas à instituição foram acusadas de abusar sexualmente de crianças no horário de aulas, após a denúncia de duas mães. O delegado responsável pelo caso, Edelcio Lemos, determinou a prisão de todos antes das investigações chegarem ao fim.
Apesar da semelhança dos casos quanto às acusações, a jornalista vê a situação de Barcellos com mais gravidade. "O judiciário teve um papel decisivo. E fica um problema terrível para ele que é o estigma. Com o CRP reprovando o trabalho dos peritos nos laudos, o processo fica sem provas além dos depoimentos que o acusaram. Não há nenhuma testemunha visual e não teve flagrante. Então fica essa acusação no ar", diz.
"Não tem nada mais que prove que Paulo abusou as crianças, mas ele também não possui uma prova física irrefutável da inocência dele. No nosso sistema judiciário, o ônus é da acusação de provar o crime e há a presunção da inocência. Ainda precisaremos aguardar a revisão criminal para ver o que o judiciário vai dizer", acrescenta.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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