O desafio dos telespectadores nos Jogos Olímpicos

O desafio dos telespectadores nos Jogos Olímpicos

Atualizado em 15/08/2008 às 18:08, por Thaís Naldoni.

Assistir aos Jogos Olímpicos de Pequim é um desafio superado só pelos brasileiros mais apaixonados pelo esporte. O maior entrave, é claro, está no relógio. A diferença de fuso horário faz com que a China esteja 11 horas à frente do Brasil. E fica complicado abrir mão de preciosas horas de sono, quando se tem trabalho normal no dia seguinte.

Passada essa primeira barreira - a do sono - o telespectador fanático pelo esporte esbarra em outra, tão ou mais complicada: a "inspiração" dos narradores e comentaristas responsáveis pela transmissão das provas. Quem já conta com TV Digital em casa, tem a "santa" opção de deixar as imagens sem narração, apenas com o som ambiente do local da competição, mas quem não possui tal aparato tecnológico, ou ri muito, ou sofre um bocado.

Todas as emissoras que possuem os direitos para a transmissão fizeram o esforço de contratar especialistas para comentar as provas. Aparecem, então, uma chuva de ex-atletas, de microfone aberto, falando sobre as regras do esporte, o desempenho dos times e, é claro, soltando uma gama de palavras mal colocadas, concordâncias erradas e adendos totalmente dispensáveis. Além disso, estão a postos os tradicionais narradores, sempre experts em todos os temas, desferindo opiniões - muitas vezes equivocadas - e comentários não menos dispensáveis que os dos colegas de transmissão.

Na prova dos 100 metros nado livre, em que César Cielo alcançou um surpreendente terceiro lugar, por exemplo, um narrador empolgado creditou o feito do nadador à sorte. "Ele teve uma dose de sorte. E a sorte só acompanha aos que trabalham duro e se dedicam". Não sabia dessa da sorte, vocês sabiam? A grandeza das frases teve o complemento de um comentarista não menos empolgado. "Toda a comunidade da natação está emocionada. Mas pelas 'caractísticas' de Cielo, já podíamos esperar um bom resultado". Sim, a palavra seria características, mas pareceu um "trava-língua" na ocasião.

Gosto, particularmente, das apresentações de ginástica artística. Uma das comentaristas que assisti me fez achar que os juízes estavam "perseguindo" o time brasileiro. Se todas as ginastas - tirando as que levavam tombos - conseguiam "cravar" o exercício e fazer uma "série de execução perfeita", por que as estrangeiras tiravam notas de 15 para cima e as brasileiras sempre de 14,5 para baixo? E olha que eu prestava a maior atenção na "nota de partida" para saber a "dificuldade do salto". Cansei de ouvir também o termo "esse exercício é muito difícil". Para mim, particularmente, todos são.

Isso sem contar o vôlei masculino que, contra a Rússia, quando fechou e ganhou o primeiro set, era uma seleção que havia "encontrado novamente a alegria de jogar" e que, embora estivesse sem Ricardinho, "mantinha seu diferencial de jogadas rápidas e diversificadas". Bastou a seleção perder o set seguinte para que Ricardinho estivesse fazendo toda a falta do mundo, já que a seleção "tinha perdido seu grande diferencial", e, é claro, passar de um time "aguerrido" para outro "sem alegria de jogar". Vai entender?

Tomei a liberdade de não nomear os colegas, porque entendo a dificuldade por que passam os profissionais que cobrem os grandes eventos esportivos. Nas Olimpíadas de Atenas, tive a oportunidade de participar da cobertura dos Jogos pelo Sportv, no Rio de Janeiro (RJ). Hoje, tenho a exata noção do quão trabalham os narradores e comentaristas para levar ao telespectador mais informações e dar, por assim dizer, mais emoção às provas. Todos têm o dever de mostrar toda a disposição, ainda que estejam passando por noites de sono picado, muitas horas de trabalho seguidas e uma rouquidão quase que inevitável no fim do dia. Eles, claro, merecem nosso reconhecimento.

No entanto, isso não diminui os desafios pelos quais nós, telespectadores e torcedores, temos que superar para prestigiar a participação brasileira nos Jogos de Pequim. Além de bastante café para segurar o sono, sugiro boas doses de paciência ou bastante bom humor. Afinal, se o judô não consegue as medalhas esperadas e a natação não chega às finais na maior parte das provas, temos narradores e comentaristas campeões em insanidades e gafes que, no final das contas, valem medalha de ouro.

PS : Vale um registro do torcedor corinthiano onipresente, que aparece em todas as transmissões, não importa de que esporte estejamos falando, nem por qual emissora se assista! Reparem!