O casamento da mãe com a jornalista

O casamento da mãe com a jornalista

Atualizado em 06/05/2009 às 17:05, por Thaís Naldoni.

Passei alguns dias pensando em um tema para mais essa coluna. Minha cabeça permeou o fim da Lei de Imprensa no Brasil, a demora pela votação do diploma, a gripe suína... mas nada me deu tanta vontade de escrever do que um tema banal à primeira vista, mas rico se olhadas as experiências de quem tem de conciliar duas "profissões" que exigem paixão e dedicação: o Jornalismo e a maternidade.

Para ilustrar essa afirmação, vou falar sobre uma profissional que construiu sua história como mãe antes de galgá-la como jornalista. Mas as duas paixões de sua vida - a filha e a reportagem - hora ou outra viriam a se encontrar... e o coração de mãe numa mulher com alma de repórter também se aperta em busca de soluções.

Aos 15 anos, a gaúcha de quem vos falo teve uma filha. Muito jovem, ela sabia que tudo seria diferente em sua vida. Aos 22 anos - sua filha tinha sete - a repórter deixa o interior do Rio de Grande do Sul rumo a Porto Alegre onde assumiria seu emprego como repórter da editoria "Geral" da Zero Hora .

Por vezes, a jornalista era enviada para cobrir enchentes em cidades que ficavam a duas, três horas de Porto Alegre. Ela vivia sozinha na capital com a filha e, quase sempre, não sabia se conseguiria retornar a tempo de buscar a menina no colégio. "Minha família morava no interior e eu não tinha ninguém além de amigos para me socorrer nesses apertos. Lembro de algumas cenas dessas, como eu pendurada num orelhão - naquele tempo não tinha celular - com água até quase a cintura, no meio do dilúvio, tentando achar alguma amiga que buscasse a minha filha no colégio porque eu não sabia que horas conseguiria chegar em casa. Eu era mãe, era sozinha e ganhava pouco. Tinha de ser repórter, mãe, cozinheira, aquele discurso todo. Meu tempo tinha de servir para muita coisa", lembrou.

A jornada mãe-jornalista acabava sacrificando também sua filha, mas todo o esforço era feito por ela. "Minha filha e eu acordávamos às 5h todo dia para dar tempo de deixá-la na escola e estar na redação às 8h em ponto. Eu pegava dois ônibus e mais 15 minutos de caminhada para chegar ao colégio. A gente chegava muito cedo, então, não raro, a escola ainda estava fechada. Levantava minha filha por cima do muro e a colocava lá dentro. Aí pegava mais três ônibus para chegar ao jornal enquanto ela ficava lá na escola, esperando o porteiro chegar. Ou seja: às 8h da manhã, antes de pegar as três pautas diárias, já tinha pego cinco ônibus".

A repórter salienta que, embora tenha havido tanto esforço, não vê nada diferente da vida cotidiana de qualquer trabalhadora. "Isso acontece todos os dias na vida de mulheres, chefes de família, como há milhões no Brasil".

Todo o perrengue passado no início da carreira e suas vivências pessoais no decorrer dos anos foram fundamentais para sua formação como jornalista, mulher e mãe. "Hoje, a vida é mais fácil e eu fui aprendendo a abrir espaço. Trabalho muito, mas faço muitas outras coisas. E essas várias coisas que eu faço são determinantes para a qualidade do meu trabalho". Quanto ao casamento das duas profissões que escolheu na vida, a personagem dessa história diz: "ser repórter e mãe é o que eu sou de mais profundo".

Divulgação
Eliane Brum
Esse início de carreira que ilustra bem os dilemas e dificuldades das mães-jornalistas pertence à Eliane Brum, repórter especial da revista Época desde 2000, depois de ter passado onze anos como repórter da Zero Hora . Já ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de Jornalismo e tem dois livros publicados. Sua filha, Maíra, hoje tem 27 anos, e é psicóloga.

Muitas mulheres - jornalistas ou não - passam por dilemas intermináveis na criação dos filhos. Como profissional que passa longas horas diárias dedicadas ao trabalho, me coloco diversos questionamentos quando penso no meu filho que um dia há de vir. E, histórias como as de Eliane Brum são as que me motivam a continuar sonhando com o dia em que conviverão em mim a mãe e a jornalista... à ela, Eliane, minha mais profunda admiração.

No mais, aproveito o espaço para felicitar todas as mães, em especial, a minha!

Feliz Dia das Mães!!!