O caçador de prêmios - por Heródoto Barbeiro

O caçador de prêmios - por Heródoto Barbeiro

Atualizado em 30/11/2004 às 10:11, por Redação Portal Imprensa.

Heródoto Barbeiro

Havia um certo cabotinismo entre os repórteres de todas as tevês de Taiaçupeba, inclusive da TV Caramelo, a empresa mais jovem do grupo que tinha nascido junto com a primeira emissora de rádio do distrito. Todos juravam, alto e bom som, que não faziam reportagens para ganhar prêmio. Isso era antiético e estava listado nos manuais de telejornalismo. "O prêmio tem que ser conseqüência de uma matéria importante, que tenha repercussão social, interesse público e comprometimento com a cidadania ", dizia o experiente repórter Ângelo Morais. Na prática, o que realmente interessava era o desejo de abiscoitar os prêmios oferecidos por empresas, governo ou entidades públicas. As quantias em dinheiro, viagens, fins de semana em resorts em Bertioga, lap tops, palm tops, pastas de couro, canetas Mont Blanc, gravadores de CDs, DVDs, enfim uma galeria que satisfazia o sonho de consumo de qualquer um, especialmente os que viviam com o piso salarial negociado entre as emissoras de tevê e o Sindicato dos Jornalistas de Taiaçupeba e região.

Morais não perdia uma chance. Em todo prêmio tinha sempre uma matéria inscrita e viva sob tensão e hipertensão enquanto o resultado não saía. Para ele, um jovem recém-chegado de Vargem Grande, um prêmio teria um efeito muito maior. Seria sua consagração como repórter, abriria as portas para passar para uma tevê concorrente, ou mesmo negociar um salário um pouco melhor para que pudesse, pelo menos, alugar um apartamentinho no centro de Taiçupeba e não ter mais que enfrentar o muquifo em que vivia com outros jovens vindos do interior. Quando não tinha uma matéria para inscrever, editava um pedaço do telejornal e se postava ansioso à espera do resultado.
As notícias não eram boas. Nada de prêmio. Começava um, terminava outro, e nada. Ângelo passou a desconfiar que estava sofrendo uma perseguição pessoal por parte de algum jurado. Sua matéria inscrita no "Prêmio Osso de Telejornalismo", nem mesmo tinha sido classificada entre as finalistas. Era um absurdo, uma perseguição porque ele era jovem, bonito, inteligente, cult. Pura inveja. Mas quem era o seu algoz? Ângelo resolveu fazer um levantamento nome por nome de jurado, comparar em que decisões tinham participado e como tinham julgado suas matérias. O suspeito principal era Ivo Ordoñes, um jornalista bonachão e madurão. Ultrapassado e invejoso, dizia Morais. Sabia que vivia em uma nova época, a era do capitalismo informacional, como tinha lido na orelha do livro do sociólogo Manuel Castels. Só tinha lido a orelha; afinal ler um tijolaço de sociologia não dava prêmio. Bastava um conhecimento geral para evitar mancadas como aquela reportagem sobre a viagem do presidente Lula à Síria. Ângelo se confundira quando o presidente assinou um contrato para a construção de uma usina de açúcar no Oriente Médio. E escreveu que o Brasil iria exportar cana de açúcar para a Síria. Por causa disso, o despeitado do Ivo tinha desclassificado mais uma de suas tentativas de abiscoitar fama e dinheiro. Perdeu o Prêmio de Jornalismo Econômico, oferecido pela Câmara Municipal local. Era pura perseguição do Ordoñes. Até que, em outubro, foram abertas as inscrições para o Grande Prêmio de Telejornalismo Pauta de Ouro, o que oferecia a maior quantia de todos os prêmios. Ângelo inscreveu uma reportagem especialmente feita para o concurso. Foi classificado entre as cinco melhores. Compareceu para a entrega em noite de gala do Teatro Beta Rural, o mais chique de Taiaçupeba. O mestre de cerimônia, Chico Mineiro, em seu smoking de golas engomadas, ia anunciando um a um os ganhadores. Subia o homenageado e o convidado para entregar o prêmio. O coração de Ângelo quase saiu pela boca quando foi chamado como vencedor do Grande Prêmio Pauta de Ouro - categoria reportagem, e desmaiou quando Chico chamou Ivo Ordoñes para lhe entregar o prêmio.