O Brasil de Lucas Celebridade
O Brasil de Lucas Celebridade
O personagem se chama Lucas Brito. A persona, por sua vez, atende por Lucas Celebridade. Lucas Brito é um pobre rapaz de Luzilândia, pobre cidade do pobre estado do Piauí. Vivem em Luzilândia, além de Lucas, 24.322 habitantes. O PIB per capta é de R$ 2.346, o que alinha a cidade a países como Bósnia Herzegovina, Namíbia e Suazilândia. De acordo com o IBGE, além de Lucas, 53,37% da população está sob incidência de pobreza, o que significa incapacidade de subsistência básica e de acesso pleno a alimentação, saúde e vestuário. O núcleo da cidade é composto pela igreja matriz, pelas atividades oferecidas pelas comunidades evangélicas, por parcos espaços de diversão e pela agenda municipal, cuja prefeitura é a maior indutora de eventos proporcionais à capacidade econômica de Luzilândia. Esse é o cenário em que sobrevive Lucas Brito, também estudante de uma precária universidade estadual, onde freqüenta o curso de Letras. Lucas Celebridade, por sua vez, está acima dessa difícil realidade da caatinga. A persona se manifesta em seu blog e na sua rede de relacionamentos no Orkut e no Twitter.
Repetidas vezes, Lucas Celebridade vem sendo ridicularizado porque se presta ao papel de perseguir a fama a qualquer preço. Seu sonho é participar de algum reality show e sua maior ambição é ser conhecido e reconhecido, de fato, como uma celebridade, por enquanto apenas seu "sobrenome" no mundo virtual. Lucas Celebridade, ao contrário do que parece, não é um fenômeno, mas um sintoma. Basicamente, sintoma de um Brasil cada vez mais conectado, de novos usos e finalidades dadas às ferramentas digitais e da insistente hegemonia da grande mídia e da cultura de massas sobre o mundo potencialmente criativo e não-explorado da internet.
A promessa de liberdade de expressão e de autosuficiencia que a rede nos promete, em particular após o advento das ferramentas 2.0, é, no mais das vezes, apenas uma promessa, porque sua realização dependeria de uma ruptura real dos modelos impostos pela mídia tradicional. Lucas Celebridade é, senão o mais emblemático, um dos mais interessantes signos dessa dupla canibalização entre seu desejo - ser famoso segundo os moldes da mídia convencional - e o uso das novas tecnologias para alcançar tal objetivo, ainda não realizado. O abismo que separa a web 2.0 da mídia tradicional é o mesmo que separa a utopia da realidade: a ideologia. Enquanto a primeira tem como princípio a liberdade, a segunda se fundamenta na dependência. Aí mora a grande contradição de Lucas Celebridade: ele não é um fenômeno da web em toda sua plenitude, porque na web ele reproduz uma estrutura cujo horizonte é aquele da mídia convencional, especialmente a TV. Equilibrando-se nessa contradição, o maior feito de Lucas Celebridade foi ser convidado a participar do programa da Márcia Goldschmidt, na Band onde não percebeu que seu papel foi o de, novamente, ser ridicularizado, então em rede nacional. (Ofereci à revista Piauí um perfil de Lucas Celebridade. Eles recusaram, com o nobre argumento de que seria impossível retratar o personagem de maneira que não o ridicularizasse. Passei a gostar ainda mais da publicação).
Em seu blog, ele se define como "profissional da comunicação há sete anos, o furacão revelado em Luzilândia (...) Lucas Celebridade trabalha como radialista, cerimonialista, cantor, ator, enfim, contrate ele para apresentar seu evento". Relevante anotar que entre tantas atribuições, a de blogueiro é ignorada. E é no blog onde se manifesta sua face mais interessante: a de repórter do cotidiano, cronista da pequena cidade e adulador das figuras do poder político e econômico da cidade. Note-se que não há diferenças fundamentais entre o trabalho dele e de qualquer jornalista que ocupe a função de "colunista social" de jornais de relevância, inclusive os jornalões. A diferença é que os profissionais o fazem por salários de quatro dígitos. Ele, porque o blog vai lhe dar a tão sonhada notoriedade que, quando frustrada, merece uma simulação, como a do dia em que montou um assédio de supostas fãs em um salão de cabeleireiro ou forjou flagrantes de seu passeio na avenida que, segundo seu blog, é o Leblon de Luzilândia.
Além desse interessante jogo entre real e imaginário, entre mídia on e offline e entre a vida que temos e a que desejamos, há, evidentemente, a face patética de Lucas Celebridade. Lucas Brito é a evidência de que a internet pode muito, mas esbarra nos modelos totalizantes. E que, para grande parte dos seus novos usuários, algo está fora de lugar. Personagem e persona, na pobre Luizilândia da pobre Piauí deste pobre Brasil, nos mostram que há muito a pensar sobre a complexidade do mundo digital. Há lugares sem pão, mas com R$ 1,50 disponíveis para uma hora de acesso à web numa lan house.
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