No dia do centenário de Jorge Amado, IMPRENSA reverencia o "escritor do povo"

Jorge Amado não se considerava um literato, preferia ser chamado de escritor do povo ou um obá, que na língua iorubá da Bahia significa mini

Atualizado em 10/08/2012 às 12:08, por Kátia Zanvettor*.

Por

stro velho, sábio, como afirma em seu livro “Navegação de Cabotagem”. No ano em que completaria 100 anos, Jorge segue conquistando público, leitores, estudiosos e críticos, ainda que aos 80 anos preferisse não se enganar com a fama e escrevia em seus apontamentos de memórias. “Não nasci para famoso, nem para ilustre, não me meço com tais medidas... onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua, vivendo.”


Essa radicalidade em entender a vida como uma navegação, breve navegação, o fez mais próximo para quem escrevia e, talvez, explique a popularidade de sua obra. Gildeci de Oliveira Leite, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), pesquisador da obra do escritor, atribui o seu sucesso, principalmente, ao fato de ele entender como é transformar o local em universal.




“Escreveu sobre o seu povo, sobre o que tinha propriedade. O povo se vê e se identifica nos textos do obá de Xangô. A obra dele versa incialmente pelas temáticas da luta de classes, apoiada no paradigma do Partido Comunista como única solução para resolver os problemas. Porém, mais tarde, mesmo longe do partido continua libertário e escreve sobre a cultura negra, especialmente sobre os arquétipos do candomblé: orixás e ancestralidade”, analisou.


Myriam Fraga, presidente da Casa de Jorge Amado, poeta e amiga pessoal de Jorge Amado, conta que ele foi um escritor que conseguiu traduzir para o mundo a complexidade do universo que existe na Bahia, da região do cacau, e toda a saga dessa região. “Jorge tinha sensibilidade para as questões que permeavam a realidade do povo, mostrou para o mundo a importância da cultura africana para a construção dos costumes brasileiros e foi além, defendeu politicamente a descriminalização do candomblé, valorizou a cultura dos orixás”, lembrou.


JORNALISMO NA VEIA


A sensibilidade para o cotidiano da Bahia, a amiga atribui um pouco a sua vivência como jornalista. “Jorge começou como foca aos 14 anos na editoria policial. Isso facultou muito a ele conhecer certos lugares da cidade improváveis a um garoto de sua idade.”


O pesquisador Gildeci de Oliveira Leite concorda que a veia jornalística teve uma influência importante para o rumo da obra de Jorge, mas que ele não se limitou a contar histórias. “Todo mundo sabe que ele começou como repórter policial. Acredito que as veias investigativas do literato e do repórter se uniram. Memória é algo inerente às duas profissões, mas a ficcionalização da memória compete ao literato”, disse Leite.




Ainda que tenha extrapolado o jornalismo, Jorge não era indiferente a ele. A jornalista Joselia Aguiar, mestre e doutoranda em história, prepara a biografia de Jorge Amado que sai no segundo semestre pela editora Três Estrelas, do grupo Folha. Ela conta que o escritor colaborou durante muito tempo para diferentes jornais e revistas e só se afastou depois de estar muito consagrado, depois do sucesso de “Gabriela” e “Dona Flor”. Segundo a jornalista, Jorge Amado começou no Diário da Bahia, um jornal extinto, que era do grupo dos Diários Associados.


“O jornalismo era um modo de complementar a renda, isso na época em que ele ainda estava começando como romancista. E mesmo tendo sucesso desde o começo, havia fases ruins, como a de perseguição política, nas quais teve livros censurados e boicotados. Ele dirigiu por um tempo, no fim dos anos 1930, o Dom Casmurro, o principal jornal literário do país, e teve coluna na Folha da Manhã em 1945, época que morou em São Paulo e se candidatou a deputado pelo Partido Comunista Brasileiro. Depois que voltou do exílio, no começo dos anos 1950, ele fez a Paratodos com Oscar Niemeyer e outras personalidades”, contou.


A experiência que teve nos jornais serviu também como matéria-prima para sua ficção, às vezes de modo escancarado, como é o caso de “Capitães da Areia”, um de seus maiores sucessos. O livro começa com a cobertura que os jornais fazem dos meninos que perambulam pelas ruas.


Jornalista, literato, escritor ou apenas obá. Não importa o título, Jorge Amado tinha a sensibilidade de um observador do mundo e conseguiu falar do povo e para o povo. O que ele mais prezava era essa possibilidade de contar e falar o que pensava, como afirma em “Navegação de Cabotagem”. “Pensar pela própria cabeça custa caro... Quem se decidir a fazê-lo será alvo do patrulhamento feroz das ideologias. Ainda assim vale a pena, seja qual for o pagamento, será barato: a liberdade de pensar pela própria cabeça não tem preço que pague.” A melhor homenagem, talvez, seja reler sua obra.


*Colaborou Jéssica Oliveira.


**Matéria publicada edição 280 de IMPRENSA