Nicotina: 0,8 mg. Controle: 1 ton.
Nicotina: 0,8 mg. Controle: 1 ton.
Minha primeira lição jornalística ensinava que um profissional de verdade deveria tomar café durante o dia todo, beber regularmente e fumar. Percebi, portanto, que o ofício não era muito difícil e, rapidamente, incorporei pelo menos dois dos hábitos - café e tabaco - ao meu dia-a-dia. Até que freqüentasse uma, as redações de meu imaginário eram povoadas por seres soturnos, meio bêbados, escondidos sob uma densa fumaça branca de cigarro. Felizmente, hoje os fumantes somos poucos e de todos os meus amigos jornalistas - também poucos, diga-se - uns dois ou três, apenas, fumam. Aqui na redação, sou praticamente um solitário, exceto pelas recaídas de um repórter e pela rara presença de Pya, nossa talentosa fotógrafa freelancer, que também pita um cigarrinho. Nunca pensei seriamente em utilizar a profissão para justificar o vício. Seja, por um lado, porque nunca precisei; ou então porque soaria ridículo, já que fumantes são cada vez mais raros na profissão.
Comecei a fumar tardiamente. Já tinha 20 e poucos anos, e, empurrado por uma bela campanha publicitária do Free One - quando a patrulha dos bons costumes ainda não tinha atingido o intervalo comercial -, comprei meu primeiro maço de cigarros. Lembro-me bem do impacto psicológico que o ritual provocara em mim. Abrir o maço, retirar dele meu primeiro cigarro, acender com o também recém-adquirido isqueiro Bic verde e, neófito e desajeitado, fumá-lo: tudo isso me fez pertencer a um universo amplo de possibilidades onde todos transitam, mas em que as escolhas são absolutamente individuais. Na época, escrevi, segundo os críticos, o melhor poema de minha carreira como escritor, até hoje inédito: "Minha vida é hard / meu cigarro é light / e custa apenas R$ 1,60 o maço com 20". Para a boa reputação da literatura contemporânea, foi meu primeiro poema. E único.
Doze anos e mais de 130% de inflação depois, o mundo todo caminha a se transformar numa imensa redação, para alegria dos politicamente corretos. A lei aprovada pela Assembléia Legislativa paulista - sobre quem, confesso, não ouço falar nada há séculos - e em breve sancionada pelo governador José Serra, trouxe à tona o pequeno martírio dos fumantes, agora confinados junto de seu mau hábito apenas a espaços muito, muito privados. Em geral, o debate em torno da lei está restrito apenas aos aspectos "sim/não" ou "fumantes/não-fumantes", ou então "benefícios/malefícios" etc. O que está em jogo, na verdade, não é se poderemos fumar nosso cigarrinho em paz, mas a presença forte do Estado como regulador das ações e das escolhas individuais. E, ao contrário das aparências - revestidas de uma legítima preocupação com a saúde, não dos cidadãos, mas do financiamento do sistema hospitalar - a decisão dos deputados, sob iniciativa do Executivo, revela um caráter moralizante muito assustador, porque parte do pressuposto de que sempre o Estado sabe o que é bom para nós (uma inverdade) e acirra a cisão social entre mais duas grandes categorias: a dos que fumam, e dos que não fumam. Além, claro, de esboçar um mapa muito perverso das fronteiras entre espaço público e espaço privado.
Vamos supor que, por consenso, decidamos aqui na IMPRENSA que é permitido fumar no interior da redação, um espaço privado. Segundo consta, caso um contínuo qualquer viesse entregar uma encomenda e se sentisse incomodado, poderia denunciar a prática ilegal aos departamentos competentes e a empresa seria multada. Ao pensar nessa hipótese, morro de medo dos desocupados, porque serão eles os primeiros a compor um exército dos bons costumes e da legalidade, a espreita de qualquer criminoso que ouse acender seu cigarro. Eles serão os "Fiscais do Serra", à moda das senhoras que acompanhavam o ágio dos preços nos supermercados na fatídica Era Sarney. Quando juntamos uma lei a outra, surge, então, um cenário ainda mais tenebroso. Segundo o Código de Processo Penal, "qualquer do povo poderá [...] prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito". Difícil será convencer um "qualquer do povo" que o ato de fumar embaixo do meu próprio guarda-chuva não é crime. Então, quem sabe, serei preso em flagrante e, na cadeia, claro, também não poderei fumar meu cigarrinho em paz - é um ambiente fechado. Aliás, bem fechado.
Mas não é preciso cadeia para impor o terror. Como bem lembrou Gilles Deleuze, os espaços de confinamento são os últimos resquícios das sociedades disciplinares, tais quais Foucault as havia descrito, e estamos hoje sob um novo regime de autoridade: a "sociedade de controle", quando, aparentemente livres, vivemos sob constante vigilância. Não bastassem as câmeras de segurança, os registros de entrada e saída nos prédios, os números de documentos, as declarações financeiras, os extratos bancários etc, ainda enfrentaremos os chatos de plantão, investidos pelo Estado de uma autoridade moral simplesmente porque não fumam. O fim dos fumódromos, belo signo do enclausuramento das sociedades disciplinares, representa, sobretudo, a estratégia mais eficiente de desmobilização ideológica e política dos fumantes, até mesmo porque "dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado", já alertava Raul.
Uma lei megalomaníaca como essa, sabemos, está fadada ao fracasso. Mesmo nos países em que há restrições similares, existem sempre "linhas de fuga" ou "atos de resistência", para usar, indevidamente, duas expressões também deleuzianas. Certa vez, sob um clima de temperatura zero, perguntei à recepcionista do hotel, em um destes países, se todas as vezes que desejasse fumar precisaria enfrentar a Sibéria que fazia lá fora. Ela disse que, segundo a lei, sim. Mas caso fumasse dentro do meu quarto, que eu "fosse discreto". Para me resguardar, a partir daquele dia, enquanto lá estive, fumei todos os meus cigarros dentro do banheiro do quarto. Com as luzes apagadas, evidentemente. O macarthismo antifumo, lamento informar, só trará um benefício: revelar como são frágeis as nossas leis, quando fundadas sobre princípios irreais. Em uma das redações em que eu passei, era proibido fumar na redação, claro, embora fôssemos maioria. A única pessoa autorizada a acender seu cigarrinho era minha patroa, que pitava livremente como um sabiá no campo. Intrigado, certa vez resolvi imitá-la e, empunhando seu cigarro aceso (daqueles longos), apontando-o para mim, ela bradou: "Não é permitido fumar na redação". Claro, eu ri. Aquela minha patroa era o Estado.
Como já imagino o asséptico inferno que nos espera, encontrei na lei de Serra uma brecha e recomendo que também a utilizem para fumar livremente. De acordo com a lei, o fumo é autorizado em recintos públicos fechados apenas quando como elementos de cultos religiosos. Então, ao burlar a lei e ser advertido, direi do alto dos meus direitos garantidos: "estou rezando".






