"Não podemos abrir mão da democracia ", diz André Iki Siqueira sobre biografias

Enquanto a questão das biografias não autorizadas é discutida no Congresso Nacional, muitos autores e artistas expuseram opiniões sobre a le

Atualizado em 08/11/2013 às 17:11, por Vanessa Gonçalves e Igor dos Santos*.

Enquanto a questão das biografias não autorizadas é discutida no congresso nacional, muitos autores e artistas esporam suas opiniões sobre a lei, tanto contra quanto a favor. O jornalista André Iki Siqueira, que escreveu um livro e fez um documentário sobre a vida do técnico de futebol João Saldanha, e foi um dos escritores que participou do manifesto na Bienal do Livro contra a necessidade de uma autorização prévia para que uma biografia seja produzida, afirma que entende os argumentos de ambos os lados da questão, mas ressalta que “existem coisas que a gente não pode abrir mão, como democracia e liberdade”.
Crédito:Arquivo pessoal Jornalista defende a liberdade para escrever biografias no Brasil
À IMPRENSA, ele afirma que entende os argumentos de ambos os lados, mas ressalta: “existem coisas que a gente não pode abrir mão, como democracia e liberdade”.

Siqueira conta que sua experiência como biógrafo foi “rara”, pois a família de Saldanha nunca o censurou ou pediu para avaliar o conteúdo das obras com antecedência. “Eles [a família de João Saldanha] nunca questionaram nada. Viram o livro e o filme no dia de seus respectivos lançamentos”, conta.
Biografias não autorizadas
O escritor critica a lei que impede a publicação de biografias não autorizadas. Na sua opinião, a medida inibe que autores produzam livros de personalidades importantes do país, especialmente em casos polêmicos, como de ex-torturadores ou políticos.

Além disso, Siqueira lembra que a produção de livros do gênero não país não visa destruir a imagem do biografado, mas trazer luz sobre a existência de alguém com alguma relevância histórica. “A história das biografias no Brasil não é de difamação. Isso ocorre apenas em um caso ou outro”, afirma.
Para ele, a importância de uma lei que libere a produção de biografias sem consentimento do retratado tem importância para o aculturamento do povo brasileiro. “Temos que pensar no Brasil, no país, na formação dessa sociedade que vem pela frente”, acrescenta.
Siqueira diz entender que alguns artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil, membros do grupo "Procure Saber", queiram proteger a intimidade de suas famílias. No entanto, ele se diz “espantado” com a posição desses artistas, pois eles têm “uma história conhecida de luta pela liberdade no Brasil”. “Eu acho que o que tem que ser visto nessa história toda [da questão das biografias] é o interesse do país. É a formação das novas gerações”, diz o jornalista.
Sobre a intenção do grupo em criar legislação que proteja a intimidade dos artistas em biografias, Siqueira diz que não há sentido em uma cláusula como essa. Na sua opinião, isso serviria como uma “barreira” para os autores.

Entretanto, defende que precisa partir do autor a responsabilidade pelas informações divulgadas em uma biografia. “O escritor precisa ter responsabilidade, trabalhar com a verdade, com fatos, documentos, com depoimentos comprovados". Siqueira lembra que outros países não contam com uma lei que proíba livros do gênero, justamente porque há medidas para punir quem mente ou publica informações inverídicas.
E defende: “não existe essa da pessoa querer ler a biografia antes. Se for assim, não vamos poder escrever nunca”, acrescenta.
Governo
Recentemente, Siqueira teve um projeto negado na Ancine (Agência Nacional do Cinema) por falta de assinatura dos filhos do personagem do filme, que prefere não revelar a identidade. Para ele, de certa forma, o governo é um dos culpados pela censura, pois não resolve o que será feito com a lei.
“A minha intenção era dizer: 'olha, vocês do governo estão prejudicando isso [resolução da questão das biografias]'. Temos o José Eduardo Cardozo [atual Ministro da Justiça do Brasil] que é favorável às biografias, mas não resolveram ainda”, comenta.
Futuro
Atualmente, o jornalista tem diversos projetos em andamento. Entre eles um livro sobre os 60 anos do Maracanã, com histórias de pessoas relembram momentos especiais no estádio carioca. “A intenção é fazer um registro sobre aquele Maracanã, que quem não viu, não vê mais”, diz.
Ele ainda trabalha na biografia do dramaturgo Dias Gomes e pretende escrever outra sobre a vida do político brasileiro Leonel Brizola.
Siqueira conta que também tem o projeto de escrever uma “biografia inventada”. A obra, que vai se chamar “O Boca”, conta a história de um personagem fictício, baseado em várias personalidades, que é o político mais popular e corrupto da história do Brasil. Com a polêmica das biografias não autorizadas como pano de fundo, o livro mostra "o biografado" perseguindo um escritor que deseja publicar sua história. “Vendo a história do Brasil, eu pensei que não conseguiria escrever histórias tão bizarras, tão corruptas como as que acontecem na realidade. Mas acho que o resultado final vai ser legal”, conclui.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves