"Não me vejo como uma mulher no futebol, mas como uma repórter", diz Mayra Siqueira

Os ouvintes da rádio CBN já se acostumaram com uma voz feminina nas jornadas esportivas da emissora, algum incomum no cenário nacional. Embora as mulheres sejam a maioria no meio jornalístico, quando o assunto é futebol, elas ainda ficam para escanteio.

Atualizado em 28/04/2014 às 16:04, por Vanessa Gonçalves.



Com o passar dos anos, muitas repórteres romperam as barreiras do meio predominantemente masculino e se mostraram não só tão capazes, quanto bem entendidas do mundo da bola, das pistas, quadras, piscinas e ginásios.

Há três anos, Mayra Siqueira assumiu um dos postos de repórter de esportes da rádio CBN, deixando de lado estereótipos e driblando preconceitos. À IMPRENSA, ela conta como deixou o nado para mergulhar no jornalismo.
Crédito:Arquivo pessoal Há três anos Mayra Siqueira é repórter esportiva da rádio CBN
IMPRENSA - Como o jornalismo esportivo entrou na sua vida? MAYRA SIQUEIRA - Fui nadadora profissional por uns dois anos, mas sempre fui muito ligada ao esporte. Embora meu pai e meus irmãos não sejam tão ligados no assunto, sempre acompanhei Copa e Olimpíadas ao lado da minha mãe. Quando fiquei naquela dúvida "o que vou fazer da vida", minha mãe sugeriu que eu fizesse jornalismo, porque achava que tinha meu perfil. Eu não sabia muito bem como "comprar" uma profissão, mas acabei me interessando e gostei. Eu nem tinha bem intenção em trabalhar com esportes, eu queria mais trabalhar com política, alguma coisa assim, mas meu primeiro estágio foi portal e não consegui mais sair. E não pretendo sair. É realmente o que eu gosto de fazer.
Como é ser mulher neste espaço majoritariamente masculino? Acho que não é tão difícil como eu esperava, mas a gente encara alguns pequenos machismos no dia a dia. Mas acho que é um pouco implícito demais na cabeça das pessoas, até em certas mulheres. Mas uma coisa que eu sempre tento falar quando me perguntam este tipo de coisa é que não me vejo como uma mulher no futebol, mas como uma repórter trabalhando com futebol. Sempre tento frisar esta diferença.

Eu tenho a mesma capacidade que qualquer outro homem tem de falar sobre isso. A única diferença entre homens e mulheres que trabalham com futebol é criação, ou seja, de uma forma geral, os homens são criados desde sempre para gostar [de futebol] e não necessariamente as mulheres; por isso rola um pouco de preconceito. Já estou há três anos na CBN e há cinco anos no jornalismo esportivo e os colegas me respeitam. Então, não vejo nenhum tipo de comentário machista com relação a mim. De vez em quando acontece com um entrevistado, com pessoas do meio do futebol, técnicos que dão indiretas, que olham “torto" e respeitam menos, mas não por ser mulher, mais por ter cara de ser mais nova do que sou.
Como dribla essas situações? Olha, a primeira vez que eu estive em uma situação de machismo foi bem no comecinho, quando eu trabalhava na Trivela. Fiz um post no blog falando a respeito das eliminatórias da Copa do Mundo e um dos comentários era assim: 'nossa, nunca li tanta besteira junta, tinha que ser mulher'. Fiquei acabada com aquilo. Conversei com meus editores e eles me falaram para esquecer aquilo. Depois fui encarando de uma forma mais fácil, muito mais tranquila. É como sempre digo: eu não sou uma mulher, sou uma repórter de futebol. Então, não consigo ver diferença, não consigo achar que sei mais ou menos por essa questão. Eu posso saber menos porque me preparei menos ou porque a outra pessoa se preparou melhor do que eu, não pelo fato de eu ser mulher. Isso não faz o menor sentido.
E como é sua relação com os ouvintes? Essa é uma parte muito legal. Tem muitos homens que ouvem e tem até bobagem, como pedido de namoro, de casamento, e essas coisas. É engraçado e eu acho que dá um toque diferente ter uma mulher na equipe, porque rádio é só voz. Então, você tem uma voz que destoa completamente das outras é algo que chama atenção e é bom, pois acaba prendendo a atenção do ouvinte. Mas na rádio ninguém me trata diferente. Em nenhum momento nosso próprio veículo, a CBN, fala “temos uma mulher que entende de futebol”. Não, temos uma repórter, que é mulher, e a tratamos com cavalheirismo, sem ser de uma forma machista. Então, em nenhum momento eles ficam batendo nessa tecla. Mas é bacana a relação com o ouvinte.
Você vai fazer sua primeira Copa como repórter? Qual a expectativa? Sim. É muito bacana. Não temos o planejamento certo, mas está quase certo que eu vou cobrir uma das cidades-sedes, talvez seja Recife ou Curitiba. Estou muito empolgada, pois em 2010 eu já trabalhava, mas era estagiária e acompanhei pela TV, que não tem graça nenhuma. Mas agora vai ser bem bacana, primeiro contato com seleções europeias. Estou muito ansiosa.
E quais são seus planos para o futuro? Quando eu entrei em jornalismo eu não pretendia trabalhar em esporte. Quando eu comecei no esporte, não pretendia trabalhar em nenhum veículo que não fosse escrito. Comecei em site, depois fui para o GloboEsporte.com, em seguida fui parar numa rádio, onde achei que nunca iria trabalhar na vida. E eu descobri que eu ia bem e que eu gosto disso, do lado artístico que o rádio tem. Então, não descarto a possibilidade de trabalhar em TV, algo que nunca quis. Se eu tiver uma oportunidade na TV seria ótimo, um desafio novo. Eu abracei o desafio do rádio e hoje vejo que deu um resultado legal, mas não é algo no qual estou pensando.
Tenho vontade e ambição de escrever um livro, mas seria, provavelmente, sobre alguma coisa voltada à natação, que é algo do qual eu mais gosto. Natação foi minha vida por muito tempo e é algo que me interessa demais.


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