Muita informação e pouca sabedoria

Muita informação e pouca sabedoria

Atualizado em 26/03/2009 às 17:03, por Igor Ribeiro.

Há um blockbuster estadunidense chamado "Efeito Borboleta" que já passou bastante por aqui e inclusive gerou uma seqüência. Tem um roteiro mal-executado, mas um argumento interessante. Para quem não sabe, rodeia a vida de um rapaz que descobre ser capaz de voltar no tempo quando relê atentamente antigos diários relativos ao período específico ao qual deseja regressar. A diferença desta para outras ficções científicas sobre deslocamento temporal é que o jovem (pessimamente interpretado pelo marido da Demi Moore, o Ashton Kutcher) viaja mentalmente, não fisicamente. Ou seja, ele transfere sua mente consciente de homem de 20 e poucos anos para o próprio corpo de criança de 15 anos antes. A partir daí ele não consegue voltar imediatamente ao futuro como o faz com o passado, pois os acontecimentos futuros, reescritos pelas suas ações, se tornam possibilidades remotas, embora não deixem de ser memórias suas. Ele "revive sua vida" constantemente ao decorrer do filme. O personagem de Kutcher começa a ter sangramentos nasais, que revelam ter origem em danos cerebrais em decorrência da inflamação de uma área do córtex relativa ao acúmulo de informações e memórias.

Esse pequeno retrospecto introdutório serve de analogia para uma sensação que tenho constante e crescentemente ao passar dos anos. Ela se tornou ainda mais crítica quando, recentemente, passei a usar o Twitter, e pode ser resumida assim: às vezes acho que minha cabeça vai explodir, por causa de tanta informação.

Me pergunto se a média das pessoas se sente como eu, ou se é uma coisa restrita da minha geração e das anteriores. As novas, nascidas entre a realidade digital, já estariam sofrendo adaptações genéticas que possam acomodar todo esse volume crescente de informação. Seria natural, meu caro Darwin. Será que nossa massa encefálica hoje é maior do que a dos nossos antepassados, anteriores à Gutemberg? Será que aquelas especulações ufólogas com alienígenas cabeçudos e intelectualmente superiores não são de todo infundadas? Ou serão nossos bisnetos seres humanos com adaptações cibernéticas com slots de memória para até 500 mil ZettaBytes?

Difícil saber... Mas eu invejo essa capacidade de atualização das novas gerações, pois me esforço bastante para conseguir acompanhar as novidades de TI e fico um pouco aflito cada vez que não dou conta. Essa vontade remete a muito antes da internet, quando meus livros de cabeceira eram a coleção completa da enciclopédia "Conhecer" da Abril e um dicionário ilustrado maravilhoso que pertenceu ao meu avô, pelo qual vivo perturbando minha mãe. Ver nascer e acompanhar TV por assinatura, sites de notícia, blogs, poscasts, vídeos na internet, mensagens SMS e, mais recentemente, o Twitter tem tirado um pouco do espaço dedicado à memória afetiva e familiar - afinal, ainda tive que poupar espaço para impressos em geral, notadamente jornais, revistas e livros. E isso é triste, pois estou de fato esquecendo datas, acontecimentos familiares e nomes de amigos com uma facilidade absurda para quem atravessa os 30 anos. E eu fiz essa escolha, a de acompanhar esse ritmo tecnológico ensandecido e sacrificar um pouco das memórias gostosas e modestas de uma vida que ainda está pela metade (ou no seu primeiro terço, espero).

Essa sede por conhecimento é um pouco inexplicável e muito idiota - por mais paradoxal que tenha soado a frase anterior. Um pouco inexplicável porque há, nas entrelinhas, um desejo de sucesso profissional, sim, mas há muito mais que isso: é um gosto simples e despretensioso de querer saber das coisas, de poder formular opiniões, de conseguir refletir sobre elas e formular linhas claras de pensamento, ajudem ou não as pessoas a minha volta, a sociedade, a família ou o clube da esquina. O muito idiota fica justamente pela parte inexplicável da questão: por mais que se acumule conhecimento, mais distante fica o motivo cabal de sua busca. É como ciência e religião: por mais que se desenvolva a gnose científica, mais ela chuta para frente qualquer explicação coerente sobre a inexistência de Deus.

Esse desencontro me faz pensar que certos estavam os gregos que inventaram a escola: tudo o que fizemos depois foi uma grande besteira. Relembro de uma citação recente para uma matéria, do autor de literatura infantil Ilan Brenman, ele próprio um estudioso de letras e de educação, doutor pela USP. Ele me lembrou que a palavra "escola" vem do grego skholê, que significa "ócio". "Quando Platão e Sócrates criaram as primeiras escolas, eram lugares nos quais deveria se ter tempo para entender, ler, estudar, observar e aprender. Infelizmente, isso perdeu o sentido, hoje, em toda esfera de conhecimento, e a literatura caiu na roda viva da escola moderna", me disse Brenman. A saga por conhecimento e informação me faz perceber o quão valioso é o nascimento da filosofia Ocidental, ao mesmo tempo em que me enche de respeito pela milenar sabedoria Oriental. Por mais que uma seja orientada pela razão e outra pela emoção, estas são somente pontas de um conhecimento muito mais puro e empírico, de carinho pela natureza e pela essência humana. Na busca desenfreada por conhecimento, são muitas vezes esses os valores que deixamos para trás.