Moças de fino trato
Moças de fino trato
Procuram-se para namorar, noivar e casar, mas também moças mais liberais para "curtir as delicias da vida". Esse era o teor dos anúncios encaminhados por leitores ao caixa postal da revista O Riso, publicação editada no Rio de Janeiro a partir de abril de 1946 e que ainda circulava em 1951, último ano da coleção de nossa propriedade. Revista quinzenal dirigida inicialmente por Alarico da Silva Lisboa e Ernesto Iritz e redigida por Edgar de Abreu. Publicação que afirmava ter uma tiragem de 50 mil exemplares e incomodava a Corregedoria da República que por mais de uma vez determinou a sua apreensão. Os editores protestavam: "Poderíamos, no caso, julgar muito mais nocivos e pornográficos certos livros, quadros tidos como artísticos, costumes de banhos de linhas avançadas e outras tantas coisas que a tolerância e o esnobismo classificam como arte... Só maldosamente e preconcebidamente poderá O Riso ser imputado de imoral e pornográfico e taxado de veículo de recalques".
Pornográfica também parecia à Corregedoria uma outra revista editada por Edgar de Abreu, redator de O Riso, denominada Naturismo, que circulou em 1953 e seu objetivo declarado era divulgar as vantagens do naturismo no mundo. O problema era as ilustrações, fotos em P&B de nus de mulheres americanas e européias e na capa, invariavelmente, um nu em policromia, artístico, mas que deixava evidenciar seios e púbis de loiras atraentes. Ambas as publicações O Riso e Naturismo constituíam um gênero jornalístico não convencional, magazines para serem lidos às escondidas. Revistas de quarto e não de sala de estar. Que atendiam um público carente, reprimido e os tímidos do Brasil que nesses idos da década de 50, descobriam o mundo através da TV.
Correio sentimental
O Riso era um anedotário com piadinhas de segundo sentido para a época, material inteiramente fornecido pelas agências de noticias internacionais, incluindo as suas ilustrações. Mas era o espaço local, denominado "Correio Sentimental" que de fato empolgava os leitores e gerava o tráfego: páginas e mais páginas de anúncios classificados, no estilo "procura-se", aqui referido no início deste artigo. Os leitores usavam pseudônimos, alguns curiosos como Caboré que procurava "moças de até 33 anos que sejam castas", ou Maria Tudor que insinuava: "Ensine-me algo; há muito que fugi da escola". Ou, então, Desiludida a baiana que queria "uma alma gêmea" e se identificava como "sentimental, meiga e feia". Menores de idade também procuravam amizades como a garota de 15 anos, codinome Deusa do Amor e se definia como "lindíssima" desejando "corresponder-se com rapazes de todo o Brasil".
Os recados eram diretos, objetivos como o de Aldo Ubirajara do Piauí: "Aló brotinho! Deseja conhecer um malandreco? Sou rico e simpático..." Rica e simpática também era Angela de São Paulo que procurava um homem maior de 30, "alto, culto e elegante". Já o rapaz que se identificava como Grã Duque dos Vira-Latas procurava "moça que queira suavisar-lhe a vida, e que seja independente". A senhorita Greer Garson anunciava próxima viajem ao Rio de Janeiro e procurava "Um moço grã -fino, simpático, amoroso, de 23 a 26 anos, para lhe servir de cicerone e tornar a sua estadia maravilhosa". Na mesma linha Godor, "rapaz forte, moreno, com automóvel" procurava uma loira bonita para se divertir nas feiras, no Rio ou em São Paulo. Aki, por sua vez, dizia ser viúvo e pardo, queria conhecer uma moça, mas fazia objeção: "que não seja preta".
A fina flor do humor
A revista publicava em média cem anúncios de seus leitores por edição e se dava ao luxo de comentar a exclusão de alguns deles, esclarecendo os motivos, numa seção de recados com essa finalidade. Recadinhos como "Charles Atlas-seu anúncio é forte demais", ou "Laiz- não podemos publicar isso", ou "Góes-não serve para O Riso, é sentimental demais", ou ainda: "Sonhadora-mude de pseudônimo. Temos vários anunciantes com esse nome". Recados também destinados a todos os leitores, quase sempre comunicando noivados e casamentos nascidos no Correio Sentimental.
Impresso nas oficinas do Jornal das Moças, O Riso tinha um respeitável corpo de colaboradores nomes consagrados como o do poeta e publicitário Bastos Tigre; os humoristas Alvarenga e Ranchinho, protagonistas de mais de 30 filmes; Zê Fidelis, o one-man-show do Cassino da Urca; Malha Tahan, o cronista do jornal A Noite, autor de 56 livros; Jorge Murad, escritor, produtor de TV e humorista, o "sultão da alegria" das Rádios Clube e Philips; Prof Zé Bacuraú, apresentador do programa "Espada de Jacó" da rádio Tupi e um dos editores do O Espeto, revista de humor e sátira da década de 40. Contava ainda com o traço de Jorge Sá o criador dos personagens "Réco-Réco, Bolão e Azeitona" do Tico-Tico, primeiro grande sucesso das histórias de quadrinhos nacionais.






