Michael Holmes, o âncora da CNN, em 3 X 4
Michael Holmes, o âncora da CNN, em 3 X 4
Fotos: Divulgação e João Kopke
Um dedo de prosa com Michael Holmes vale por dez aulas de jornalismo. O âncora da CNN nunca se limitou às quatro paredes de um estúdio de TV, sempre quis ganhar o mundo. Uma redação não lhe bastava. Seu destino era cruzar itinerários, on the road , descobrindo novas pautas, topando desafios de um perdigueiro da notícia. Cobriu conflitos cujos lances sempre ficarão gravados na retina de quem os viu. Alguém mais gozador poderia brincar que o âncora do "Your World Today" enfrentou perigos de guerra que o credenciariam a uma seqüência de "Indiana Jones". Em 2002, escapou por muito pouco de ser atingido pelos tiros de uma tocaia de soldados rebeldes iraquianos, nas proximidades de Bagdá. Nessa ofensiva, dois companheiros de sua equipe morreram. Holmes também é doutor em revoluções, acompanhou in loco a da Romênia e a da República Checa, por exemplo. Uma suada entrevista com o falecido líder palestino Yasser Arafat, direto do bunker em Ramallah, ornamenta igualmente o seu currículo.
Michael Holmes desembarcou no Brasil para debater os rumos do telejornalismo na Feira da ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura) e promover os 25 anos da CNN Internacional.
Em entrevista exclusiva ao Portal Imprensa, Holmes dá um aperitivo de uma vertiginosa carreira que começou precocemente aos dezesseis anos. Nota da redação: o apresentador jamais freqüentou os bancos acadêmicos. E precisa?
IMPRENSA - Quais são as expectativas nas comemorações dos 25 anos da CNN Internacional?
Holmes - O tempo de existência da CNN Internacional é um marco importante para o jornalismo televisivo. Tudo mudou com a existência dessa emissora, pessoas do mundo todo começaram a receber notícias internacionais, dando maior importância os temas e a maneira como começaram a ser cobertas também. Sem contar a habilidade de atingir um número tão grande de pessoas. E comemorar 25 anos é uma prova concreta de que esta funcionando.
IMPRENSA - Por ter começado no jornalismo muito cedo, como foi o começo da sua carreira?
Holmes - Fui muito sortudo. Não fiz faculdade. Terminei o ensino médio e já consegui trabalho num jornal, o "Daily News", em Perth, oeste da Austrália, com apenas 16 anos de idade. Aos 20 anos era o correspondente de Sidney desse jornal. Para mim foi muito melhor do que ir para a faculdade, pois aprendi de um jeito muito prático. Com 21 anos, quando a maioria das pessoas ingressam na universidade, eu já era um jornalista há quatro anos, na verdade, já era um correspondente. Muita coisa aconteceu comigo muito mais cedo do que acontece para a maioria das pessoas.
IMPRENSA - Quando você começou na CNN? E quanto tempo depois vc foi para a cobertura internacional? E qual foi sua primeira cobertura internacional?
Holmes - Fui de jornais para a televisão depois de quatro ou cinco anos trabalhando em impressos. Trabalhava em Perth quando decidi que queria ir para Londres. Pedi demissão sem ter um trabalho certo para começar em Londres. Depois de viajar pelo Europa por um tempo, comecei a trabalhar na imprensa britânica. Trabalhei para o jornal "The Observer" por um tempo, em algumas agências de notícias, alguns trabalhos para a "BBC World Services". E depois de um ano, o jornal para o qual trabalhava na Austrália me ofereceram um trabalho em Londres de correspondente europeu. Foi muita sorte estar na Europa num período daquele! Cobri a queda do muro de Berlin, a revolução na Romênia, a revolução Tcheca, o Iatolá que morreu no Irã, os vinte anos de conflitos na Irlanda do Norte e muito mais. Uma vez que estava de volta à Austrália, tendo coberto várias histórias que ajudaram na minha carreira, fui cobrir o genocídio em Ruanda em 1994. E então em 1996 a CNN me ofereceu um trabalho. Sou o primeiro australiano a ancorar um telejornal nessa emissora.
IMPRENSA - Em sua opinião, qual a diferença entre ser um âncora e um correspondente?
Holmes - Minha experiência como correspondente me ajudou a ser um âncora melhor. Por exemplo, cubro o conflito entre Israel e a Palestina desde 1997. Então, quando estou apresentando o jornal e tem uma chamada naquela região, conheço as pessoas, a história do lugar e a geografia também. Lembro quando Israel fez o cerco a Yasser Arafat, em 2002, e eu estava lá de correspondente. Meses depois, outro grande ataque israelense aconteceu em território palestino e eu estava de volta aos estúdios, apresentando o jornal. Conseguia identificar na panorâmica do vídeo onde o escritório do Arafat estava localizado, onde seus seguranças ficavam, onde estavam as principais mesquitas, etc. Estava apto a dar indicações, se eu não estivesse estado lá antes, não saberia essas coisas. É uma boa mistura poder fazer os dois.
IMPRENSA - A função do âncora muda de país para país e de empresa para empresa. Na sua opinião, qual deve ser o papel do âncora?
Holmes - Para mim, há uma enorme diferença entre ser um âncora e um leitor de notícias. Um leitor de notícias é aquele que senta em frente às câmeras, com aparência impecável, lê e para ele esta ótimo. Como âncora tem que se saber lidar com tudo ao mesmo tempo. Essa é a diferença, ser âncora é para jornalistas. E cada empresa de comunicação tem regras diferentes para isso. Nos EUA, por exemplo, nos jornais locais, a maioria dos apresentadores são leitores de noticias, se ha uma pergunta a ser feita, o produtor a formula. Enquanto em grandes companhias, como BBC, Sky, etc, o produtor nunca fala qual pergunta fazer. Óbvio que nós formulamos as perguntas e não precisamos que nos digam do que a história se trata. Há que se ter um conhecimento muito amplo e trabalhar muito para estar sempre pronto.
IMPRENSA - Pelo que se pode concluir o "Your World Today" leva o seu estilo do ágil.
Holmes - O jeito que apresento é sendo simplesmente eu mesmo, nada é intencional. Não tento fazer uma voz de apresentador, ter uma aparência de apresentador ou ser outra pessoa. Mas, é verdade, o estilo do jornal que apresento é mais relaxado, ainda que não seja tão informal. Pois o ponto principal do que eu faço é comunicar-me com os telespectadores e não acho que há uma identificação com alguém que apareça rígido e com falas formuladas no vídeo. A teoria é de que se está falando com uma só pessoa, não milhões ou bilhões delas, então precisa ser uma conversa em que o público o ache uma pessoa normal, que os está contando o que está acontecendo.
IMPRENSA - Você já enfrentou alguma situação de risco nos conflitos que cobriu?
Holmes - Sim, muitas vezes. Por exemplo, tropas israelenses já atiraram em minha direção duas vezes na Palestina. Em Bagdá, minha equipe e eu sofremos uma emboscada na última vez que estive lá, em janeiro do ano passado. Estávamos em dois carros, indo para Bagdá e fomos atacados por outros dois carros, nos quais os homens ficaram em pé pelo teto solar, segurando armas do tipo AK 47 e começaram a atirar. Meu tradutor e um dos motoristas foram mortos. E o cameraman que estava sentado do meu lado foi atingido na cabeça, mas sobreviveu. Tivemos muita sorte. Um dos nossos homens tinha uma arma e atirou de volta. Se não tivesse feito isso, todos estaríamos mortos agora. Foi por pouco! Foi o mais perto que o perigo pode chegar. Já estive em muitas situações em que muitas armas estavam sendo usadas. Atiraram contra mim, no mínimo, três vezes. E isso não é engraçado. Ser um correspondente de guerra não é nem um pouco glamuroso ou divertido . Perdi, aproximadamente, dez amigos no Afeganistão, Palestina, Iraque, etc. O perigo é real. E eu não quero morrer! Mas há certos riscos que vale a pena serem tomados, a história vale ser contada.
IMPRENSA - Sobre a entrevista exclusiva que você fez com o líder palestino, Yasser Arafat, quando ele estava sob cerco de Israel, no seu bunker em Ramallah. Como foram os bastidores? Uma vez que existem muitas regras para entrevistar uma figura política como essa.
Holmes - Foi dramática e engraçada ao mesmo tempo, por que não planejei conseguir entrar. Estávamos do lado de fora, esperando pra ver o que ia acontecer, os israelenses fazendo o cerco com armamento pesado. E, de repente, umas vinte pessoas - entre médicos, palestinos, etc -, estavam protestando, pedindo paz, vieram da rua em direção os portões, caminhando sem parar. Haviam tanques de guerra, atiradores de elite e eles continuavam andando. Então, quando procurei pela minha colega de trabalho, que estava trabalhando de câmera, ela estava andando com eles! Corri para junto dela! Todo mundo olhava como se fossemos loucos. Então, os atiradores começaram a atirar no chão, não na gente, tiros preventivos. Continuamos andando e entramos no prédio. De repente estávamos lá dentro com essas pessoas que estavam no cerco por alguns dias já, estava muito lotado e fedorento. Fiquei muito surpreso de me encontrar ali. Foi quando ouvi alguém chamar meu nome, era um dos assessores do Arafat que me conhecia. Ele me chamou para ir até a sala de conferência onde Arafat e muitas pessoas estavam reunidas. E eles disseram "Sem perguntas!", e eu, claro, comecei a perguntar imediatamente. Nós conseguimos a única entrevista com ele em inglês, porque havia um outro jornalista palestino lá também. Foi uma exclusiva gigantesca. Mas, não foi por que fui corajoso, foi porque eu segui a câmera! (risos)
IMPRENSA - O que vc acha da prisão da jornalista Judith Miller, do jornal americano "The New York Times", por ela não ter revelado sua fonte? Acha que foi uma afronta à liberdade de imprensa?
Holmes - Acho que os jornalistas protegerem suas fontes é algo vital, que tem que ser feito. Judith Miller é uma jornalista muito controversa nos EUA, mas acho que fez a coisa certa. Foi lastimável o fato dela ser presa. Mas, admiro seus princípios. Ela não abandonou sua fonte. Mesmo que agora todo mundo sabia quem é a fonte. Muitos jornalistas já foram presos ou continuam presos pelo mesmo motivo em todo o mundo e não devemos nos esquecer deles também. Judith Miller é apenas mais uma jornalista.
IMPRENSA - O que você tem a nos dizer sobre a atual relação entre a mídia nos EUA e o presidente George W. Bush?
Holmes - Acho que no começo do mandato do Bush a imprensa era muito amigável e, depois do 11 de setembro de 2001, a mídia apoiou ainda mais o presidente, havia um sentimento de patriotismo. Mas, agora mudou. Agora acho que ha mais questionamentos sobre o tipo de administração que esta sendo feita. O que de certa maneira é normal, pois já é o segundo mandato e as coisas já não são mais tão amigáveis. E acho isso bom. Por exemplo, há empresas de comunicação que vieram a público se desculparem por seu tipo de comportamento, por não terem questionado suficientemente as razões pelas quais o governo queria a guerra contra o Iraque, antes da guerra começar. O "The New York time" fez isso! E tenho que admitir, a mídia não questionou o suficiente antes da guerra começar e, apesar de saudável, agora acho que é tarde para reavaliações da mídia nos EUA.
IMPRENSA - A respeito de reportagens sobre a política interna dos EUA, você tem feito alguma?
Holmes - Nós cobrimos tudo quando estamos trabalhando como âncoras. Eu, pessoalmente, não cubro a Casa Branca, mas se estou apresentando o jornal, falando com o correspondente de lá, eles são os especialistas, estão lá o tempo todo.
IMPRENSA - Qual e a reportagem que você ainda não fez e gostaria de fazer?
Holmes - Já fiz muita coisa, tenho uma ótima carreira, me sinto muito afortunado. Mas, sempre haverá coisas novas, historias e experiências diferentes a serem vividas. Gostaria de entrevistar Osama Bin Laden, Sadan Hussein, mas não sei se isso vai acontecer num futuro próximo.
IMPRENSA - Que impressão ficou sobre o Brasil nessa semana que você passou aqui?
Holmes - Já estive por toda a Ásia, Oriente Médio e Europa, parte da África e nunca tinha vindo a América Latina! O que até então era uma pena! É minha primeira vez e está sendo ótimo! Tive a oportunidade de conhecer jovens estudantes e colegas de profissão brasileiros. E pude aproveitar também. O clima esteve sempre muito agradável. Pude ir ao Rio de Janeiro por um dia, só para visitar, foi adorável! Partirei com ótimas memórias, gostaria de voltar para ficar mais tempo. Na verdade, tinha planejado tirar uma semana de férias aqui depois dessa semana de compromissos e ir para a Amazônia, mas não deu certo por motivos profissionais. Então, eu voltarei!
IMPRENSA - Ainda que tenha sido muito breve seu contato com a imprensa brasileira, qual e a sua opinião sobre ela?
Holmes - Eu não sei o suficiente sobre isso, não tive a chance de examinar. E não ajuda muito quando você não fala a língua. Eu tive a chance de conversar um pouco com o Willian Waack (Rede Globo) e Carlos Nascimento (Rede Bandeirantes) na palestra em que participamos. Eu estava interessado em saber a opinião deles sobre a atual crise política no Brasil e sobre o mercado de jornalismo aqui. E para mim o mercado me parece muito profissional, tecnologicamente atualizado e competitivo. Me pareceu uma indústria muito vibrante.
IMPRENSA - Se tivesse que fazer uma série de reportagens no Brasil, qual seria o tema abordado?
Holmes - Meio ambiente. Iria para a Amazônia. Ou então, faria um documentário sobre surfe no Brasil! (risos)
IMPRENSA - Você surfa?
Holmes - Sim, sim. Eu sou australiano! Eu cresci surfando. E Atlanta (onde ele mora) não tem praia, o que é muito triste.
Leia o Perfil de Michael Holmes na edição nº 205 de IMPRENSA (Setembro 2005)






