"Maior ameaça de pautas no morro vem de quem deveria proporcionar paz", diz jornalista

As comunidades no Brasil abrigam os extremos da nossa sociedade. Nela, cidadãos e pessoas ligadas ao crime convivem em conflito. Com o perigo morando ao lado, as favelas vivem em tensão permanente.

Atualizado em 20/02/2014 às 17:02, por Christh Lopes.

Na eventual possibilidade de ocorrer situações imprevisíveis, a subida aos morros motiva uma grande reportagem. Assim era a rotina do jornalista Tim Lopes, que morreu ao tentar trazer ao público a realidade dessas localidades.
Crédito:Divulgação/Governo do Estado RJ Cobertura das comunidades exige jogo de cintura dos jornalistas
Os riscos que os jornalistas passam ao dar a notícia em situações que exigem extremo cuidado são parte do especial sobre “os perigos de ser jornalista no Brasil”, que retrata em quatro temas - , , Comunidade e Futebol - os meandros da profissão.

A cobertura nas comunidades exige precauções. IMPRENSA, ouviu profissionais que cobrem o dia a dia dessas localidades para mostrar os perigos que os jornalistas enfrentam em sua rotina diária.
Relacionamento com líderes é fundamental
O jornalista Bruno Paes Manso foi um dos pioneiros a subir ao morro, sem negociar com traficantes, após a morte de Tim Lopes. Ele fez a cobertura, em 2007, da reação dos moradores do complexo do alemão após operação da polícia que pretendia tomar o local do domínio dos criminosos. A reportagem ficou em segundo lugar no Prêmio Estado, na categoria de jornalismo investigativo.
Manso negociou a visita ao local com líderes do Afroreggae, organização não-governamental que faz projetos sociais no morro. “Eu entrei com o Afroreggae. Fui inclusive com a camisa deles. Eles brincaram que era meu escudo, meu colete à prova de balas. Como eles tinham um trabalho social lá, havia certa legitimidade para trabalhar com o pessoal”.
Para o jornalista, conhecer a lideranças minimiza os possíveis problemas, uma vez que a confiança estaria estabelecida. “Tem que saber se relacionar. Não acho que tenha grandes perigos, acho que desde que você saiba chegar ao local e tenha certo cuidado para que as pessoas façam um meio campo na sua chegada. Aí o perigo deixa de existir”.
A cobertura necessita da realidade A frequência com que visitava o morro e as infinitas possibilidades proporcionadas nas comunidades fez com que a jornalista Mariana Albanese seguisse o sonho de criar um projeto que proporciona uma visão diferente da qual estamos acostumados sobre o Vidigal.

O reúne conteúdos do cotidiano do bairro da zona sul do Rio de Janeiro , com notícias sobre eventos, planos sociais e oficinas no local. Sua relação com a segurança era diferente, por ser moradora do morro. Com a facilidade de viver dentro da comunidade, “qualquer tipo de apuração já tinha meio caminho andado, porque as coisas acontecem debaixo dos nossos olhos”.

Entretanto, com a chegada das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s), que pretendiam garantir segurança aos cidadãos, foi restringido o direito de liberdade de imprensa de quem fazia cobertura independente. “Tive muito mais problemas com liberdade de imprensa após a UPP, porque eles sempre acham que você está fazendo algo contra eles. Já os presenciei pedindo para jornalistas abaixarem a câmera, quando o foco era um simples grafite no muro”.
A jornalista afirma que obedecia a uma conduta que era de todos . “Mesmo sabendo das coisas, não publicava. Primeiro, claro, para não me expor; segundo, porque não acho que dizer simplesmente que morreu alguém, em tais circunstâncias, vá contribuir com algo, se eu não explicar o contexto. E isso exige a atenção que não posso dar no momento - mas que um veículo grande, amparado por estrutura e advogados pode, mas não faz”.
Mariana critica a espetacularização da cobertura jornalística nas comunidades e reafirma o compromisso do jornalista em dar a notícia apresentando o contexto no qual ocorreu o fato. “A segurança de um jornalista na cobertura de um conflito está diretamente ligada ao que ele conhece daquele conflito. Se rola um tiroteio no dia seguinte, as pessoas que se conhecem e confiam mutuamente em si falam abertamente sobre quem atirou primeiro, quem morreu, o motivo. Se for inocente morto pela PM, não precisa sequer ir na favela. Só se fala disso no Facebook".

Para a jornalista, é uma estupidez da grande mídia transformar um tiroteio em espetáculo, levando um cinegrafista para a zona de conflito, no que ela entende como uma tentativa de produzir "dois minutos de Tropa de Elite do mundo real na TV", sem trabalhar para esclarecer e cessar esses conflitos. "É como jogar os profissionais no corredor da morte", afirma.

Cética quando à paz promovida pela polícia, ela ressalta a insegurança da mídia independente nas comunidades e conta uma situação em que foi impedida de exercer seu trabalho. “Meu celular foi arrebentado e levei um tapa na cara quando tentava filmar a demolição ilegal da quadra de esportes do morro. Quem queria derrubar era a UPP e quem me agrediu foi um policial. Por isso, reforço: para mim, a maior ameaça de cobrir pautas no morro vem de quem deveria proporcionar a tal paz”.
Poder paralelo é a principal dificuldade Virgínia Rigot-Muller, editora do projeto “ ”, credita os obstáculos da cobertura jornalística nas comunidades ao poder paralelo que controla as favelas. “Neste caso, é difícil ter acesso a fontes que aceitem se identificar. Nestes territórios, é também complicado circular livremente - ainda mais quando há conflito armado".

Na opinião dela, outra dificuldade é a credibilidade das informações, mesmo quando divulgadas por órgãos oficiais. "Quando há suspeita de relação controversa com o tráfico de drogas, por exemplo, estas devem ser tratadas com o devido cuidado”.
Sobre o projeto desenvolvido pela ONG Viva Rio, ela afirma que o grande sucesso do site é a facilidade de possuir correspondentes próximos aos locais e os temas das matérias serem solicitações feitas pelos próprios moradores. “Sendo assim, conhecem as dificuldades de seu território e suas eventuais entradas. No entanto, eles também cumprem as regras de segurança impostas pela situação dentro de suas comunidades”.
Para Virgínia, o jornalista que cobre comunidades deve se preocupar não somente com sua segurança, mas também com as de suas fontes. “É preciso respeitar o anonimato, quando solicitado, e divulgar a notícia no limite imposto por ela, quando isto envolve sua segurança. É uma fronteira ética indispensável e é o que vai permitir também ganhar a confiança de suas fontes - e continuar noticiando sua comunidade”, conclui.